Vivemos um período histórico de interregno, daqueles que perturbam até os mais optimistas. Se prestarmos atenção às múltiplas crises que acometem o planeta — ambientais, pandémicas, bélicas e sociais — percebemos que as ameaças são convergentes e graves. A pandemia da Covid já não é vista como um evento raro. As novas ameaças surgem a toda a hora: é o ébola de novo no Uganda, e no Congo o hantavírus. Os vírus presos nos glaciares da Antártida ficam à solta à medida que o planeta aquece e essas surpresas ameaçam a nossa sobrevivência.
Somos a única espécie no mundo que conspira para a sua própria extinção, e que destrói o seu ambiente e fontes de alimentação. Nenhum animal faz isso, nenhum mamífero, nenhum insecto. Mas as abelhas, precisamente, estão a desaparecer nos EUA. E sem abelhas não há polinização e sem polinização não há produção alimentar. As abelhas produzem uma colher de chá de mel na sua curta vida de alguns dias mas cada uma sustenta milhares de bocas, sem reconhecimento; e estão a desaparecer devido às alterações ambientais que para Jürgen Moltmann, o criador da ecoteologia, resultam do pecado cometido contra a natureza.
A humanidade já passou por muitas épocas críticas. Sobreviveu a glaciações, impactos de meteoritos, quedas de impérios, revoluções industriais e aqui estamos. Mas agora, se perdemos a conexão com o mundo natural — somos parte integrante da natureza, e ela de nós — agarrando-nos à ideia de que a tecnologia tudo resolverá, estamos mesmo mal. A tecnologia tornou-se uma religião, o culto da máquina, incluindo a IA, promovida pelos oligarcas de Silicon Valley.

Os cientistas alertam que o descongelamento do permafrost está a libertar não apenas vírus, mas também bactérias e outros microrganismos patogénicos. Foto: Permafrost no planalto do Tibete: grande parte do solo nesta área permanece congelado durante todo o ano. @ Feng Cheng | Eurekalert
A tecnologia não é ciência. É um subproduto da ciência, é criada a partir do conhecimento científico. A ciência melhora a qualidade de vida. Mas faz parte da nossa crise que as empresas da tecnologia tenham descoberto que dá para fazer muito dinheiro, enganando o mercado com falsas expectativas. E assim definham, ao mesmo tempo a natureza e a ciência, porque se confia na tecnologia como uma espécie de magia moderna, igual aos remédios milagrosos dos tempos antigos, com promessas fáceis e falsas curas para tudo.
Veja-se os preços absurdos das ações das empresas tecnológicas, as trillion dollar babies, por exemplo, a Nvídia, produtora de chips. A Nvidia é hoje a maior empresa do mundo, avaliada em cerca de 5,6 triliões (milhares de biliões) de dólares, 17 ou 18 vezes o PIB de Portugal. Há dois anos valia um terço disto. Desenha chips depois fabricados por outras empresas na Coreia, Taiwan, Holanda. O conjunto das trillion dollar babies vale tanto como cada uma das economias mundiais dos EUA, China e União Europeia. Uma loucura! E a pegada ambiental? A quantidade gigante de água e eletricidade consumidas, a poluição sonora e do solo que essas empresas e data centers provocam?
Veja-se como Portugal está a promover data centers gigantes, como o de S. Torpes, assinando contratos pelos quais recebe alguns impostos, sem transferência tecnológica nem empregos significativos. A região de Sines está a atrair mais de 25 mil milhões de euros em investimentos: entre eles, a instalação de processadores avançados da Nvidia para IA; centros de dados da Start Campus; Tech Cloud da Microsoft. Em poucos anos, estes centros ficam obsoletos e têm de ser reconstruídos. Pessoalmente não sou ludita, contra a instalação desses centros. Mas não quero que sejam grandes corpos inertes aos quais falta uma cabeça, como reza a lenda de S. Torpes.
Nos Estados Unidos, segundo a revista do MIT, o movimento contra a instalação desenfreada de data centers ganhou força, devido ao impacto negativo no território, nas águas, na agricultura. Há cidades a enfrentar sufoco ambiental causado pelos giga data centers do Twitter — onde as turbinas a gás produzem poluição tóxica e aumentam doenças respiratórias. E há quem defenda que esses data centers sejam deslocados para a periferia-mundo, para países como o Chile, México e Portugal. Quanto aos oligarcas consideram que é uma conspiração montada na China.
Veja-se como o culto da máquina e da IA tornou-se uma religião nos EUA, e esta situação trágica está a fazer definhar a ciência. 145 mil citações falsas geradas por IA em artigos científicos foram encontradas em 2025. As grandes universidades americanas privadas – Harvard, John Hopkins, Duke, Princeton – estão a definhar porque a criatura de Washington cortou muitos dos subsídios públicos. 25.000 cientistas saíram do sistema, abandonaram a carreira. O sistema tornou-se um círculo fechado conduzido por máquinas, alimentando a era de pós-verdade.

Veja-se como Mark Andreessen, administrador de dezenas de empresas tecnológicas – e a quem a criatura de Washington nomeou para o PCAST – defende que as pessoas devem ser substituídas por robôs na indústria, porque os robôs não tiram férias, não precisam dormir, não adoecem e não têm problemas pessoais. Para ele, a vasta maioria dos 8 biliões de seres humanos é dispensável, valendo apenas pela quantidade de dados que conseguem extrair de cada um.
Escreveu Shoshana Zuboff que o capitalismo de vigilância explora os nossos dados como ouro gratuito, criando um sistema totalitário de controlo e dominação. Como diz o historiador da economia António Castro Henriques, se nada vendemos nem compramos na internet, então nós somos o produto. Na oligarquia tecnológica onde uns poucos controlam o futuro do mundo, no feudalismo digital dominado pela cloud, os dados deixam de ser propriedade nossa; agora, pagamos para os utilizar.
Finalmente, que soluções para o grande desequilíbrio? Ficam para a próxima crónica.
Mendo Castro Henriques é professor da Universidade Católica e autor de obras de filosofia e cidadania.
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