
Jürgen Moltmann durante uma palestra no Instituto Ecuménico de Bossey, em 2019. Foto © Peter Kenny/WCC
O teólogo Jürgen Moltmann, um dos mais lidos e estudados da segunda metade do século XX, que ficou conhecido como “o teólogo da esperança”, morreu no último domingo, 2 de junho, na cidade alemã de Tubinga, com 98 anos.
Aquela que é, talvez, a sua obra mais emblemática – A Teologia da Esperança – foi publicada em 1964, tendo-se difundido internacionalmente e convertido no primeiro pilar de uma trilogia composta ainda por O Deus Crucificado e A Igreja no Poder do Espírito.
A Teologia da Esperança é, em boa medida, uma autobiografia, na qual, em diferentes etapas, o autor escreve sobre a procura do sentido da vida e, em particular, a necessidade de encontrar uma resposta para a pergunta “Porque é que eu estou vivo e não morto como os outros?”.
Essa pergunta acompanhou-o de forma premente e contínua a partir do momento em que, em 1943, ano em que foi incorporado nas tropas hitlerianas, sob o bombardeamento inimigo, em Hamburgo, viu um companheiro morrer a seu lado, uma experiência que lhe ficaria gravada para toda a vida. Em 1945, conta-se, entregou-se ao primeiro soldado inglês que encontrou num bosque, sem que tivesse disparado uma única bala.
Jürgen Moltmann foi feito prisioneiro de guerra e levado para campos de detenção com outros jovens soldados, na Bélgica, em Inglaterra e na Escócia. Nessa fase, um capelão americano passou-lhe uma edição com o livro dos Salmos e do Novo Testamento. Moltmann, que não tinha tido, em criança, uma grande formação religiosa, começou a lê-la para combater o tédio, mas sentiu-se interpelado pelo que lia.
Ao longo dos três anos de cativeiro, foi aprofundando e amadurecendo a sua fé. Como refere o jornal Avvenire, ia meditando nas grandes questões que a vida lhe estava a colocar – a vida e a morte, a culpa individual e coletiva, a presença de Deus na História humana. “Eu vivia a vida, mas a vida também me foi dada”, escreveu numa nota de posfácio de A Teologia da Esperança. “Não fui eu que encontrei Cristo; foi Ele que me encontrou a mim”, diria mais tarde.
Quando ficou livre, regressou ao seu país, tendo estudado teologia, com Karl Barth como referência. Tornou-se pastor evangélico, fez o doutoramento, casou com uma teóloga que viria a ser alguém muito influente em algumas das suas obras, e desenvolveu o seu magistério em várias universidades, de cujo trabalho saiu um vasto conjunto de livros e artigos marcantes.
A sua preocupação com a dimensão e fenómeno da esperança está inicialmente enraizada nas suas experiências pessoais como prisioneiro de guerra, quer nas relações com os colegas de infortúnio e o modo como digeriam a derrota, quer com os habitantes das zonas em que os campos estavam sediados.
Sumariando o livro A Teologia da Esperança, a Enciclopédia Colaborativa da Teologia Ocidental, publicada pela Universidade de Boston, refere o seguinte: “Moltmann entende a fé cristã como essencialmente esperança para o futuro dos seres humanos e deste mundo prometido pelo Deus do êxodo e da ressurreição de Jesus crucificado. Assim, para ele, a escatologia expressa a atitude de expectativa que está subjacente a toda a fé. Para ele, porém, a escatologia cristã não significa ‘o futuro como tal’; parte de uma ‘realidade na história’ e anuncia ‘o futuro dessa realidade, as suas possibilidades futuras e o seu poder sobre o futuro’. Moltmann apresenta a escatologia cristã como uma doutrina ativa de esperança, a fim de dar esperança de um futuro alternativo aos oprimidos e sofredores do nosso tempo presente. Esta esperança, para ele, atua como a força motivadora por detrás da libertação no mundo. Ao reexaminar as fontes do pensamento escatológico, Moltmann descobre que a escatologia cristã visa a revolução e a transformação do presente”.










