AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

O desaparecimento dos gigantes da fé

| 05/05/2021

De vez em quando temos a sensação de que se está a passar na porta giratória para um mundo diferente. Em especial quando se toma consciência de que alguns dos maiores gigantes do mundo cristão nos deixaram.

io

René Padilla

René Padilla: “O “pai” do conceito de “missão integral” que revolucionou as teologias do continente, em particular a missiologia.” Foto: Retirada do sitio oficial do Facebook

 

 O mais recente foi o grande teólogo e pensador protestante latino-americano René Padilla (1932-2021), o “pai” do conceito de “missão integral” que revolucionou as teologias do continente, em particular a missiologia. Com estudos em filosofia nos Estados Unidos e doutoramento em teologia em Inglaterra, Padilla foi membro-fundador da Fraternidade Teológica Latino-Americana, dirigiu a editora Kairos, ligada à Fundação Kairos e presidiu à Tearfund, uma instituição internacional de solidariedade social. Em 1999 criou e dirigiu a Rede Miqueias, uma comunidade global de cristãos que conta com 550 membros em mais de 80 países, incluindo Portugal e que junta ONG´s, organizações humanitárias, missionárias, escolas, igrejas e indivíduos mobilizados e comprometidos com a missão integral.

Nascido no Equador fixou-se na Argentina, tendo mantido actividade significativa como autor e organizador de obras publicadas em diversas línguas. Como David C. Kirkpatrick escreveu no seu obituário “Padilla era mais conhecido como o pai da missão integral, uma estrutura teológica que foi adoptada por mais de 500 missões cristãs e organizações de ajuda humanitária, incluindo Compassion International e World Vision. A missão integral levou os evangélicos ao redor do mundo a ampliar a sua missão cristã, argumentando que a acção social e o evangelismo eram componentes essenciais e indivisíveis – nas palavras de Padilla, ‘duas asas de um avião”.

Padilla teve a coragem de, ao discursar no Congresso de Lausanne (1974) perante quase 2.500 líderes evangélicos e protestantes de mais de 150 países e 135 denominações, ter interpretado “as esperanças e sonhos de muitos evangélicos do Sul Global que buscaram igualdade na tomada de decisões de igrejas e organizações missionárias em todo o mundo.” Em particular
Padilla exortou os americanos a arrependerem-se de exportar o “american way of life” para campos missionários em todo o mundo, desprovidos de responsabilidade social e cuidado com os pobres, defendendo assim um conceito de “missão integral”. Uma frase que ficou foi: “Jesus Cristo veio não apenas para salvar a minha alma, mas para formar uma nova sociedade”.

Apesar de ser convidado recorrentemente para assumir cargos na América, este filho de um alfaiate optou por permanecer na América Latina, pastoreando entre os pobres, ele que, ainda muito jovem foi moldado por um contexto de violência, opressão e exclusão, vendo a sua casa atacada com bombas incendiárias e tendo sofrido várias tentativas de assassinato contra ele e o seu pai devido ao testemunho da fé.

Padilla irritava alguns dos seus críticos, que se recusavam a considerar a ética social como parte da mensagem do evangelho, pois cheirava-lhes a evangelho social e liberalismo teológico. Mas aquilo que René Padilla – aliado a Samuel Escobar, Pedro Arana e outros – fez com a sua região de origem, a América Latina, terão os europeus de fazer com a Europa, isto é, uma autonomização da influência teológica americana, de características marcadamente imperialistas.

Ainda Kirkpatrick: “A relação entre sofrimento e teologia era orgânica para Padilla. Quando jovem, ele lembrou ‘o desejo de compreender o significado da fé cristã em relação às questões de justiça e paz numa sociedade profundamente marcada pela opressão, exploração e abuso de poder’. A questão para Padilla não era se o evangelho falava para um contexto desafiador da América Latina, mas como. Essas perguntas levaram Padilla a buscar respostas na educação teológica e no ministério prático entre estudantes universitários.”

O desaparecimento das grandes figuras de homens e mulheres que ficaram para a história sempre deixaram atrás de si um sentimento de orfandade, de vazio, que as gerações seguintes haveriam de colmatar já que, como se sabe, a natureza tem horror ao vazio.

Quando se vão figuras como os protestantes latino-americanos René Padilla ou o inglês John Stott (1921-2011), o evangélico norte-americano Billy Graham (1918-2018) e o católico europeu Hans Kung (1928-2021) é caso para pensar que outros se levantarão, porque Deus nunca ficou sem testemunhas. Até porque, se necessário, ele mesmo fará com que as próprias pedras falem: “E, respondendo ele, disse-lhes: Digo-vos que, se estes se calarem, as próprias pedras clamarão” (Lucas 19:40).

 

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona, coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo e director da revista teológica Ad Aeternum; texto publicado também na página digital da revista Visão.

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

Jesus salva-nos de nós mesmos

[Entre Margens]

Jesus salva-nos de nós mesmos novidade

Uma das mais profundas obras de salvação realizadas por Jesus consiste em libertar-nos não apenas do pecado e da morte, mas também das falsas imagens que construímos acerca de Deus. Muitas vezes, consciente ou inconscientemente, projectamos sobre Deus os nossos medos, inseguranças e formas humanas de exercer o poder. [Texto de Vítor Rafael].

Último desejo de Francisco: os bolinhos da amiga Jacoba

Ano jubilar-800 anos da morte (8)

Último desejo de Francisco: os bolinhos da amiga Jacoba novidade

O Papa Leão XIV proclamou, desde 10 de janeiro e até final deste ano, um ano jubilar assinalando os 800 anos da morte de Francisco de Assis, ocorrida em 3 de outubro de 1226 – a festa litúrgica é assinalada dia 4. Com esse pretexto, o 7MARGENS publica, até final do ano, nos dias 3 ou 4 de cada mês, uma série de dez textos da autoria de frei Isidro Lamelas, da Ordem dos Frades Menores, professor de Teologia. Este é o oitavo texto da série.

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.

Pin It on Pinterest

Share This