A notícia da morte do Papa Francisco deixa-me sem palavras, sinto uma dor imensa! A minha esperança é que, do outro lado da Vida, continue a ser luz para a Igreja e para este nosso mundo tão desumano.
Na esteira de João XXIII, abriu portas e janelas para que o Vento, o Ruah, o Espírito de Deus, arejasse e renovasse a Igreja Católica. Gastou a sua vida ao serviço da Alegria do Evangelho e foi o único a ouvir e sentir o grito das pessoas que sofrem a guerra, a fome, a falta de educação e saúde, o grito do Planeta Terra, o grito das pessoas abusadas a vários níveis, das mulheres descriminadas na Igreja, do clericalismo, peste que atinge muitos dos hierarcas, mesmo no próprio Vaticano…
Foi o único a gritar que a guerra é sempre uma derrota, sempre! Que a economia que impera neste nosso mundo é uma economia que mata. A única atitude que nos pode salvar é a misericórdia, a fraternidade universal, uma Igreja de todos, todos, todos! A sua fragilidade não o impediu de se aproximar das pessoas, de sentir o cheiro do seu povo.
Em relação às mulheres na Igreja, apesar de as chamar a ocupar cargos importantes na Cúria Romana – impensável antes do seu pontificado – há quem tenha ficado desiludida por não lhes conceder, pelo menos, a ordenação diaconal. Pelo contrário, eu fiquei contente porque, se nos admitisse ao diaconado, continuávamos descriminadas. A questão é mais funda. Implica uma outra compreensão eclesiológica que se impôs no Cristianismo sobretudo quando se tornou religião do Império Romano. Todas as pessoas, pelo baptismo, são sacerdotes, profetas e reis, em Cristo – único e grande sacerdote, como diz a carta aos Hebreus.
Faço minhas as palavras de Elizabeth A. Johnson: «historicamente, à medida que a Igreja dos primórdios se foi inculturando no mundo greco-romano, aos poucos foi-se modelando de acordo com o padrão da família patriarcal e, em seguida, dentro do padrão do império. Em razão disso, a imagem de Cristo assumiu os contornos do chefe masculino, na família, ou do soberano, no império, acontecendo um movimento correspondente de desenvolvimento similar, na visão do ofício eclesiástico. Cristo foi então considerado o princípio da supremacia da ordem cósmica, o rei soberano da glória, (…) cujo reino celestial estabelece e sustenta a norma terrestre do chefe de família, do império e da própria Igreja. A obediência a essas autoridades era a obediência ao próprio Cristo; a desobediência a elas punha em xeque a própria fidelidade a Cristo» [1].
As mulheres tornaram-se invisíveis na Igreja, embora sejam elas que, em todas as igrejas locais, sejam a maioria e, em muitas, as únicas nas celebrações. Sem as mulheres, grande parte dessas igrejas locais teriam de fechar portas.
Papa Francisco estás na plenitude da Vida, na Alegria que não tem ocaso, mas eu sinto uma dor enorme saber que já não fazes parte deste mundo. Continua a velar por nós.
Obrigada, Papa Francisco!
[1] — Aquela que É. O mistério de Deus no trabalho teológico feminino, Petrópolis, 1995, pp. 223-224.









