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O irmão Aloïs de Taizé na assembleia da CMI 2022 Foto ©  Albin HillertWCC.
O irmão Aloïs de Taizé na assembleia da CMI 2022 Foto © Albin Hillert/WCC.

Testemunho do ex-prior de Taizé

Papa Francisco: a coragem da fé

 

“Todos, todos, todos” – estas palavras, entoadas em Lisboa perante uma multidão de jovens de todo o mundo, saíram espontaneamente do coração de um Papa já fisicamente frágil, mas ainda animado por uma força interior excecional. Que todos encontrem acolhimento na Igreja! A Igreja está ao serviço da humanidade, especialmente dos mais pobres e dos mais frágeis.

A mudança de época que o Papa diagnosticou exige novas respostas à pergunta: como anunciar hoje o Evangelho? Francisco empenhou resolutamente a Igreja Católica em responder a este desafio. Fiel ao seu santo padroeiro de Assis, começou por sublinhar a “alegria do Evangelho”, a Evangelii gaudium. É inevitável que tenha vivido momentos de profunda tristeza, mas um dos aspectos mais surpreendentes da sua pessoa é a sua capacidade de permanecer sereno. Durante uma das primeiras audiências que me concedeu, perguntei-lhe como conseguia manter-se sempre sereno. Respondeu-me que não sabia, mas que tinha sido assim desde que tinha sido eleito. E acrescentou que rezava muito ao Espírito Santo.

Estou certo de que foi a sua familiaridade com o Espírito Santo que inspirou o sínodo sobre a sinodalidade. Precisou da coragem da fé e de uma grande liberdade interior para o convocar. Tendo sido convidado a participar nas duas assembleias gerais, posso testemunhar a imensa mudança que este sínodo introduziu. Na linha do Vaticano II, fez passar a Igreja Católica de uma conceção piramidal para a imagem de uma comunidade de todos os baptizados. Na fidelidade à tradição viva, este Sínodo abriu as portas a reformas que tornarão a Igreja mais fiel ao Evangelho. Poderá vir a ser o acontecimento mais importante para a Igreja Católica desde o Concílio Vaticano II.

O Sínodo sobre a sinodalidade teve uma forte dimensão ecuménica. Uma imagem permanece gravada nos nossos corações: na véspera do Sínodo, na Praça de São Pedro, o Papa estava rodeado por dezanove outros líderes da Igreja de diferentes confissões, invocando a bênção de Deus sobre o povo de Deus reunido em oração. E para os trabalhos do próprio Sínodo, Francisco ousou convidar delegados de outras Igrejas, não apenas como observadores, mas para participarem nos debates em torno das mesas redondas e nas sessões plenárias.

A coragem da fé é uma marca de todo o pontificado do Papa Francisco. Teremos prestado atenção suficiente à sua fé profunda? Será que compreendemos suficientemente as raízes da sua paixão pela renovação da Igreja e do seu empenhamento no bem da humanidade e do nosso planeta? É na sua última encíclica, Dilexit nos (“Ele amou-nos”), que ainda não encontrou o eco que merece, que ele fala mais abertamente sobre as fontes da sua fé e da sua esperança,.

Foi discreto, quase secreto, na sua oração pessoal. Mas podemos sentir que ele foi tão longe quanto humanamente possível, até ao mais profundo da sua fé no amor de Deus, que é Pai, Filho e Espírito Santo. Sem dúvida que se esforçou sempre por voltar a confiar no amor pessoal de Deus por ele, “pecador perdoado”, como ele próprio se definiu quando respondeu à pergunta sobre como se via a si próprio. Esta proximidade de Deus empurrava-o literalmente para os outros, com um respeito total por cada um. O outro – seja ele quem for – é amado com o mesmo amor de Deus. Os seus actos e as suas palavras brotam desta fonte. Começou a carta que dedicou a Santa Teresa de Lisieux com esta citação: “É a confiança e nada mais do que a confiança que nos deve conduzir ao Amor.” No seu ministério de pastor universal, o amor de Francisco estendeu-se às dimensões da humanidade, ao mesmo tempo que se encarnou em gestos muito concretos, por vezes muito humildes, sobretudo para com as pessoas afectadas pelo sofrimento.

Francisco tinha uma extraordinária capacidade de escuta e de atenção. A sua capacidade de estar plenamente presente nas pessoas e nas situações era, sem dúvida, uma expressão visível da sua vida interior, constantemente alimentada pela fonte do Espírito Santo. Antes da primeira audiência privada que me concedeu em 2013, estava um pouco preocupado, perguntando-me o que poderia ele saber sobre a nossa comunidade de Taizé – era o primeiro papa desde Pio XI a não ter conhecido pessoalmente o irmão Roger, o fundador de Taizé. Que surpresa maravilhosa descobrir que ele estava muito consciente do que estávamos a passar. E numa outra audiência, surpreendeu-me de novo ao fazer-me imediatamente uma pergunta sobre um assunto de que tínhamos falado no ano anterior – como se estivesse a retomar uma conversa que mal tinha sido interrompida.

A principal tarefa de cada Papa é fortalecer a fé dos seus irmãos e irmãs e sustentar a coragem da esperança na humanidade. Com Cristo, Deus lançou o fundamento de uma nova criação. Como uma semente lançada em boa terra, esta boa nova do Evangelho germinou e cresceu na vida do nosso amado Papa, florescendo depois para o bem da Igreja e muito para além dela. As suas palavras e acções, mas também o seu modo de suportar a doença em idade mais avançada, são um testemunho vivo e luminoso do Evangelho. O seu exemplo inspira-nos a deixar que o amor de Deus oferecido a todos – a “todos” – dê frutos na nossa própria vida e na dos que nos rodeiam. Obrigado, Francisco!

O irmão Alois foi prior da comunidade de Taizé entre Agosto de 2005 e Dezembro de 2023.

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Último desejo de Francisco: os bolinhos da amiga Jacoba

Ano jubilar-800 anos da morte (8)

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O Papa Leão XIV proclamou, desde 10 de janeiro e até final deste ano, um ano jubilar assinalando os 800 anos da morte de Francisco de Assis, ocorrida em 3 de outubro de 1226 – a festa litúrgica é assinalada dia 4. Com esse pretexto, o 7MARGENS publica, até final do ano, nos dias 3 ou 4 de cada mês, uma série de dez textos da autoria de frei Isidro Lamelas, da Ordem dos Frades Menores, professor de Teologia. Este é o oitavo texto da série.

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