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Papa chegou a Espanha, iniciando a visita por Madrid. Foto © Vatican Media Leão XIV
Papa chegou a Espanha, iniciando a visita por Madrid. Foto © Vatican Media

Primeiro dia em Espanha

Papa Leão vai encontrar-se com vítimas de abusos

| 06/06/2026

Defesa do direito internacional, confirmação de que haverá um encontro com vítimas de abusos, humor sobre os concertos de Bad Bunny em Madrid e sobre qual é o clube de futebol de Leão XIV. A viagem do Papa para Espanha teve vários ingredientes durante o voo, enquanto o dia ficaria marcado pelo anúncio do encontro com vítimas de abusos.

Na viagem que o levou este sábado de Roma para Madrid, Leão confirmou que se encontrará com vítimas de abusos sexuais do clero, conforme o Vaticano anunciara na véspera. Ao mesmo tempo, afirmou o seu empenho e o de toda a Igreja na luta contra o que “é ainda uma ferida aberta”.

Na véspera, na Santa Sé, o porta-voz do Vaticano, Matteo Bruni, confirmara que o Papa se irá encontrar “com várias vítimas de abusos clericais em Espanha”, durante esta semana (até sexta, 12) de permanência em Madrid, Barcelona e Canárias. O responsável acrescentou ainda que o encontro foi organizado pelas instâncias da Igreja espanhola. “Mais informações serão divulgadas após o encontro, respeitando as vítimas, os seus desejos e a sua privacidade”, referia a nota de Bruni, citada pela Ecclesia.

Em Espanha, há um acordo assinado em Janeiro entre o Ministério da Justiça, a Conferência Espanhola de Religiosos (Confer) e a Conferência Episcopal Espanhola (CEE) sobre os casos que de abusos que “não tiveram tramitação judicial” e que, através do Defensor do Povo – equivalente ao provedor de Justiça, em Portugal – podem pedir uma reparação dos danos sofridos, se não quiserem recorrer à comissão estabelecida pela Igreja. Além de compensações económicas, essa reparação inclui apoio psicológico ou psiquiátrico com profissionais à escolha da vítima, extensível à família, e medidas de carácter simbólico e moral, acrescenta a Ecclesia. Desde o início do processo, que teve a participação das vítimas, o Governo decidiu que as compensações financeiras estarão isentas de tributação, e a CEE e a Confer garantem o pagamento das reparações caso a diocese ou a congregação responsável não o faça dentro do prazo estabelecido.

O tema esteve também presente no discurso do rei. Ao receber o Papa, Filipe VI afirmou: “A clareza e firmeza, que também quero reconhecer, são essenciais no processo de sanar e reparar os danos causados. São-no para as vítimas, para os fiéis, para a Igreja e para a sociedade no seu todo.”

Ainda no avião, o Papa referiu-se também à questão da guerra, repetindo que “os elementos de uma guerra justa não se encontram no Irão: a teoria da guerra justa vem de séculos passados, quando as armas e a capacidade de destruição disponíveis hoje eram inimagináveis”.

 

Diálogo contra a polarização

No discurso com que, no Palácio Real, respondeu às boas-vindas de Filipe VI, e diante de autoridades políticas, representantes da sociedade civil e membros do corpo diplomático, Leão pediu diálogo contra a polarização: “Hoje, a tentação de ganhar popularidade atiçando o fogo das polarizações parece crescer, em vez de diminuir; a dignidade humana continua a ser violada.”

“A mensagem de paz, que nestes tempos, infelizmente, ressoa para alguns como ingénua e para outros como provocadora, encontra acolhimento em quem não se fecha em ideologias pré-fabricadas, mas se abre à verdade”, acrescentou. O Papa elogiou ao mesmo tempo a cultura “do encontro” que marca a história de Espanha e criticando “abordagens identitárias” que povoam o mundo de fantasmas e inimigos”.

Na sua intervenção, Leão XIV recordou o exemplo da Escola de Tradutores de Afonso X, o Sábio, em Toledo e Córdova, e a cooperação entre cristãos, judeus e muçulmanos ao longo dos séculos, convidando a “proteger a liberdade religiosa e de consciência”. E acrescentou referências aos perigos do “ambiente artificial” da tecnologia, retomando a sua recente encíclica Magnifica Humanitas.

No Palácio Real, respondeu às boas-vindas de Filipe VI, pedindo diálogo contra a polarização. Foto © Vatican Media Leão XIV

No Palácio Real, respondeu às boas-vindas de Filipe VI, pedindo diálogo contra a polarização. Foto © Vatican Media

O outro momento da tarde foi a visita ao centro Cedia 24 Horas, iniciativa da Cáritas Madrid para acolhimento a pessoas sem-abrigo, onde escutou alguns testemunhos de voluntários e utentes.

​“Se não quisermos sair da corrente viva da Igreja que brota do Evangelho e fecunda cada momento histórico, não podemos esquecer os pobres”, afirmou o Papa.

O senegalês ​Khadry, refere a Ecclesia, recordou a sua chegada a Espanha durante a pandemia da covid-19, confessando que se sentia perdido e solitário antes de ser acolhido. A voluntária espanhola Alicia, por seu lado, entregou ao Papa um par de sandálias. ​“Acompanhar é para nós uma forma concreta de anunciar o Evangelho: estar perto, escutar, cuidar e reconhecer a dignidade sagrada de cada pessoa”, afirmou.

​“A sandália evoca a terra sagrada que somos obrigados a respeitar em toda a existência humana”, respondeu Leão XIV.

Jovens: sejam humanos!

Já à noite, na vigília com cerca de 400 mil pessoas (sobretudo jovens) na Praça de Lima, o Papa pediu-lhes: “Perante a violência da guerra e da mentira, sede vós mesmos centelha duma nova humanidade. Quero confiar a todos uma missão: sejam humanos. Sim, humanos! Homens e mulheres de carne e osso. Não aparências, mas rostos fiáveis. Pessoas que procuram a justiça porque têm fome dela, como do pão de cada dia”.

E falando de novo do ambiente digital, afirmou: “Muitas coisas nas redes sociais enganam-nos, dizem-nos mentiras. Procurem sempre a verdade. Deus é a verdade, o que afastar de Deus não é verdade, não se esqueçam.”

A vigília incluiu a encenação do espectáculo musical Godspell, de Antonio Banderas, e a assinatura pontifícia no verso da cruz dos jovens, culminando num momento de adoração eucarística.

No avião, de manhã, o Papa referira o porto-riquenho Bad Bunny, que está em Madrid para uma série de concertos: “Se lhes perguntassem [aos jovens] se querem ver o Bad Bunny ou o Papa, penso que muitos iriam ver o Bad Bunny. Mas acho que também haverá alguns aqui para o Papa”, ironizou. E num fim-de-semana de eleições no Real Madrid, disse que “o Papa apoia todas as equipas, mas Prevost [o seu nome de baptismo] apoia o Real Madrid.

 

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