
“O número de palestinianos mortos aproxima-se dos 44 mil (entre os quais perto de 19 mil crianças) e mais de 100 mil feridos.” Foto © Abed Zagout | Unicef
Com o número de palestinianos mortos a aproximar-se dos 44 mil (entre os quais perto de 19 mil crianças) e mais de 100 mil feridos, na sequência dos bombardeamentos do exército israelita, a simples admissão pelo Papa Francisco de que se deveria investigar se pode estar a ocorrer um genocídio na Faixa de Gaza levantou uma onda de críticas, algumas delas violentas.
Referindo-se a um vasto leque de conflitos que levam multidões a abandonar os seus países, em busca de segurança, o Papa referiu-se a Gaza, onde a população palestina passa fome devido à dificuldade de fazer chegar ajuda humanitária. Neste contexto, afirmou: “De acordo com alguns especialistas, o que está a acontecer em Gaza tem as características de um genocídio. Isso deveria ser investigado com atenção para determinar se se enquadra na definição técnica formulada por juristas e órgãos internacionais”.
Estes comentários, que tiveram repercussão internacional, surgem num livro intitulado A Esperança Nunca Desilude. Peregrinos em direção a um mundo melhor, publicado a propósito do Jubileu de 2025, e de cujo conteúdo o jornal La Stampa publicou no último domingo alguns excertos [ver 7MARGENS].
A primeira reação surgiu esta segunda feira, vinda do Combat Antisemitism Movement, uma organização internacional que monitoriza e luta contra o antissemitismo em todo o mundo e reivindica uma rede de cinco milhões de ativistas e 250 influencers nas redes sociais. Num duro comunicado, o diretor executivo, Sacha Roytman, dirige-se diretamente ao Papa dizendo que os comentários que fez “não são apropriados”. “Se quiser tornar o mundo um lugar melhor, acrescenta, deveria realmente começar a atacar os responsáveis: Irão, Hezbollah, Hamas, Autoridade Nacional Palestina, que têm vindo a espalhar o terror há anos e a promover guerras genocidas e mensagens de ódio para os seus filhos.”
O comunicado alega que o Papa estará, com as suas observações, a inscrever-se numa “narrativa palestina antijudaica, espalhada por todo o mundo”, configurando mesmo uma traição e “uma possível abertura de uma oitava frente, o Vaticano, que também pode levar ao derramamento de sangue judeu ao redor do mundo”.
Quem se insurgiu também contra as palavras de Francisco foi Edith Bruck, uma nonagenária sobrevivente do Holocausto que não há muito tempo foi visitada pelo Papa, no seu apartamento romano. Para ela, o que se passa em Gaza é uma “tragédia que preocupa a todos”, mas que não pode ser comparada com o que fizeram os nazis aos judeus, já que Israel não está a tentar exterminar toda a população palestina.
O embaixador de Israel junto do Vaticano comentou no Twitter que o que Israel tem feito é exercer o seu direito de auto-defesa e que genocídio foi o que fez o Hamas em 7 de outubro.
Em sentido contrário, vão as palavras de Rita Baroud, uma jovem palestiniana de 21 anos, publicadas pelo jornal italiano La Repubblica e traduzidas pelo site do Instituto Humanitas da Unisinos, no Brasil. Segundo a jovem, que o Papa apele a uma investigação sobre se aquilo que se tem passado é ou não um genocídio é “impressionante, mas tardio”.
“Quando li a notícia para a minha família, a resposta foi unânime: agora? Depois de tudo isso?” Porém, acrescentou ela, “não foi apenas o momento que foi frustrante, mas a própria natureza da declaração. As palavras do Papa careciam de clareza e não ofereciam soluções concretas. Não houve nenhum pedido de trégua ou ajuda imediata para as vítimas, apenas uma série de perguntas sem resposta”.
Por sua vez, o já citado La Stampa publica também esta segunda-feira uma entrevista com a juíza Silvana Arbia, que foi promotora do Tribunal da ONU no Ruanda e chanceler do Tribunal Penal Internacional (TPI), na qual ela agradece a Francisco pelo “alto apelo que dirigiu à comunidade internacional”.
“Todos os Estados sobre esta Terra – observa – têm a obrigação, repito, a obrigação não apenas de processar e punir o genocídio, mas também de prevenir esse gravíssimo crime internacional. São normas imperativas inderrogáveis que a comunidade internacional adotou para garantir a paz e a segurança mundiais e para evitar a repetição das terríveis tragédias que ocorreram durante a Segunda Guerra Mundial. Infelizmente, estamos a testemunhar uma violação crescente dessas regras, estamos a destruir todo o sistema de defesa dos povos, ou seja, de nós mesmos. Desconsiderar a autoridade da ONU e suas instituições implica sérios riscos que dizem respeito a todos nós.”
Entretanto, em mais um relatório publicado na última semana, um Comité Especial das Nações Unidas afirma que “a guerra de Israel em Gaza é consistente com as características do genocídio, com vítimas civis em massa e condições de risco de vida impostas intencionalmente aos palestinianos” que vivem no território.









