David Attenborough completou na quinta-feira, 8 de maio, 99 anos vividos, grande parte dos quais dedicada à defesa do nosso planeta. O seu documentário Ocean acaba de sair e, tendo em conta os dois factos, a Temas e Debates publica por estes dias o livro Oceano – O Último Reduto Selvagem, escrito em coautoria com Colin Butfield. Com a devida autorização da editora, o 7MARGENS publica alguns excertos do último capítulo do livro.
Gerações perdidas
Para verdadeiramente vermos o mar, por vezes temos de olhar para terra.
Ao largo da costa, alcatrazes-do-cabo atropelam-se, investem a pique e mergulham, os seus movimentos são tão frenéticos e caóticos que é difícil acompanhar o trajeto de qualquer um deles no meio do alvoroço. Estas grandes aves pretas e brancas voam demasiado depressa e erraticamente para que consigamos discernir as suas características coroas amarelo-douradas, mas o seu tamanho, a par de estarem a perseguir uma traineira ao largo da costa da Africa austral revela a sua identidade.
As aves marinhas apinham-se em torno da traineira, em busca de algum resquício da pescada içada desde o leito marinho lá muito em baixo. À primeira vista, poderia parecer uma cena de abundância, redes palpitantes que sustentam humanos e aves. Contudo, em terra, os ninhos revelam outra história.
Nalgumas poucas e preciosas ilhas ao largo da costa da África do Sul e da Namíbia, os alcatrazes-do-cabo constroem ninhos feitos de lama e excrementos sobre o suave declive das areias. Assemelhando-se a pequeníssimos vulcões com o cone colapsado, milhares destes ninhos estendem-se em direção a linha da mare cheia, mas cada vez mais jazem vazios e alguns são abrigo de crias malnutridas que aguardam o regresso dos progenitores ou contem as carcaças contorcidas daquelas que já não conseguiram esperar mais. Os alcatrazes-do-cabo nidificam nestas ilhas há milénios. Com efeito, historicamente, os barcos de pesca seguiam-nos para localizar os cardumes de peixe. Contudo, os papeis, tragicamente, estão agora invertidos.
Atraídos pela grande quantidade de sardinhas, os pescadores, tanto alcatrazes como humanos, prosperaram aqui durante gerações. Hoje, contudo, a pesca da sardinha diminuiu. Ao invés, os barcos dragam as águas ainda mais fundo em busca de pescada, enquanto os alcatrazes, sem a possibilidade de alcançar tais profundidades, esgaravatam em busca de restos. Os desperdícios da pesca que os progenitores comem quando não encontram o seu alimento natural em quantidade suficiente tem metade da energia das sardinhas, pelo que as aves ficam em mau estado e, portanto, muitas crias crescem lentamente ou morrem. Não se sabe ao certo que proporção de culpa se pode atribuir à sobrepesca e às alterações climáticas em relação à perda das sardinhas, mas a realidade é bastante clara: aqui, a vida no oceano já não consegue sustentar a vida em terra da mesma maneira que antigamente.
Em todo o mundo, onde a terra se encontra com o mar, deparamos com gerações perdidas. Nos sítios para os quais os antepassados eram atraídos pela riqueza dos habitats costeiros, as gerações atuais debatem-se entre os ecos fragmentados de um mundo que, ao que parece, se perdeu.
No tempo de vida de um ser humano

Pescadores a vender peixe em Labuan Bajo (ilha das Flores, Indonésia): “Há muitas comunidades costeiras para quem a capacidade de obter alimento no mar não é uma opção, mas antes um modo de vida essencial.” Foto: Direitos reservados.
Nestas povoações costeiras encontramos tanto aqueles que se lembram de como tudo em tempos foi como aqueles que viverão para ver aquilo em que o nosso oceano se transformara.
Um pescador idoso, a pé logo de madrugada, pois é difícil perder velhos hábitos, passa distraidamente a mão pela pedra rugosa de um paredão, as pontas dos dedos delineiam os contornos dos cunhos de amarração, enquanto os olhos varrem a praia de seixos que conhece melhor do qualquer outro lugar na Terra. Com exceção dos chamamentos e grasnidos das aves marinhas, é uma aurora serena. Recorda-se de um tempo em que esta hora palpitava de atividade e ruido, com os barcos a serem preparados, enquanto os pescadores noturnos regressavam e descarregavam – partilhavam-se gracejos, eclodiam discussões. Vida. Teria podido tomar uma bebida quente a acompanhar o pequeno-almoço e todos teriam brincado com o filho, perguntando-lhe quando e que ele assumiria o leme do barco do seu velho pai.
No entanto, a brincadeira é agora vazia. Os sinais estavam à vista havia anos, e evidente: as traineiras vindas de fora, a diminuição das capturas, o peixe cada vez mais pequeno. Porem, foi uma mudança que avançou ou furtivamente, gradual, impercetível no dia a dia. Em grande parte, a vida continuava como sempre. Até que não. A geração seguinte tinha pouco incentivo para trabalhar tanto em troca de tão pouco. Os barcos deixaram de ser reparados. As manhas tornaram-se silenciosas.
Passaram-se trinta anos – há, entretanto, toda uma nova geração. 0 pescador e agora um ancião, o seu filho e um homem. As crianças, as que hoje vemos brincar na praia vieram sobretudo das cidades passar férias ou visitar parentes que se mantiveram demasiado otimistas, ou demasiado obstinados, para dali saírem.
Contudo, sente-se a mudança no ar: uma aceleração. Um estado assim não pode ser permanente. A sua longa experiência com o mar diz-lhe que, quando estas crianças chega rem a idade adulta, tudo terá mudado uma vez mais.
0 período que abarca uma geração humana, de cerca de vinte e cinco a trinta anos, e uma referenda pratica: suficientemente longo para que ocorram reais mudanças, mas não demasiado adiantado no futuro para que perca relevância para quem vive neste momento.
As crianças que brincam hoje numa praia passarão por um período que será, talvez, o mais relevante para a espécie humana nos últimos 10 000 anos. Quando alcançarem a meia-idade, terão visto se travamos as alterações climáticas ou se deixamos que nos submergissem; se recuperamos o mundo natural ou se o desestabilizamos na sua essência; se o oceano permanece nosso aliado ou se se tornou nosso inimigo.
Como já vimos, o oceano tem capacidade para recuperar. Os mangues e as florestas de laminárias podem crescer novamente, as baleias podem regressar e as comunidades costeiras moribundas podem voltar a florescer. É de tal forma grande o potencial de recuperação, que é absolutamente possível perdermos apenas uma geração. Nós poderemos ser a aberração, os que, sem saber, tiraram de mais e protegeram de menos. Tal como os que vieram antes de nós viveram com um oceano abundante de vida e vitalidade, as crianças de hoje poderão crescer a assistir ao seu ressurgimento.
0 futuro próximo pode dar-nos muitos motivos para recear, mas a verdade e que também pode ser um período extremamente entusiasmante para andarmos por aqui. Porque agora compreendemos como se podem resolver muitos dos maiores problemas que enfrentamos como espécie e podemos inspirar-nos em séculos de progressos. Com efeito, nos últimos cem anos, reduzimos drasticamente a mortalidade infantil, suprimimos muitas das mais temidas doenças, ampliamos o acesso à educação e aos cuidados de saúde, adquirimos conhecimentos científicos que transformaram o nosso entendimento do mundo e cooperamos em torno de problemas globais num nível jamais antes visto. Há, evidentemente, muito a melhorar no nosso mundo, mas há boas razões para acreditar que temos a capacidade de o melhorar. A questão é saber se também temos a vontade e a visão para o fazermos.
No oceano reside a nossa esperança

Mokumanamana (Papahanaumokuakea, Havai), em forma de torre, é uma das muitas características dramáticas do monumento. Foto © Wayne Levin / Papahānaumokuākea Marine National Monument.
Bem, o que podem significar os próximos trinta anos para o nosso oceano? A resposta a esta pergunta implica um problema inerente: qualquer pessoa que já tenha vivido tempo suficiente sabe como é uma tolice tentar prever o futuro. Contudo, ao mesmo tempo, se não conseguirmos imaginar o nosso oceano futuro, teremos seguramente dificuldade em rumar na sua direção. 0 que podemos fazer racionalmente é agarrar nas descobertas e no entendimento que alcançamos e usá-los para traçar uma rota plausível em direção à recuperação do oceano e, ao mesmo tempo, monitorizar e ajustar essa rota, à medida que forem surgindo novos dados. A primeira coisa que temos de reconhecer é que muitos de nós estamos muito afastados da vida do oceano. Quando sequer optamos por comprar peixe e marisco, fazemo-lo geralmente em supermercados ou restaurantes, com uma relação muito reduzida com o processo para aí chegar. Contudo, a pesca é o meio de subsistência de dezenas de milhões de pessoas em todo o mundo, e uma componente fundamental da comunidade local e da sua economia e as capturas são uma fonte vital de proteínas. Embora possa parecer simples, do ponto de vista moral, exigir mudanças aos governos ou as grandes empresas que lucram com o oceano, há muitas comunidades costeiras para quem a capacidade de obter alimento no mar não é uma opção, mas antes um modo de vida essencial. Devemos, por conseguinte, tratar de garantir que as medidas que implementamos com vista à recuperação do oceano beneficiam essas comunidades e não, pelo contrário, se limitam a aumentar as pressões com que já se deparam. Há bons motivos para acreditar que isto e possível.
Décadas de estudos científicos e alguns exemplos espantosos de proteção marinha demonstraram-nos que a vida no oceano consegue regenerar-se – tantas vezes muito mais depressa do que a vida em terra – se lhe dermos tempo e espaço para tal. Em 2022, na Conferência das Nações Unidas sobre Biodiversidade, em Montreal, quase 200 países concordaram proteger 30 par cento do oceano até 2030. A proteção marinha pode dar à vida selvagem a possibilidade de ganhar novo alento, mesmo mantendo ou até aumentando as capturas de peixe, pelo que esta meta, conhecida como «30×30», poderá garantir uma grande reviravolta para o oceano. Todavia, temos de manter as ideias claras quanto ao esforço exigido para a alcançar.
Trinta par cento da superfície do oceano corresponde a cerca de 120 milhões de quilómetros quadrados. Comparativamente, a celebrada área marinha protegida do Havai, Papahanaumokuakea, de enormes dimensões para uma área deste tipo, tem apenas 1,5 milhões de quilómetros quadrados, pelo que 30 par cento do oceano são, realmente, uma área gigantesca.
Embora a noção de escala seja importante no oceano, na proteção marinha há outros elementos relevantes além do tamanho. Muitas áreas marinhas protegidas atuais não estão localizadas nas zonas do oceano com maior importância biológica, coma seria fácil presumir, mas pelo contrário nas regiões onde deparam com a menor oposição. Além do mais, a maioria não é respeitada e uma proporção chocantemente elevada continua a permitir os métodos de pesca mais destruidores, coma o arrasto de fundo, dentro dos seus limites. Embora, no papel, muitas reservas possam parecer estar protegidas, os benefícios para a vida marinha podem muitas vezes ser questionáveis.

“Segundo a definição padrão, «sustentabilidade» significa «satisfazer as necessidades das gerações atuais sem comprometer as necessidades das gerações seguintes».” Foto retirada do trailer oficial do filme Ocean.
A boa noticia, uma vez mais, é que, para mudar o status-quo, basta vontade e financiamento, e não ficarmos apenas à espera de novas invenções ou tecnologias futuras que poderão nunca chegar. Temos provas fiáveis de que as áreas marinhas protegidas podem ser bem-sucedidas. Certo, poderão nem todas funcionar da mesma maneira, durante exatamente o mesmo período e com exatamente o mesmo grau de eficácia; mas funcionam. A implementação da meta 30×30 pode ser alcançada com a tecnologia de que dispomos hoje e, se escolhermos as áreas mais adequadas a proteger e as monitorizarmos bem, temos boas razões para contar com grandes melhorias no nosso oceano num período relativamente curto.
Acontece que o oceano é um sistema dinâmico e interligado, o que origina complexidades. Por exemplo, par muito bem que possamos proteger 30 par cento, se abusarmos com gravidade dos restantes 70 par cento, o plano não terá provavelmente a eficácia pretendida. Consequentemente, muitos cientistas, ao invés, sugerem que nos comprometamos com a proteção de 30 por cento do oceano e com uma gestão sustentável dos outros 70 par cento. Contudo, que significa pescar de forma sustentável?
Segundo a definição padrão, «sustentabilidade» significa «satisfazer as necessidades das gerações atuais sem comprometer as necessidades das gerações seguintes». Há quem afirme que uma grande parte da atividade piscatória atual é «sustentável» por visar o que se conhece como «rendimento máximo sustentável» – basicamente, o cúmulo que se pode pescar num ano mantendo a expectativa de capturar a mesma quantidade no ano seguinte –, mas esta abordagem é alvo de grande controvérsia. Estimou-se que, segundo esta perspetiva, consegue-se pescar dois terços das populações de peixe de forma sustentável – parece que estamos a pescar uma quantidade semelhante de muitas populações de peixe todos os anos. Mas há contra-argumentos: com o «rendimento máximo sustentável», as populações de peixe atuais diminuíram para cerca de metade do tamanho que tinham antes de serem pescadas; os dados sobre as pescas são incompletos e baseiam-se sobretudo no que é capturado, e não no que efetivamente existe no oceano; e os dados divulgados não consideram adequadamente variáveis como capturas acessórias, redes fantasmas ou o impacto a longo prazo sobre ecossistemas frágeis mediante o uso de métodos como o arrasto de fundo.
Poderíamos escrever um livro inteiro acerca deste debate. Se o fizéssemos, entraríamos por questões de grande valor, mas complexas, como saber se um peixe (ou população de peixes) deverá existir pelo seu próprio valor intrínseco ou unicamente pelo valor que tem para nós como recurso. Para os nossos fins, a questão essencial é saber que quantidade pescada, usando que meios e em que locais, permitirá garantir o bem-estar do nosso oceano e das comunidades que dependem do alimento que obtêm do mar para ter uma qualidade de vida decente.
Não existem respostas simples e universais, mas conhecemos os parâmetros. Sabemos que alguns métodos de pesca, sobretudo o arrasto de fundo e a dragagem, são especialmente nocivos. Também sabemos que o oceano será mais resiliente aos impactos das alterações climáticas se a vida marinha for rica, diversificada e abundante, e que a vida marinha é mais saudável quando os habitats possuem o equilíbrio certo entre espécies – isto aplica-se tanto a um habitat como à floresta de mangues, ao recife de coral, as laminárias ou a uma pradaria de ervas marinhas. Todas as evidências indicam que, ao proteger amplas áreas em todo o nosso oceano, ao proibir métodos de pesca nocivos e ao investir numa monitorização independente e minuciosa das populações de peixes, deveríamos conseguir recuperar drasticamente a vida no oceano.
Contudo, num mundo tão complexo, será verdadeiramente possível que a solução seja tão simples como a criação das devidas áreas marinhas protegidas num terço do oceano e travar o uso das estratégias de pesca mais nocivas em todo o lado? Sim e não. Mesmo que não mudássemos mais nada de hoje em diante, já alcançaríamos uma enorme mudança. Ainda assim, há fatores de incerteza.
Que a história para os nossos netos seja de sucesso

“As rotas de migração das baleias-francas no Atlântico Norte desviaram-se mais para norte nos últimos anos, possivelmente em reação ao aquecimento das águas e às mudanças na disponibilidade de presas.” Foto retirada do trailer oficial do filme Ocean.
As alterações climáticas já marcam a sua presença entre nós. O aquecimento das águas e as vagas de calor no oceano fundem o gelo marinho, perturbam correntes oceânicas, branqueiam recifes de coral e obrigam à migração de espécies marinhas. Regra geral, parece que a migração climática está a suceder muito mais depressa no oceano do que em terra – provavelmente por haver menos barreiras à movimentação. Com efeito, muitas espécies oceânicas estão já a mudar-se mais para norte ou para sul, afastando-se do equador, rumo a águas mais frias. Por exemplo, as rotas de migração das baleias-francas no Atlântico Norte, ao largo da costa do Canadá, desviaram-se mais para norte nos últimos anos, possivelmente em reação ao aquecimento das águas e às mudanças na disponibilidade de presas. Estes novos trajetos levam as baleias para zonas com um mais intenso tráfego de transporte de mercadorias, o que gera todo um novo desafio para quem trabalha em prol de proteger esta espécie em risco. Este é apenas um exemplo do que será provavelmente uma reorganização em todo o oceano. Sendo já certo que o aquecimento continuará a ser significativo – as nossas emissões atuais ainda não produziram o seu pleno efeito sobre o sistema climático global-, as localizações consideradas hoje ideais para a proteção marinha poderão não ser as mesmas daqui a uma ou duas décadas. Teremos de monitorizar continuamente a situação e manter-nos adaptáveis na nossa abordagem.
Além do mais, existe uma relação recíproca entre a forma como lidamos com as alterações climáticas e a saúde do nosso oceano. Quanto mais depressa reduzirmos as nossas emissões, menores serão os danos causados pelas alterações climáticas na vida marinha: quanto mais saudável o nosso oceano se tornar, mais nos ajudará a abrandar as alterações climáticas. Como tal, podemos ter uma situação em que todos beneficiam. Contudo, para isso, temos de abordar os dois lados desta equação, velozmente e em grande escala, superando em muito os esforços empreendidos até hoje.
Nos últimos cem anos, a espécie humana deixou de ser unicamente uma espécie «disseminada» ou «dominante» e tornou-se a única e maior força de mudança do planeta.
0 nosso impacto na biosfera e tão profundo que, quando o analisamos por referenda ao tempo geológico, os danos que causamos equivalem, em magnitude, aos dos cinco mais importantes acontecimentos de extinção em massa anteriores na história da Terra – incluindo aquele que acabou por aniquilar a maior parte dos dinossauros. Contudo, para os mais abastados e afortunados entre nós, os que causam a maior parte do problema, é fácil ignorar os danos. Levamos vidas boas. Temos alimento e água a disposição. Do lado de fora das nossas casas, vemos pássaros e árvores. Quando as condições meteorológicas se tornam extremas, podemos refugiar-nos dentro de casa em relativo conforto. Enquanto vivemos o nosso quotidiano privilegiado, o mundo não parece apocalíptico; o incentivo para a mudança pode parecer-nos muito longínquo.
No entanto, as velhas referências já não estão entretanto em vigor. Durante grande parte da história da nossa espécie, o nosso impacto foi local e as ameaças que enfrentávamos estavam mesmo diante dos nossos olhos ou muito para lá da nossa esfera de influência – eram «acontecimentos fortuitos». Contudo, embora nós, humanos, sejamos fisicamente quase iguais ao que eramos há 100 000 anos, em todos os outros sentidos estamos irreconhecíveis. Hoje, somos uma espécie verdadeiramente global que molda todo o planeta e cujas maiores ameaças decorrem de uma biosfera que nós desestabilizamos. Os mais pobres sentem agudamente estas ameaças, enquanto muitos de nós, em países ricos, começamos agora a perceber que uma relativa abastança não nos isola para todo o sempre. Para abordar estas novas formas de desafio, para termos mesmo alguma hipótese de recuperar o nosso oceano e estabilizar o nosso mundo, não precisamos meramente de mudar as políticas, precisamos de mudar a nossa perspetiva. Precisamos de nos ver a nós mesmos como realmente somos.
Se pudermos reformular a nossa perspetiva e reconhecer que somos uma espécie que, apesar das suas espantosas invenções, continua completamente dependente de uma biosfera estável; se reconhecermos que somos uma espécie que faz parte da natureza, que não está de algum modo à parte do mundo natural por força da nossa grande inteligência; se reconhecermos que temos agora a capacidade de alterar e danificar a biosfera; então poderemos também reconhecer que a única forma de sair desta situação é cooperar e resolver os nossos problemas comuns como uma espécie verdadeiramente global.
Os acordos globais podem ser um processo lento, podem ser difíceis de implementar e estar cheios de cedências, mas são neste momento fundamentais para se operar uma mudança em grande escala. Por sorte, desenvolvemos alguns atributos muito úteis. As nossas competências de comunicação sem paralelo e a capacidade de partilhar ciência, factos e boas práticas podem ambas funcionar a nosso favor. Basta olhar para o Tratado para a Antártida ou para a moratória sobre a caça à baleia para perceber que são possíveis acordos de grande relevância que mudam o mundo. Será assim demasiado otimista achar que conseguimos fazer funcionar a meta 30×30 ou o Tratado do Alto-Mar? Estará para lá das nossas capacidades acordar uma proibição da extração mineira no mar profundo? Reduzir a poluição do oceano? Partilhar e implementar boas práticas de aquicultura?
Mudar de perspetiva para reconhecer o nosso impacto no planeta não implica que as medidas mais pequenas e mais locais deixem de ser relevantes – bem pelo contrário. Não apenas os exemplos locais, aparentemente isolados, podem fornecer um guião e factos úteis para iniciativas de maior dimensão, coma as histórias individuais também ajudarão a mudar a forma coma nos vemos a nós mesmos coma espécie.

“Verão cardumes de peixes, bandos de aves marinhas e grupos de baleias para lá do que qualquer pessoa hoje viva terá alguma vez visto.” Foto retirada do trailer oficial do filme Ocean.
Os humanos são desde sempre contadores de histórias. Desde as primeiras civilizações humanas, foi isto que moldou a nossa cultura, forjou a nossa identidade e definiu o que consideramos importante. As nossas histórias partilhadas formaram religiões e nações; estão na base da política, criam a nossa conceção identitária e as tribos para as quais gravitamos. É difícil pensar em qualquer grande transformação social na história moderna – dos direitos civis às relações de pessoas do mesmo sexo – que não tenha sido moldada ou acelerada pelas histórias individuais de injustiças ou esperança. E o mesmo se pode dizer acerca da nossa transição de uma espécie que explora e espolia o oceano para uma espécie que o recupera e supervisiona.
Temos sido até agora tão competentes a contar histórias de ruína e colapso que muitos de nós imaginamos com demasiada facilidade um oceano futuro de recifes branqueados, tartarugas asfixiadas com plástico, plumas de efluentes, invasões de medusas e vilas fantasmas onde em tempos havia vilas piscatórias cheias de vida. Para avançarmos, as nossas histórias de inovação, esperança e heróis assumem igual importância, pois ambas as vertentes mostrar-nos-ão quem somos e inspirarão aquilo em que ainda vamos a tempo de nos tornar.
Não são histórias acerca de um qualquer futuro longínquo, mas sim imbuídas de uma realidade que está ao alcance de muitas pessoas vivas neste preciso momento. Imaginemos duas crianças a brincarem hoje numa praia, talvez a empilharem pedras, a correrem dentro e fora da rebentação das ondas ou a darem migalhas aos pequenos peixes que usam como isco quando pescam com os avós. Estas crianças crescerão para ver como esta história acaba, para ver o resultado das nossas escolhas. Se usarmos as nossas grandes descobertas, aplicarmos as nossas mentes singulares e direcionarmos as nossas impares competências de comunicação e resolução de problemas para a recuperação do nosso oceano, então essas crianças trarão os seus próprios filhos para um mundo em que os maiores desafios que a nossa espécie alguma vez enfrentou já terão sido contornados. Irão assistir a décadas de recuperação e restabelecimento. Verão cardumes de peixes, bandos de aves marinhas e grupos de baleias para lá do que qualquer pessoa hoje viva terá alguma vez visto. Vão vivenciar o renascimento de comunidades costeiras e o ponto de viragem na estabilização do nosso clima. Porém, mais do que isso, viverão num mundo em que a nossa espécie, a mais inteligente que alguma vez existiu na Terra, deixou de tentar dominar as ondas e, ao invés, aprendeu a prosperar lado a lado com aquele que é o maior reduto da natureza selvagem.
Oceano – O Último Reduto Selvagem
Autores: David Attenborough e Colin Butfield
Edição: Temas & Debates
Maio 2025, 424 páginas










