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António Cartageno: As bandas de música têm um grande papel na cultura local, na cultura musical local. Foto © Maria do Sameiro Pedro

A criação, na voz do autor de música religiosa (2)

Padre Cartageno: “Faz-se, retoca-se, melhora-se. Às vezes, deita-se fora e recomeça-se.”

Depois da publicação da primeira parte da entrevista, continuamos a conversar com o padre António Cartageno, desta vez com particular destaque para a sua formação musical (na infância, em Lisboa na juventude, e já adulto e padre em Roma). No diálogo, emergiram reflexões sobre os aspetos da sua ação que o transformaram numa referência para qualquer coro litúrgico em Portugal, assim como acerca da criação da sua família prolongada, o Coro do Carmo de Beja. Nestes âmbitos, trabalhou com figuras de referência da música sacra e, com o passar do tempo e o seu incansável labor, tornou-se também uma delas.

 

António Cartageno: As bandas de música têm um grande papel na cultura local, na cultura musical local. Foto © Maria do Sameiro Pedro

António Cartageno: As bandas de música têm um grande papel na cultura local, na cultura musical local. Foto © Maria do Sameiro Pedro

 

7MARGENS – Certamente, o menino que começou a aprender música com o pai e passou anos em Roma a estudá-la fez um grande caminho…
ANTÓNIO CARTAGENO – Ah, fez, fez. Fez um grande caminho. Um grandíssimo caminho… O meu pai foi um grande músico. Era um músico de uma banda de aldeia, mas é uma banda das boas. Sempre foi e nos últimos tempos tem-se afirmado até como uma das boas bandas musicais do norte do país. E o meu pai foi um músico muito bom, muito bom. Tocava bombardino, mas tinha um som único. Cada um tem a sua forma. Mas, com um instrumento de sopro, o som não é igual em todos os músicos.

 

7M – Depende de quem toca o instrumento…
Depende de quem toca. E ele era um músico apaixonado, tocava bem, tinha uma boa preparação musical, preparou muitos, muitos jovens para a banda, para novos músicos. Não era um maestro, mas durante o inverno gastava os seus serões a ensinar jovens para serem também músicos na banda. E, portanto, também ficou cá este bichinho. Além disso, eu próprio ouvi desde o berço a banda a tocar, porque eu dormia num quarto mesmo em frente da sala em que a banda tocava. Então, eu adormeci ao som da banda durante muitos anos. Ficou cá muita coisa no meu subconsciente. E a banda não tocava só músicas populares, tocava também música clássica. Lembro-me perfeitamente de ouvir a abertura de O Barbeiro de Sevilha, de Rossini, e também outras obras, como o Egmont, de Beethoven.

Isso é interessante, numa banda de aldeia. Era uma verdadeira escola popular, um conservatório local, que ainda hoje é. É o polo de dinamização musical de todo o concelho de Alijó. Até há crianças e jovens das aldeias vizinhas que lá vão, trazidas pelos pais, para fazer parte da banda, porque a banda tem prestígio e tem qualidade. E depois, alguns saltam dali para os conservatórios, para as universidades e forma-se ali muita gente. Hoje não faltam professores de música, espalhados pelo país, que começaram naquela banda. Como noutras também. O que eu estou a dizer sobre São Mamede também acontece noutros lugares. As bandas de música têm um grande papel na cultura local, na cultura musical local.

 

7M – E hoje até há associações recreativas que tinham a sua banda de música e criaram escolas de conservatório.
Exatamente. Tudo isto vem a propósito de dizer que a minha sensibilidade, esta aptidão para a música é quase genética. O meu avô era músico, o meu pai era músico, o meu tio era músico e depois o meu irmão, que infelizmente já faleceu, também foi músico da banda. E sobretudo o facto de eu estar ali assim, desde menino, a escutar, sem perceber nada – mas isto é como um leito materno.

 

7M – E chegou a tocar nessa banda?
Aprendi instrumentos, mas não toquei. Dirigi a banda depois, mais tarde.

 

O cântico gregoriano Puer natus est nobis, no manuscrito iluminado por Silvestro dei Gherarducci para Paolo Venier, abade de San Michele em Murano (Veneza, Itália). Florença, ca. 1392–1399. Foto © via Wikimedia Commons.

O cântico gregoriano Puer natus est nobis, no manuscrito iluminado por Silvestro dei Gherarducci para Paolo Venier, abade de San Michele em Murano (Veneza, Itália). Florença, ca. 1392–1399. Foto © via Wikimedia Commons.

 

7M – Porque, entretanto, também entrou para o seminário.
Sim. Quando vim para o Seminário, já sabia música. Foi o meu pai quem me ensinou. Nesse aspeto, também fui privilegiado. Quando vim para o Seminário de Beja, já sabia aquilo tudo. A partir do meu segundo, terceiro ano, dei um salto qualitativo nos conhecimentos porque aprendi facilmente a ler, a olhar para a pauta e cantar a música. Como lemos um livro, eu cantava a música com toda a facilidade. Isso foi o princípio de uma caminhada que depois se materializou mais em Lisboa, quando fui estudar para o Seminário dos Olivais. Matriculei-me no Centro de Estudos Gregorianos de Lisboa, que depois deu origem ao Instituto Gregoriano de Lisboa. Estudei lá durante seis anos, enquanto fiz o meu curso de Teologia no Seminário dos Olivais.

Foi uma “visão” do então bispo auxiliar de Beja, D. António Cardoso Cunha, que me conheceu e viu que havia algumas aptidões a explorar. Assim, quando eu cheguei ao Seminário dos Olivais, disseram-me “olha, o teu bispo disse para te ires matricular Centro de Estudos Gregorianos” e lá fui. E ia lá uma vez por semana, à quinta-feira, e consegui de facto aprender coisas interessantes com o professor Antoine Sibertin-Blanc, falecido há onze anos. Ele foi organista titular da Sé de Lisboa e foi o grande professor de muitos dos organistas que, entretanto, se formaram em Portugal, na Escola Superior de Música de Lisboa. Ele era o Professor. Portanto, algumas das minhas bases mais sólidas foram com ele, em Lisboa, e depois aperfeiçoei-as em Roma durante os sete anos que estive por lá. Foi uma experiência muito boa, que me preparou para fazer aquilo que tenho feito e tentar fazê-lo bem. Enfim, faço o que posso. [risos]

 

7M – Quando esteve em Roma, frequentar o Pontifício Instituto de Música Sacra permitiu-lhe estudar, provavelmente, na melhor escola que poderia ter?
Não digo que seja a melhor. Há muito boas escolas de música sacra, nomeadamente na Alemanha.  Aliás, o Pontifício Instituto de Música Sacra foi fundado pelos alemães, em 1903, se não estou em erro. Portanto, já é uma extensão, digamos, de escolas alemãs. Acho que aprendi muito e tive contacto com alguns mestres muito importantes, nomeadamente o maestro Bartolucci. Foi com quem estudei composição e instrumentação. Mas tive um outro professor, que morreu há pouco tempo, chamado Italo Bianchi, com quem aprendi a sistematizar muito bem as coisas. Ele era um professor muito didático e ajudou-me muito.

Há coisas às quais um autodidata, sozinho, não chega. Precisa da orientação de quem tem outra experiência, de quem sabe. Não aprendi tudo nem sei tudo, mas tem sido também muito útil a colaboração no Curso Nacional de Música Litúrgica, promovido pelo Secretariado Nacional de Liturgia. Fizemos seis edições, cada curso dura três anos. E agora, já no meio da covid, concluímos o sexto curso. E sinto que também foi importante o contacto com outros colegas que vêm dessas escolas alemãs. Foi sempre bom ver como é que os outros fazem, e como ensinam, e em que insistem, etc.. Aprende-se sempre muito, uns com os outros.

 

7M – Como é a relação com o outro, mediada pela música e pela palavra, como por exemplo acontece com o Coro do Carmo de Beja, que criou e que tem dinamizado? Não é o dirigir-se a público em geral, mas é recorrentemente encontrar-se com aquele grupo de pessoas para trabalhar…
Bom, é um complemento. A minha área é a composição. E o Coro do Carmo, em muitos casos, tem sido, já lhes tenho dito, uma espécie de laboratório.

 

7M – São umas cobaias que tem.
[risos] Eu escrevi isso na introdução ao livro Bendizei ao Senhor. De facto, o Coro do Carmo serviu para, muitas vezes, testar e até, eventualmente, melhorar algumas das coisas que fui fazendo ao longo da vida. Ainda antes de ir para Roma e depois de vir. Estive em Roma desde 1987 até 94. Nesse período, fui-me apetrechando, e, depois de vir, para algumas coisas que fiz, fui pedindo ao Coro que me ajudasse a pô-las de pé. Às vezes coisas que era preciso mesmo gravar, por exemplo. Já gravámos vários discos, com música para a liturgia, para as festas, etc.. Tem sido uma coisa muito boa. O Coro do Carmo é uma família prolongada. Começou ainda antes de eu ir para a Roma, em 1976, praticamente. E tem-se mantido, com dificuldades às vezes. Mas, tem-se mantido e tem feito o seu papel.

 

O padre Cartageno com dois membros do Coro do Carmo. Foto © Maria do Sameiro Pedro

O padre Cartageno com dois membros do Coro do Carmo. Foto © Maria do Sameiro Pedro

 

7M – E tem-se renovado, também…
Claro, isso é inevitável. Dos da primeira hora, só lá estão três ou quatro. Os outros são pessoas que foram entrando. Mas é assim a vida, não é? E temos feito aquilo que é possível. Também sem triunfalismos, faz-se o que se pode. Servimos a Igreja, não só a Igreja na Diocese, mas também, às vezes, a um nível mais alargado. É um serviço que se presta. E é um serviço importante porque o nosso meio, aqui no Alentejo, é bastante pobre na área coral. Coros polifónicos existem poucos e coros litúrgicos muito menos. E dou graças a Deus por ter estas pessoas na minha vida. Algumas delas têm encontrado o seu caminho de fé através do Coro. Isso também é importante. O Coro é um instrumento de evangelização para os que estão e para os nossos destinatários, porque através da música temos ajudado a tocar o coração de alguns.

 

7M – E, depois destas décadas de trabalho, qual é a sensação de ver aquele substancial volume, editado pelo Secretariado Nacional da Liturgia, com o seu trabalho intitulado Bendizei ao Senhor?
É uma espécie de síntese, de balanço, embora não esteja ali tudo. A parte para a liturgia está lá, o principal [pelo menos]. E dou graças a Deus também por ter sido possível publicar esta obra, porque foi, digo-o sem vaidade, muito pedida. As pessoas diziam-me: “Ah, queremos encontrar os seus cânticos, onde é que os podemos encontrar?” Estava tudo disperso, por aqui e por além, como lá está explicado. Agora, aí está o livro para quem quiser…

 

7M – A primeira edição esgotou rapidamente, não foi?
A primeira edição esgotou em pouco tempo, em cinco ou seis meses. Depois, fez-se uma segunda edição, com mais um apêndice com umas composições que não tinham entrado e outras que, entretanto, escrevi. Claro que estas obras têm o seu público específico. É diferente um livro daqueles de um Cantoral Nacional. Este é um livro acessível a toda a gente. Por dez euros pode-se comprar o Cantoral e tem lá os cânticos todos. São mil e tal os que são propostos para o Repertório Nacional, e são aprovados pelos bispos portugueses e pela Santa Sé. O Bendizei o Senhor é um livro específico, é um livro de um só autor. Embora lá haja coisas de outros autores que eu harmonizei e, portanto, enriqueci também com uma harmonia. Mas é um livro de um só autor, uns gostam, outros não gostam.

 

7M – Mas, em geral gostam, digamos assim.
Sim, acho que sim. Os ecos são positivos [risos], mas há gostos para tudo. Num mundo plural, uns gostam mais de um estilo, outros gostam mais de outro. E temos de respeitar isso. É natural, naturalíssimo. Mas estou contente por se ter feito esse livro, está ali um bom bocado da minha vida.

 

7M – Uma fatia muito substancial, não é?
Sim. Trezentos e tal cânticos. Mas, como digo, há muita coisa que não está lá. Da Liturgia das Horas praticamente não está lá nada, tirando alguns hinos. E, depois, da grande música para coro e orquestra, das cantatas e oratórias, também não está lá nada.

 

7M – E há planos de edição desse material?
Esse material é sempre para um público reduzidíssimo. Portanto, não tenho planos nenhuns.

 

7M – Falemos um pouco dos aspetos práticos do seu trabalho.
A Cantata de Nossa Senhora da Conceição levou um ano a escrever. E não era todos os dias, porque eu tenho a minha vida… Por acaso, aquando da Cantata de Santo Agostinho, eu acho que nessa altura não estava a dar aulas, e tive um pouco mais de disponibilidade. Mas pude ir fazendo, com muitos outros trabalhos ao mesmo tempo.

 

7M – Pois, porque essa é uma questão que escapa ao público em geral pode. O padre Cartageno é um compositor. Mas, provavelmente, a maior parte das horas da sua vida não são as de composição… As de composição são sempre para lá de todas as suas outras coisas.
Para a Cantata de Santo Agostinho, levei muitos dias recolhido, pois nessa altura eu não tinha obrigação de aulas, mas tinha a paróquia. Então, tinha a paróquia, juntamente com o padre Aparício. Mais tarde, a Oratória de Fátima também levou um tempo imenso a fazer, pelo menos um ano e meio. Porque estas coisas não saem assim, de repente. Eu sou lento e gosto de pensar, de ver e rever.

 

7M – E é também o tempo que o Espírito Santo demora a acompanhá-lo.
É, é o Espírito Santo também a atuar. Ouvi dizer, e deve ser verdade, que o Häendel escreveu o Messiah em 15 dias. Parece-me que foi isso que eu ouvi. Só o trabalho de escrita é capaz de ser mais, digo eu. Mas também o Mozart escrevia e o que escrevia estava tudo bem, era raro emendar. Eu não, eu escrevo, revejo, corrijo, etc.. Mas, para a maior parte dos compositores, creio que também é assim.

Ainda me lembro, nos últimos anos em Roma, das aulas de composição com o maestro Bertolucci. Eram mesmo na sede do Coro da Capela Sistina, no centro histórico de Roma. E nós – éramos dois ou três – chegávamos lá às nove horas e ele estava já sentado ao piano a retocar coisas dele. E eu pensei assim, “Mamma mia, este homem ainda retoca as suas coisas, tanto o desejo sempre da perfeição: que fará eu?”  Um filme, chamado Amadeus, mostra o Salieri a olhar para a partitura e a dizer “Ah, mas ele não emenda aqui nada, está tudo perfeito, tudo perfeito”. Sendo verdade, o Mozart escrevia e o que escrevia saía logo tudo definitivo.

 

7M – Mas essa é uma exceção à regra.
E é assim, isto é um laboratório, como outro qualquer. Faz-se, retoca-se, melhora-se. Às vezes, deita-se fora e recomeça-se. Quantas vezes tenho já a coisa feita e, às tantas, penso: “não é isto!”.

 

António Cartageno: “Como é que ponho aqui a melhor maneira de o povo louvar a Deus com estas palavras?” Foto © Maria do Sameiro Pedro

António Cartageno: “Como é que ponho aqui a melhor maneira de o povo louvar a Deus com estas palavras?” Foto © Maria do Sameiro Pedro

 

7M – Esta luta com a página em branco também é uma forma de realizar o tal trabalho, que disse começar por rezar o próprio texto?
Exatamente. E depois, imaginando: como é que ponho aqui a melhor maneira de o povo louvar a Deus com estas palavras?

 

7M – Pode-se dizer que esse processo criativo é também um processo de contemplação?
Também, claro que sim. Quantas vezes dou por mim a cantar imaginando a assembleia. Como é que a assembleia pega nisto? Às vezes, um salmo, até coisas pequeninas. E, não, a assembleia não faria assim. Eu penso e não quero, nunca pretendi ser complicado só para parecer que vim fazer coisas complicadas. Não está dito, mas eu procuro que a minha música seja simples, sem ser banal. Nunca procurei o complicado pelo complicado. Mas, às vezes, é preciso mais elaboração e há coisas que… não é assim qualquer pessoa que canta, ou qualquer coro. Há outras que são muito mais acessíveis. É claro, na Cantata de Santo Agostinho, as coisas já são um bocadinho mais exigentes, até mesmo na Oratória de Fátima. Mas é natural, porque são obras diferentes, feitas para executantes mais preparados. Mas nunca considero que aquilo que faço é complicado, no sentido de me pôr ali para verem que consigo escrever coisas complicadas. Essa ideia nunca a tive e rejeito-a até.

 

7M – Quem souber escutar com conhecimento de causa sabe que nessa aparente simplicidade também está por vezes uma enorme dificuldade, não concorda?
Eu acho que não é fácil ser simples sem ser banal. Uma coisa é ser simples, outra coisa é ser simplório, se calhar. E podemos cair no corriqueiro. Eu não queria isso, mas se calhar às vezes também caio.

 

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