Nas margens da filosofia (XXXV)

O Futuro da Terra – um livro para as férias do Verão

| 11 Jul 2021

Papa Francisco Carlo Petrini Foto Vaticano News

“O pano de fundo é a ecologia integral, essa “nova disciplina” que nos leva a reflectir sobre o modo como se relacionam todas as criaturas.” Foto: Papa Francisco Carlo Petrini © Vaticano News

 

Em boa hora a Casa das Letras publicou O Futuro da Terra, volume de diálogos entre o Papa Francisco e Carlo Petrini.[1] O pano de fundo é a ecologia integral, essa “nova disciplina” que nos leva a reflectir sobre o modo como se relacionam todas as criaturas. O sujeito determinante é o ecossistema, sendo a tese subjacente a constatação de que tudo está ligado e de que, consequentemente, humanos e não humanos interactuam, devendo os primeiros preocupar-se em estabelecer uma relação respeitadora de um bem-estar comum.

Note-se que esta ideia de uma teia de relações, bem como da responsabilidade dos humanos na gestão das mesmas, aparece no pensamento de alguns filósofos do passado. E lembro Leibniz, um autor do século XVII, que na sua Monadologia nos alerta para a relação entre as partes e o todo do Universo, acentuando a interacção de todos os corpos: “(…) todo o corpo se sente de tudo o que se faz no Universo de tal modo que aquele que vê tudo, poderia ler em cada um o que se faz por toda a parte.”[2]

O Futuro da Terra não se dirige apenas aos ecologistas pois o seu público alvo é toda a humanidade. E uma das teses que defende com mais insistência é a de que “todos podemos ser sujeitos activos de mudança” (pg.35). Como tal, é-nos pedido uma alteração de comportamentos. Trata-se de um apelo a um esforço comum no que respeita à salvação do planeta. E todos são interpelados a mudar de hábitos, nomeadamente nos comportamentos simples do dia a dia, como é o caso de apagar as luzes ou de poupar na água que gastamos.

Os dois intervenientes situam-se em diferentes campos. Todos conhecemos o Papa Francisco e o contexto espiritual, social e político em que se situa. O que não o impede de estabelecer um diálogo aberto com Carlo Petrini, um ex-comunista que se assume como não-crente mas que admira a força extraordinária da Laudato Si´ (pg. 26), considerando esta encíclica um marco determinante para a alteração dos nossos modos de vida. Note-se que o Papa o trata como um “agnóstico pio”, reconhecendo nele o excelente parceiro de um diálogo frutuoso. Por isso Francisco desafia os crentes a compreenderem o “humanismo agnóstico” de Petrini, aconselhando-os a que se familiarizem com gente que pensa de outro modo.

A obra em causa está dividida em duas partes. Na primeira desenrola-se um diálogo clássico, com perguntas e respostas colocadas pelos dois autores. Revelando perspectivas e pontos de partida bem diferenciados, há no entanto muito de comum – ambos valorizam o sentido de humor e a abertura à diferença, o que afasta as discussões substituindo-as por comentários, informações e esclarecimentos extremamente úteis para percebermos quer a génese da encíclica Laudato Si’, quer as pessoas que influenciaram a sua escrita, quer a progressiva sensibilização às diferentes culturas, lembrando o que nos podem oferecer. É o caso da “redescoberta” da Amazónia e da vivência harmoniosa com a Natureza por parte dos seus habitantes.

A comida como instrumento de convivialidade, de relacionamento e de promoção de amizades é pretexto para a troca de receitas italianas e argentinas. E o manifesto da Slow Food (pps. 60-61) fala do direito ao prazer. O que leva ambos a recordar o filme A Festa de Babette – para Petrini uma das suas “obras cinematográficas preferidas” e para o Papa “um dos mais belos filmes que alguma vez” viu (p.70).[3]

Ao fechar a primeira parte do livro há uma referência aos “invisíveis” que trabalham nos campos sem protecções de qualquer espécie e a todos os rejeitados por uma política do descarte. A eles se contrapõe a importância das relações afectivas estabelecidas nos pequenos grupos. Contra uma “globalização esférica” que apaga as diferenças culturais, Francisco defende o respeito pela identidade de cada povo e Petrini valoriza a sabedoria camponesa, elogiando os saberes tradicionais e o bom senso dos humildes.

Na segunda parte do livro o diálogo prossegue estendendo-se pelo comentário a cinco temas actuais: a biodiversidade, a economia, as migrações, a educação e a comunidade. Alguns dos textos são já conhecidos do grande público pois trata-se de excertos de obras recentemente publicadas. No entanto a sua revisitação é oportuna pois os problemas mantêm-se e ganham uma nova acuidade.

O primeiro dos cinco temas é a biodiversidade, apresentada nas suas diferentes manifestações de carácter cultural, social e agrícola. O novo humanismo implica o respeito pela diferença bem como a salvaguarda do modo de vida dos nativos. O Sínodo Pan-Amazónico reconheceu que a biodiversidade cultural é uma mais valia e que os povos indígenas nos ensinam a viver em harmonia com a Terra. Por isso o capítulo II recupera excertos da Exortação Apostólica Querida Amazónia, lembrando a fragilidade da situação actual desta região e alertando-nos quanto à tentação de a colonizar culturalmente. Urge construir pontes que permitam desenvolver a diversidade, o que exige uma constante luta contra a imposição de outros padrões de vida e encoraja a aceitação de um cristianismo multicultural, aberto à escuta e reconhecendo valores diferentes dos habituais.

Petrini abre o tema da economia e debruça-se sobre as condições desumanas em que vivem os trabalhadores migrantes. O homo economicus instalou-se, com todas as suas consequências nefastas e o fundador do movimento Slow Food propõe a substituição deste paradigma pelo do homo comunitarius, valorizando o bem-estar social e a solidariedade. Aos efeitos negativos da pandemia contrapõe os valores positivos que nela se revelaram, como a amizade, a solidariedade, a paciência e a esperança.

Francisco contribui para este capítulo lembrando dois textos seus, anteriormente publicados.[4] No primeiro alerta-nos para a precariedade em que actualmente vivem muitos homens e mulheres “mesmo nos chamados países ricos” (p. 143). E denuncia a cultura do descarte, a globalização da indiferença e a nova idolatria do dinheiro, interpelando os movimentos populares que considera como o exército invisível da pandemia, tal como o trabalho silencioso das mulheres, dos camponeses, dos agricultores e de todos os cuidadores sociais.

No capítulo dedicado às migrações os autores lembram os trabalhadores estrangeiros e o papel importante que desempenham no crescimento social, desfiando-nos a instituir um sistema de compensações entre Norte e Sul e a favorecer o acolhimento. Petrini recorda-nos que todos somos “migrantes de longa data” e que a identidade se constrói através da troca (p. 162). Recordando a sua Mensagem para o Dia Mundial do Migrante e do Refugiado, Francisco critica o medo e a intolerância perante o diferente, sublinhando que o verdadeiro desenvolvimento é inclusivo: acolher, proteger, promover e integrar são atitudes que desenvolvem qualquer sociedade.

A educação é outro tema sobre o qual se debruçam. Petrini denuncia o analfabetismo funcional dos pobres, mas valoriza todo um património de conhecimentos tradicionais até agora subavaliados. Urge recuperá-los atendendo “às múltiplas dimensões da existência humana”(p. 194). Francisco recorda o seu discurso de Bolonha, em 2017, na conclusão do Congresso Eucarístico Diocesano. Nele apontara as raízes humanistas da Universidade europeia, alertando para o direito à cultura, o direito à esperança e o direito à paz. Num segundo texto lança-nos um pacto educativo, convidando-nos a construir “uma aldeia da educação” que coloque as pessoas no centro, promovendo a escuta e o diálogo.

No capítulo sobre a comunidade, Petrini propõe um modelo alternativo de convivência e lembra a difusão do movimento das comunidades Laudato Si’ em toda a Itália, a atestar uma viragem ecológica e progressista, favorável à “inteligência afectiva” e à “anarquia austera”, promotoras de uma maior liberdade individual e de uma realização pessoal gratificante. O contributo do Papa é a recuperação da sua conferência de 2017, Rethinking Europe. Nele insiste nos temas do diálogo, do combate ao individualismo, da solidariedade e da subsidiariedade, desafiando todos no trabalho de promoção da paz. O que exige criatividade, amor à verdade e desejo de justiça.

O Futuro da Terra é um livro de esperança que aponta modelos concretos como as comunidades Laudato Si’ e Slow Food, testemunhos reais de que é possível uma vida diferente, mais amiga do planeta e promotora de um bem-estar que a todos inclui.

Sem dúvida que é um bom exercício para uma meditação individual e/ou colectiva nas férias deste Verão.

 

Maria Luísa Ribeiro Ferreira (avó de sete netos e dois bisnetos) é professora catedrática de Filosofia da Faculdade de Letras de Universidade de Lisboa.

 

[1] Carlo Petrini, O Futuro da Terra. Diálogos com o Papa Francisco sobre Ecologia Integral, trad. Mário Severo, Alfragide, Casa das Letras, 2021, 242 págs.
[2] Leibniz, Princípios de Filosofia ou Monadologia, in Leibniz. Obras Escolhidas, trad. António Borges Coelho, Lisboa, Livros Horizonte, s.d., §61, pg. 172.[3]O filme do realizador dinamarquês Gabriel Axel é baseado no livro de Karen Blixen, A Festa de Babette, Lisboa, ASA, 1995.[4] Um excerto do Evangelii Gaudium (pp. 143-149) e a Carta aos Movimentos Populares (pp. 151-155).

 

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

“Seria grande caridade tratar do caso com urgência”

Cartas de Luiza Andaluz em livro

“Seria grande caridade tratar do caso com urgência” novidade

Preocupações com um homem que estava preso, com o funcionamento de uma oficina de costura para raparigas que não tinham trabalho, com a comida para uma casa de meninas órfãs. E também o relato pessoal de como sentiu nascer-lhe a vocação. Em várias cartas, escritas entre 1905 e 1971 e agora publicadas, Luiza Andaluz, fundadora das Servas de Nossa Senhora de Fátima, dá conta das preocupações sociais que a nortearam ao longo do seu trabalho e na definição do carisma da sua congregação.

Agenda

Fale connosco

Pin It on Pinterest

Share This