Papa não abre mão do celibato obrigatório, mas quer “ampliar horizontes” do catolicismo na Amazónia (análise)

| 13 Fev 20

O Papa não ouviu (para já?) os pedidos dos bispos reunidos no sínodo sobre a Amazónia, acerca da ordenação de homens casados, um rito litúrgico próprio e um ministério específico para as mulheres. Na exortação Querida Amazónia, publicada nesta quarta-feira, Francisco não poupa críticas ao sistema económico predador da região e pede que se ampliem horizontes. Sete pontos para uma análise.

O Papa na missa de encerramento do Sínodo dos Bispos sobre a Amazónia. Foto ©  Sutterstock/Ponto SJ

 

O medo de um cisma a falar mais alto? Cedência às pressões dos seus opositores, consubstanciadas no livro Do Fundo dos Nossos Corações, do cardeal Robert Sarah e Ratzinger/Bento XVI, posto à venda em Portugal precisamente nesta quarta-feira, 12 de Fevereiro? Cansaço das acusações e críticas que o têm atingido? Receio de não querer ficar na história como o Papa que aboliu o celibato obrigatório ao fim de 900 anos?

Seja qual for a razão, é notório que a exortação apostólica Querida Amazónia, do Papa Francisco, divulgada ao final da manhã desta quarta, 12, deixará um sabor amargo em quem alimentara a expectativa de alguma mudança substancial na disciplina católica e na forma como a hierarquia encara a possibilidade de mudanças que tocam os lugares do exercício de poder. E, sobretudo, nas 87 mil pessoas que se envolveram com empenhamento e entusiasmo nos debates e iniciativas preparatórias do sínodo de Outubro último, sobre a Amazónia, que decorreram nos últimos dois anos.

Pelo contrário, quem se tem oposto às opções de Francisco verá o documento como uma vitória – mas isso não será suficiente, porventura, para que deixe de se lhe opor. Na apresentação do documento, o cardeal Michael Czerny, secretário especial do Sínodo para a Amazónia, disse mesmo que a exortação do Papa é um documento de “reconciliação” na Igreja. E acrescentou, citado pela Ecclesia, que há questões que “continuam em aberto”.

Um sinal de uma certa desilusão com que o texto foi recebido na Amazónia está na reacção da Rede Eclesial Pan-Amazónica (Repan) que, ainda segundo a Ecclesia, publicou um comunicado em que convida a ver no texto um “compromisso real de agir em favor da vida, e da vida em abundância, para esta Amazónia e para as gerações futuras em todo o mundo”.

 

1. Quatro sonhos – e a realidade

“Cozinhando” uma Igreja de rosto amazónico. Foto © Firmino Cachada

 

O Papa apresenta o texto arrumado em quatro “sonhos” para a Amazónia: a luta pelos direitos dos mais pobres e dos povos nativos; a preservação da riqueza cultural e humana da região; a guarda da beleza natural da Amazónia; e uma Igreja com “rostos novos” e “traços amazónicos”.

Nos primeiros três capítulos, o Papa não poupa na repetição do que está em causa: injustiça, crime, colonização, culturas ameaçadas, povos em risco, um bioma que grita. Mas é no último capítulo, praticamente metade do texto, que ele acaba por manter fechadas – ou apenas ligeiramente entreabertas – algumas das portas que o Sínodo dos Bispos quis destapar, em Outubro.

É verdade que o documento também não faz qualquer afirmação supostamente dogmática para “encerrar” o assunto, como a que João Paulo II tentou, quando disse que o acesso ao ministério ordenado estava reservado aos homens. Mas também não abre qualquer possibilidade de ordenar homens casados ou de um ministério específico para as mulheres ou, ainda, de um rito litúrgico próprio para a região.

Ou seja, o sonho do Papa em relação à Igreja Católica na Amazónia dá lugar à realidade do que já se vive. E, apesar de fazer apelo à criatividade e audácia, as reflexões não trazem as novidades que se poderiam esperar, apontando apenas duas pistas que podem permitir continuar a abrir caminhos – já se verá quais.

Um rito litúrgico próprio, um ministério específico para as mulheres e a possibilidade de ordenar homens casados eram os três temas que mais mudanças implicavam, segundo o documento final aprovado pelos bispos no sínodo que, em Outubro, reuniu em Roma, precisamente para debater o papel da Igreja Católica na Amazónia.

Estranhamente, aliás, ao contrário do que tem sido habitual, quer com os anteriores papas, quer com os dois sínodos anteriormente realizados com Francisco – sobre a família e sobre os jovens –, o Papa nunca cita o documento de propostas finais dos bispos. Diz que não pretende desenvolver “todas as questões amplamente tratadas” naquele texto, que não pretende “substitui-lo nem repeti-lo” e convida mesmo a “lê-lo integralmente”.

Releia-se, então, esse texto. Nele se encontra precisamente o guião para o que poderiam ser importantes mudanças na Igreja: a inculturação e a possibilidade de um rito litúrgico próprio para a Amazónia, que incorporasse linguagens e culturas indígenas; a hipótese de ordenar homens casados (a proposta do sínodo que teve mais votos contra, 41, com 111 a favor – de qualquer maneira, mais dos dois terços exigidos para a aprovação); o pedido de “caminhos novos” para reconhecer o papel de liderança que as mulheres já têm em muitas comunidades cristãs; o incentivo à participação de todos os fiéis, na sequência de um processo de debate que envolveu mais de 87 mil pessoas nos nove países do bioma amazónico (Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Perú, Suriname, Venezuela e Guiana Francesa); e, finalmente, a atenção à voz dos pobres e dos indígenas, bem como ao “rosto desfigurado” da Amazónia, nos âmbitos ecológico e ambiental, económico e político.

Mais ainda: no encerramento do sínodo, o Papa dizia que quase não seria necessário um novo documento, embora acrescentasse que seria bom haver uma palavra sua sobre “o que viveu” no Sínodo.

 

2. Uma presença “precária” – e como resolver?

O padre Firmino Cachada, espiritano português na Amazónia: são precisos mais missionários, pede o Papa na exortação. Foto: © Firmino Cachada

 

Em alguns pontos, a Querida Amazónia (QA) parece quase querer justificar-se a si mesma, nos seus mão-ditos. No capítulo do celibato, por exemplo, o Papa descreve as razões que determinam “o que é mais específico do sacerdote, aquilo que não se pode delegar”. E diz que a resposta “está no sacramento da Ordem sacra, que o configura a Cristo sacerdote”.

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