Pela coragem que nos ensinaste ao enfrentares questões dolorosas, incómodas e difíceis que existem no seio da Igreja, dos seus líderes e fiéis.
Sei que as soluções e a resolução definitiva das mesmas estão ainda longe de serem alcançadas. Mas vieram à luz do dia, foram firmemente condenadas quando isso se impunha e tornaram-se públicos os seus debates. Os horrores não mais podem ser escondidos e a sua punição será severa de forma a proteger todas as crianças, jovens, mulheres e homens adultos que estão ao cuidado ou que se aproximam da Mãe Igreja. Acredito que esta situação não terá retrocesso em momento algum.
A coragem para falar da situação da mulher na Igreja, de colocar algumas mulheres em lugares de destaque na organização da instituição (caso da Ir. Simona Brambilla, a primeira prefeita de um Dicastério da Igreja) e trazer para o centro dos debates o papel das mulheres na Igreja, designadamente o seu acesso ao sacramento do sacerdócio. Sabemos que foi um pequeno passo, muito pequeno, que ainda não mudou quase nada, mas de muita coragem. Infelizmente, quanto a esta questão tudo pode regredir, pois, muitos são os Cardeais que têm uma convicção firme contra a possibilidade natural de uma mulher ser ordenada para exercer o ministério do sacerdócio, ou mesmo para estar nos cargos institucionais nos quais Francisco colocou algumas mulheres. Quando vejo que são as mulheres que carregam esta Igreja de Cristo, sendo elas que enchem as missas e todas as cerimónias religiosas, que rezam ferverosamente em todos os locais, que com a sua vivência de fé transmitem e propagam pelas gerações o Amor Divino, não entendo esta resistência em aceitar que uma mulher possa ser ordenada padre para atuar como representante de Cristo.
Cabo Verde tem um Cardeal criado pelo Papa Francisco, o Cardeal Dom Arlindo Furtado, Bispo da Diocese de Santiago. Dom Arlindo, há dias, contou que quando foi tomar posse como Cardeal, o Papa Francisco lhe disse que sabia que ele era um bispo próximo das pessoas e que assim devia continuar. Talvez tenha sido por esta especial característica que Francisco o escolheu. Como cardeal eleitor, Dom Arlindo também pode ser eleito papa.
Desconheço a posição de Dom Arlindo Furtado sobre o acesso das mulheres ao sacerdócio. Procurei na internet, mas nada encontrei. Mas sei, pelo que tenho acompanhado em direto aqui em Cabo Verde, que Dom Arlindo é um conservador e tem tido sempre o cuidado de chamar a atenção que muitas ações inovadoras do Papa Francisco em nada alteram e nem devem ser interpretadas como alterando qualquer doutrina da Igreja. Por exemplo, quando o Papa Francisco autorizou a bênção a casais do mesmo sexo, Dom Arlindo Furtado distinguiu a bênção pastoral da bênção sacramental, explicando que a bênção pastoral se dá a qualquer pessoa que a peça, independentemente de como essa pessoa vive conjugalmente. O Cardeal Dom Arlindo Furtado, cabo-verdiano, tem 75 anos e amanhã parte para Roma. Ocorre-me aqui citar « Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria, como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis os seus caminhos!» Romanos 11:33
E nesta hora, continuo a dizer: obrigada também, Papa Francisco, por nos ensinares a ter coragem e fé perante o incerto.

“E nesta hora, continuo a dizer: obrigada também, Papa Francisco, por nos ensinares a ter coragem e fé perante o incerto.” Foto: pormenor da capa do Livro Esperança. Autobiografia
Lígia Dias Fonseca é uma moçambicana que pelo poder do amor se tornou também cabo-verdiana. Vive na cidade da Praia, capital de Cabo Verde. É advogada e mãe de uma jovem adulta. Católica convicta que acredita que as mulheres devem ter direitos iguais aos homens incluindo na organização da Igreja.










