O Pastor e o Tempo – A Jornada de Adelino Paes é o título de um livro que será apresentado no próximo sábado, 24, em Bragança (Auditório Paulo Quintela, 16h30). O livro evoca o percurso do padre Adelino Paes, actual vigário-geral da diocese de Bragança-Miranda, que nasceu em 1947 e foi ordenado presbítero em 1975.
São precisamente os 50 anos de ordenação do atual diretor espiritual do Seminário Diocesano de São José que o livro assinala. Na sessão, além do próprio Adelino Paes, intervêm ainda o atual e o anterior bispo de Bragança – Nuno Almeida e José Cordeiro (agora arcebispo de Braga).
O 7MARGENS publica a seguir excertos da introdução de Henrique Manuel Pereira, organizador do livro e professor da Escola das Artes da Universidade Católica, que intervém igualmente na apresentação do livro.

A capa do livro.
À luz mansa da candeia – memórias e testemunhos
Texto de Henrique Manuel Pereira
(…) Este livro celebra os cinquenta anos da ordenação sacerdotal de Adelino Fernando Paes. Feito de testemunhos múltiplos, congrega muitas vozes e olhares. Não é apenas um álbum de homenagens. É, sobretudo, um mosaico de vidas tocadas e transformadas pela presença serena, firme e generosa de um homem que faz do sacerdócio um exercício de escuta e de serviço. (…)
Fala-se de um homem que é presença e fermento, pastor e pedagogo, construtor e consolador, que encarna o melhor do Concílio Vaticano II: uma Igreja samaritana, uma fé encarnada, um ministério aberto ao tempo e fiel ao Evangelho.
Não sendo uma biografia, configura um retrato polifónico. E se não me surpreendem e impressionam os testemunhos, enternece-me a unanimidade no reconhecimento de uma qualidade rara: a proximidade de um homem “que nos olha como Jesus olhava”, de um semeador paciente, cuja linguagem é o “amorês”. Mons. Adelino faz-se presente com o olhar, com a escuta, com o sorriso. Não força, não impõe, não julga. Deixa que o outro seja, e nessa liberdade germina a confiança.
Teólogo prático, Adelino Paes vive a tensão criadora entre o “sacramento” e o “serviço”. A sua acção pastoral é reflexo de uma eclesiologia sinodal, marcada pela confiança nos leigos, pela escuta do Espírito e pela centralidade da caridade.
Filho único, nasceu a 11 de janeiro de 1947, em Picote, no planalto mirandês, rodeado de escarpas e silêncio. Pelos seis anos de idade, com o início das obras da barragem hidroeléctrica, o afluir de trabalhadores, técnicos e maquinaria, um novo mundo se lhe oferece. Conhece, então, o Padre Telmo Ferraz:
“Todas as crianças da aldeia, superpovoada de ‘barragistas’, o queríamos muito e admirávamos pela sua bondade natural, proximidade e espírito generoso. […] Entrava frequentemente em casa de meus avós, como sendo aquela a sua casa e família natural, chamando “mãe Ana” à mãe do seu colega Padre Aníbal Folgado. Dois grandes amigos irmanados no ideal de vida, juntamente com o Padre José Valdemar Pires; uma verdadeira e permanente fraternidade sacerdotal de presença mútua, nos bons e menos bons momentos, de interajuda na amizade e no zelo apostólico”. [Depoimento no livro Telmo Ferraz, Uma vida, tantas vidas!]

Adelino Paes na celebração dos 50 anos da sua ordenação, em Fevereiro de 2025. Foto: Direitos reservados
(…) A 7 de Outubro de 1959, por vontade própria, Adelino Paes ingressa no Seminário de São José em Vinhais, continuando a sua formação em Bragança e Lisboa. Destacou-se pela discrição, pelo modo singular de acolher, pela profundidade e pela consistência vocacional.
A dada altura do seu percurso, seduziu-se pela Obra do Padre Américo. No entanto, certa conversa com D. Manuel de Jesus Pereira e um “Preciso muito de si!” transformou aquele que fora um “grande amor longamente vivenciado” num “preâmbulo do amor consagrado ao sacerdócio para serviço de todos na Diocese de Bragança-Miranda”.
Começou cedo. Em Agosto de 1971, “bacharel em Teologia, ainda a estudar em Lisboa”, já o encontramos preocupado com a alegada crise na Igreja, declarando que a renovação, mais do que revolução era “sobretudo exigência”. Em Novembro de 1974, com a cumplicidade de Armando Duarte (que adiante depõe), dirige encontros de jovens, em que participam alunos do Seminário e de outros estabelecimentos de ensino; aponta a falta de uma pastoral de juventude feita com planificação e seriedade a nível diocesano, e afirma com lucidez:
“o problema dos seminários, hoje, não é decidir se convém ou não introduzir uma televisão, usar fato de cor, participar nesta ou naquela associação de carácter religioso. O problema é saber se o estilo de formação herdado do passado é hoje o mais indicado para preparar os jovens para o novo estilo de vida sacerdotal e para as novas exigências do ministério.” De outro modo, “não se trata já de um problema de abertura ao mundo da parte dos seminários ou de inserção do mundo nos seminários, mas de formar um novo tipo de sacerdote para uma nova forma de evangelização”.
Foi um dos primeiros licenciados em Teologia da recém-criada Universidade Católica Portuguesa, prosseguindo depois os estudos em Salamanca, no Instituto Superior de Pastoral, onde concluiu a licenciatura em Teologia Pastoral. (…)
Ao longo da sua trajectória, e desde cedo, Adelino Paes assumiu missões exigentes: professor, prefeito e depois reitor do seminário; responsável pela pastoral juvenil e vocacional; e mais tarde, pároco fundador da nova paróquia do Santo Condestável, em Bragança. Não se limitou a repetir fórmulas ou replicar métodos: criou novos caminhos e dinâmicas, confiou nos jovens, dinamizou processos, formou lideranças. O Grupo de Animação Vocacional (GAV), as celebrações encenadas pelos adolescentes, os retiros para famílias e jovens, testemunham uma pastoral viva, festiva, encarnada.
Talvez um dos traços mais notáveis do seu ministério seja a capacidade de integrar a fé, a cultura e a afetividade, com a leveza própria de quem se sabe apenas servidor. Dos adolescentes do GAV aos idosos da paróquia do Santo Condestável ou da Betânia, dos seminaristas hesitantes até aos bispos com quem colaborou, todos dão testemunho de um homem de palavras comedidas e gestos firmes, geradores de confiança e fecundidade pastoral.
Como Vigário-Geral e depois Administrador Apostólico da Diocese se Bragança-Miranda, afirmou-se homem de escuta e de síntese. Conciliador nato, como muitos o descrevem, soube manter a unidade sem abdicar da exigência. Governou a diocese num tempo de transição, com serenidade, equilíbrio e espírito de serviço. (…)
O percurso de vida e ministério de Adelino Paes refletem não apenas a história da diocese, mas também a própria evolução da Igreja em Portugal. Do rigor formativo do período pré-conciliar à emergência de uma pastoral mais participativa, a sua trajetória espelha, com fidelidade e inteligência, as transformações profundas vividas pela Igreja ao longo das últimas cinco décadas.










