AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

Paz e investimento na defesa

| 11/02/2025

 

A paz é, sem dúvida, um dos grandes desígnios da humanidade. As grandes religiões — apesar de terem sido (e serem ainda em algumas latitudes) promotoras de conflito e a violência — bem como os grandes filósofos e humanistas sempre o afirmaram com maior ou menor veemência. Apesar disso, a realização deste sonho no tempo histórico está muito aquém do desejado. Se é verdade que há hoje uma consciência mais apurada quanto à necessidade de implementar universalmente a paz, também não deixa de ser verdade que as guerras e conflitos persistem um pouco por todo o lado. Acresce a esse facto a poderosa tecnologia de guerra que o progresso veio possibilitar. O ser humano não é hoje intrinsecamente mais violento do que foi antes, mas tem seguramente armas de um alcance e eficácia tão elevados, que as consequências devastadoras tomam proporções nunca vistas.

Todos conhecemos as consequências nefastas das guerras e dos conflitos: o aumento exponencial da pobreza, a destruição de infraestruturas essenciais à qualidade da vida humana, a ruína económica (sobretudo a que se dedica à produção de bens de primeira necessidade), a disseminação de doenças e, em última instância, a morte provocada diretamente pelos conflitos armados ou indiretamente pelas consequências atrás mencionadas.

Em 25 de fevereiro de 2022, em Kiev, na Ucrânia, uma rapariga olha para a cratera deixada por uma explosão em frente a um prédio de apartamentos que ficou fortemente danificado durante os ataques militares russos em curso. Foto © UNICEF

Em 25 de fevereiro de 2022, em Kyiv, na Ucrânia, uma rapariga olha para a cratera deixada por uma explosão em frente a um prédio de apartamentos que ficou fortemente danificado durante os ataques militares russos em curso. Foto © UNICEF

Se os benefícios da paz e os efeitos deletérios da guerra são tão evidentes, por que razão insistimos em resolver conflitos e dissensões por meio da violência? Dada a universalidade da violência, tanto do ponto de vista geográfico como do ponto de vista diacrónico, é quase impossível negar que o homo sapiens transporta nos seus recursos mentais e anímicos uma forte pulsão para o uso da violência quando se sente ameaçado ou quando quer tirar proveito de uma dada situação. Tocamos aqui num ponto essencial: as causas da violência estão no interior de cada ser humano e creio poderem resumir-se, no essencial, à autodefesa perante uma ameaça e, sobretudo, à cobiça e à vontade de poder.

Porém, nenhum ser humano está determinado a ser desta ou daquela maneira. Desde que nascemos estamos em construção e esse processo resulta de dois fatores: da educação que recebemos (sobretudo por contacto com os modelos de comportamento junto a quem crescemos) e da liberdade que somos. É por isso que a utopia de uma paz duradoura e universal não é, de modo algum, irrealizável. Se é por demais evidente que a paz comporta benefícios de valor incalculável, todas as sociedades deveriam investir na educação para a paz, não apenas enquanto conteúdo curricular nas escolas, mas principalmente como forma de nos relacionarmos no quotidiano social e familiar. Porém, como pode uma criança aprender a valorizar a paz se assiste permanentemente ao conflito entre os pais ou outros membros da família?

 

A Igreja e a paz

Papa Francisco. Ucrânia. Livro

A luta do papa Francisco pela paz é profundamente meritória e deve interpelar todos os católicos a seguirem as suas pegadas neste caminho árduo. Talvez devêssemos começar pela construção das condições essenciais à paz no pequeno círculo das nossas relações, sobretudo no contexto familiar e profissional. No entanto, seria redutor investir apenas no pequeno círculo das nossas relações privadas. É urgente alargarmos igualmente a nossa intervenção junto de quem nos governa no sentido de as autoridades políticas tudo fazerem para resolver pacificamente os conflitos que sempre hão de existir entre povos, grupos ou indivíduos. Como seria gratificante se os católicos se organizassem em grupos de pressão de modo a influenciarem as políticas nacionais e mundiais no sentido da resolução pacífica dos conflitos! Infelizmente, em Portugal (e talvez em outros países), raramente se assiste a uma mobilização dos católicos nesse sentido. Aliás, raramente os vemos mobilizados publicamente para defenderem o que quer que seja, com exceção das eternas lutas contra o aborto e a eutanásia. Parece que a vida das vítimas inocentes, ceifadas todos os dias por esse mundo fora em conflitos armados, nada têm a dizer à nossa consciência cristã, enquanto nos parece muito mais relevante vocalizar o nosso repúdio indignado pela legalização da eutanásia, ou seja, pela decisão informada de alguém, no pleno uso das suas faculdades, a respeito da sua própria vida!

 

Nacionalismos e governo mundial

 

Provavelmente, não serão dados passos substanciais no sentido de concretizar o sonho da paz universal, sem a existência de um governo mundial com poderes efetivos para resolver conflitos e impor a paz. A partilha do mundo por organizações políticas a que se deu o nome de nações trouxe prejuízos incalculáveis para a humanidade no seu todo. Enquanto olharmos o outro como “diferente”, “não pertencente ao meu grupo”, “estrangeiro”, “imigrante”, acantonando-o numa espécie que nos é estranha, e não como pessoa humana, a paz há de ser uma miragem. É esse entendimento do outro como meu irmão, qualquer que seja a sua proveniência étnica ou nacional, a sua cor de pele, o seu género, a sua religião, etc., que constituirá a pedra angular da edificação da paz e da concórdia. Porém, as nações enquanto feudos que só a alguns pertencem, com fronteiras delimitadas e fortificadas, caminham exatamente em sentido oposto. Pensemos no que foram as guerras na Europa quando as nações eram pequenos universos em busca de poder e em oposição aos demais. Pensemos como se foi esbatendo essa visão unilateral das relações internacionais quando a Comunidade Europeia se foi delineando. Não haverá paz universal sem uma mudança clara de paradigma político e ético, que inclua uma governança universal e um reconhecimento do outro como meu semelhante, ao qual devo atenção.

 

Investimento em defesa?

Armas nucleares; armamento; guerra

“O investimento em armamento é, sem dúvida nenhuma, um desperdício incalculável e o seu contraste com a existência de fome e miséria no mundo clama aos céus.” Foto © Wikimedia Commons / Vitaly V. Kuzmin

No entanto, ao mesmo tempo que advogo a diluição dos estados-nações como espaços fechados ao outro e a implementação de um poder universal, democrático, que zele pelos interesses de todos, no qual todos os povos se sintam representados, não deixo de verificar a necessidade de as nações democráticas, nomeadamente as que constituem o espaço europeu, investirem em armamento e recursos humanos para defesa, no momento em que à sua volta outras nações, governadas por megalómanos e autocratas, estão prontas a devorar-lhes as entranhas. Infelizmente, a Europa não tem, no presente contexto, alternativa. O investimento em armamento é uma inevitabilidade, se quiser manter o seu ideário ético e a sua independência face à violência dos outros. A Rússia imperial de Putin é uma ameaça global. Esse facto incontornável não pode ser afastado das decisões que a Europa tem de tomar a breve trecho.

O investimento em armamento é, sem dúvida nenhuma, um desperdício incalculável e o seu contraste com a existência de fome e miséria no mundo clama aos céus. Porém, enquanto as nações mais poderosas tiverem rédea solta e forem governadas por loucos, não teremos paz efetiva nem alternativas ao investimento na defesa. É necessário não esquecer a força dissuasora do poder armado. Em sentido oposto, uma Europa enfraquecida provoca nos bárbaros do século XXI um substancial incremento da cobiça e da vontade de poder. Consequentemente, o que nos parece ser a melhor solução para implementar a paz, pode revelar-se altamente contraproducente, mergulhando as sociedades no caos e na guerra aos quais se pretendia escapar.

 

Jorge Paulo é católico e professor do ensino básico e secundário.

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

Jesus salva-nos de nós mesmos

[Entre Margens]

Jesus salva-nos de nós mesmos novidade

Uma das mais profundas obras de salvação realizadas por Jesus consiste em libertar-nos não apenas do pecado e da morte, mas também das falsas imagens que construímos acerca de Deus. Muitas vezes, consciente ou inconscientemente, projectamos sobre Deus os nossos medos, inseguranças e formas humanas de exercer o poder. [Texto de Vítor Rafael].

Último desejo de Francisco: os bolinhos da amiga Jacoba

Ano jubilar-800 anos da morte (8)

Último desejo de Francisco: os bolinhos da amiga Jacoba novidade

O Papa Leão XIV proclamou, desde 10 de janeiro e até final deste ano, um ano jubilar assinalando os 800 anos da morte de Francisco de Assis, ocorrida em 3 de outubro de 1226 – a festa litúrgica é assinalada dia 4. Com esse pretexto, o 7MARGENS publica, até final do ano, nos dias 3 ou 4 de cada mês, uma série de dez textos da autoria de frei Isidro Lamelas, da Ordem dos Frades Menores, professor de Teologia. Este é o oitavo texto da série.

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.

Pin It on Pinterest

Share This