O texto a seguir reproduzido tem como base a intervenção “A construção da paz, um nome para a esperança”, feita no dia 20 de Janeiro de 2025 nos Encontros de Santa Isabel (paróquia de Lisboa) sob o título “O júbilo e a esperança”.
Encontro-me um tanto embaraçado por vir falar sobre “A construção da paz, um nome para a esperança”. Terei sido indicado por ter escrito um artigo sobre a paz que foi publicado a meio do ano passado no 7MARGENS.
Na verdade, nele eu pedia não a paz, no sentido de uma qualquer solução concreta, mas uma diplomacia para a paz, tal como não peço a lua, mas um foguetão para ir à lua.
Revendo esse texto, ele não me parece mal, embora contenha uma falha analítica comum à data – a convicção de que as grandes guerras não se ganham militarmente. Pelo que vimos depois, acaba por haver uma parte mais forte, como se viu no Médio Oriente e se está a verificar na Ucrânia, o que é um enorme desafio à ideia da diplomacia para a paz.
De qualquer forma, não creio que esse artigo, com erros ou sem erros, me qualifique para discutir aprofundadamente o tema da paz. Portanto, de mim apenas terão o olhar de um cidadão com medo e de um cristão angustiado, como aliás já referia nesse artigo. Por isso, peço que sejam caridosos.
Além disso, devo antecipadamente confessar que sou um pessimista estrutural, pelo que neste momento sinto apreciáveis dificuldades em conjugar paz e esperança na mesma frase.
Ponto de partida: “os sinais dos tempos”

Rui Valério, Patriarca de Lisboa, no 2º Encontro de de Santa Isabel 2025. Foto © Site da Paróquia de Santa Isabel
Eu fui educado na fé pelos meus pais, pela catequese tradicional, mas sobretudo e de modo decisivo pela velha Acção Católica e a sua metodologia de Ver, Julgar e Agir. Isso tem-me guiado toda a vida, e é também com ela que procurarei orientar esta intervenção aqui convosco.
Antes que alguém me peça para identificar os sinais dos tempos, como antes foi feito ao nosso Patriarca, aqui vai a minha leitura.
Devo dizer que apreciei muito a sua intervenção, mas terei de discordar dele em dois pontos.
O primeiro é que, infelizmente, não vislumbro nenhum indicador, pelo menos significativo, de procura de espiritualidade nas sociedades actuais. Pelo contrário, vejo antes um “tecno-autismo”, expressão roubada a um artigo lido na semana passada, que me parece funcionar como um bloqueador emocional e, portanto, tendencialmente inibidor da espiritualidade.
O segundo é que – sim, tal como Rui Valério afirmou – há um mundo novo em configuração; todavia, eu não identifico nesse processo nenhuma dialéctica de forças contraditórias (usando a sua própria expressão), pelo menos forças expressivas ou com significado. Terrivelmente, o mundo parece deslizar num único sentido.
Existe uma disciplina – que se lamenta ser quase ignorada em Portugal – que é a análise prospectiva. Ela usa o método de construção de cenários visando o planeamento estratégico dos futuros (de organizações, de países) em horizontes temporais alargados de 10 a 30 anos. Nela fala-se simbolicamente de túneis de vento e das tendências que correm dentro deles. As chamadas tendências pesadas, que são as que influenciam mais decisivamente os futuros, parecem ir todas no mesmo sentido, sugerindo que nos encontramos num quadro político se não igual, demasiado parecido, com os anos 20 do século passado em Itália, e os anos 30 na Alemanha. E, tal como então, estamos a assistir com uma passividade bovina e exasperante à emergência de proto-fascismos que se apresentam com morfologias variadas. Desvalorizamos o mal, viveremos com o mal.
A expressão fascismo tem sido vulgarizada como um insulto estúpido e fácil. Mas quero dizer que estou hoje e aqui a usá-la conscientemente, como um conceito operativo impróprio, mas que é, à falta de melhor, o mais compreensível e próximo daquilo que se quer representar. O que está a germinar ainda não há um nome próprio.
Estes novos proto-fascismos já não marcham, pelo menos necessariamente, de preto ou castanho e botas cardadas ao som de bandas militares. São modernos, coloridos, até alegres, cheerful, andam ao ritmo dos tiktoks que alienam e que, sobretudo, incapacitam as massas.
São novas expressões de velhas tendências que pretendem instaurar já não uma ordem nacionalista em cada Estado, mas antes uma ordem mundial no mínimo autoritária, preferencialmente ditatorial, que por definição inclui abuso, crueldade, sofrimento e guerra. Pretende isso, naturalmente, sem esse incómodo que é a democracia (parlamentar, liberal, participativa) que, apesar da imperfeição que experimentamos diariamente, é o mais sólido garante da liberdade, de alguma justiça, da dignidade das pessoas e da disseminação dos direitos humanos.

Colagem de fotos do 1º de Maio 1974, em Lisboa, sobre cartaz com a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Foto © António José Paulino
Voltando à análise prospectiva, sabemos também que na cenarização dos futuros, ela contempla a ideia do impensável (diz-se: “pensar o impensável”) e do imprevisível (combinação inesperada de factores, catástrofes naturais, disrupção tecnológica – que é um vector cada vez mais provável atendendo à evolução da inteligência artificial). Esse imprevisível-impensável tanto pode inviabilizar ou modificar estes proto-fascismos, como pode acelerá-los e cristalizá-los. Por outro lado, também pode ser verdade que a aceleração do tempo dada pelo frenesim tecnológico pode levar a que os ciclos ocorram muito mais depressa que no passado, embora nada nos garanta que o ciclo seguinte seja mais favorável.
Mencionei os direitos humanos. Eles deveriam ser um tema da maior relevância para os cristãos! Atrevo-me a pedir-vos o favor de relerem a carta dos direitos humanos, agora com os óculos de cristãos. Acredito que verão que o seu conteúdo é a matriz da nossa civilização – certo! – mas que é também a melhor expressão laica da mensagem evangélica de Nosso Senhor, a melhor transposição possível dos valores cristãos para um documento que é inspirador do direito internacional.
Ora isto é uma coisa fantástica!, é uma verdadeira conquista da cristandade, sem espadas, que eventualmente nós não valorizamos devidamente.
Se perdermos a democracia, perderemos os direitos humanos e a utopia da dignidade humana. António Damásio alertava-nos para que a empatia, um elemento decisivo da/de humanidade, só atingiu expressão civilizacional quando pode desenvolver-se dentro de um contexto mais favorável. A empatia, causa e efeito de uma relação saudável com o outro e o diferente, é um ganho do nosso tempo.
Agora, deixem-me que pergunte: e a nossa fé, o que nos diz a nossa fé – e a nossa consciência cívica – neste processo? Estamos dispostos a perder a democracia, a liberdade, precisamente as condições que favorecem a empatia? Queremos mesmo viver numa sociedade alternativa definida pela lei da força e não pela força da lei, como dizia o ministro dos Negócios Estrangeiros francês há uns dias?
Uma segunda tendência no túnel de vento – ou talvez seja um enorme remoinho de custosa definição – é que as democracias e os democratas não estão a perceber como resistir aos vectores de mudança porque eles são muito complexos e sobretudo extraordinariamente novos, diferentes de toda a codificação social actual aos níveis cultural, ideológico, conceptual. Actuam na erosão das ideias de moralidade, da ética, da verdade e dos valores, portanto, também nos sentimentos e emoções. Estamos a viver uma enorme transformação moldada por novos instrumentos e linguagens de programação de comportamentos que aponta para sociedades distópicas que prescindem dos incómodos da democracia (já o dissemos) mas também das ciências, da factologia, da racionalidade, da participação real e consciente das pessoas. São, portanto, regimes putativamente opressores.
Para este processo concorre ainda um velho elemento bem conhecido dos cristãos, maxime dos católicos, que agora surge de modo muito agressivo: a captura das religiões para finalidades políticas. Neste particular, preocupa-me a passividade dos cristãos, ou pior, a sua colaboração no processo. Por exemplo, 42% dos católicos praticantes franceses votaram na extrema-direita. 42%!
As minhas tensões

Nuno Caiado no 3º Encontro de de Santa Isabel 2025. Foto © Site da Paróquia de Santa Isabel
Posto isto, expressaria a seguir três ideias, entre perplexidades e sugestões.
Primeira: o meu eu cristão e o meu eu social, duas entidades internas que eu me esforço por fazer coincidir, aderem facilmente aos mesmos valores e princípios abstractos da paz. Mas confesso que ambos ficam desorientados e um pouco dissonantes sobre como aplicá-los no plano da realidade. Por exemplo: é possível responder à guerra com a paz? Num grande conflito como na Ucrânia podemos (ou ainda mais atrevido: devemos?) dar a outra face?
E como se estas interrogações não fossem suficientes, vem Francisco, um Papa tramado que está sempre a desinquietar-nos, colocar-nos perante uma nova ideia extremamente desafiante: não há guerras justas (pergunto-me como lidariam João XXIII e Paulo VI com esta ideia) porque todas as guerras são más e um ultraje a Deus.
Imediatamente o meu eu cristão vibra e concorda. O meu eu social hesita e responde: em 1940, como teria sido se não tivesse havido uma resposta à avalanche nazi-fascista?
Na minha simplicidade, esta tensão parece-me irresolúvel e é uma grande fonte de enorme angústia. Em condições extremas, como ser fiel a Deus e ser sempre pela paz?
Segunda: guerra e paz são um binómio indissociável, não têm existência autónoma.
Sobre a guerra, eu diria que a história, as ciências e as artes testemunham-na com muita exuberância. Sabemos que Jesus não morreu de morte natural (creio que era o padre Alberto Neto, que aliás viria a ser assassinado, que nos lembrava isso), sabemos que a história da humanidade é violenta, que a nossa Europa foi esculpida com guerras quase ininterruptas, o Patriarca relembrava que desde há quatro mil anos que não cessam a violência no Médio Oriente (parece não haver página do livro Jerusalém de Simon Sebag Montefiori que não fale de guerras e assassínios), a nossa Igreja foi violenta (Cruzadas, Inquisição). O Homo Sapiens é violento, todos os seres humanos contêm violência (o que me faz pensar que os verdadeiros santos não são os que improvavelmente curam doenças e falam aos peixes, mas os que sabem anular a violência nas suas vidas).
Portanto, isto quer dizer que a guerra não é uma anomalia na história, faz parte dela – como um grande pecado. Na verdade, a guerra é expressão mais radical, trágica e monstruosa da violência humana, porque é colectiva, armada e propositadamente organizada para causar o maior sofrimento possível ao outro.
No entanto, se a guerra é uma inevitabilidade como conceito, como cidadãos e sobretudo como cristãos temos o dever de tentar evitá-la como pecado, ou seja, nas suas manifestações concretas. Temos de reduzir as possibilidades da guerra e falar mais da paz, agir para a paz.
E então, sobre a paz: que paz? Decididamente: a paz plena e justa, de respeito mútuo entre povos e governos, que seja mais que a mera ausência de guerra. Mas há sempre uma inquietação que vem da realidade: se não tivermos esta paz ampla, deveremos contentar-nos com a ausência da guerra?
O que fazer, como fazer?

“Pragmaticamente, exigir uma diplomacia pela paz. Ora esta exigência tem de ser activa e não se pode ser feita isoladamente. Só faz sentido ser feita através de grandes movimentos colectivos, o que pressupõe lideranças (que eu gostaria que estivessem na Conferência Episcopal que, pelos vistos, continua firmemente incólume aos desafios da contemporaneidade).” Foto: Pormenor de cartaz de vigília de oração pela paz, Externato da Luz.
Aqui entra a terceira ideia: como católicos, o que fazemos com o que o padre José Manuel Pereira de Almeida [da paróquia de Santa Isabel] nos encomenda no fim da missa: Ide em paz – o que é da norma – construí a paz – que é o seu toque pessoal – … e que o Senhor vos acompanhe.
Ora, para um cristão, Ide em paz não é uma recomendação, é uma injunção, uma obrigação. O que fazemos com esta obrigação? O nosso Ptriarca pedia-nos há uma semana para sermos empenhados artesãos na construção da paz no nosso quotidiano, com quem tocamos no dia a dia. Digo eu, a família, os colegas, os amigos, os adversários políticos ou desportivos, os que nos servem, os que servimos, o rapaz das entregas, o tipo da Uber, a caixa do supermercado, a senhora da farmácia, a operadora do call center. Isso tudo é certo, bom e indispensável; mas para o efeito que discutimos, tem um problema insuperável: é que não tem impacto nenhum em quem decide a guerra e a paz.
Esta nossa pequenez e impotência são dilacerantes. Neste contexto, a minha questão é como saltar do nível rasteiro das nossas existências para a política internacional?
Para esta interrogação, encontro uma única resposta: apoiar activamente as duas únicas pessoas que no mundo falam e apelam à paz, o Papa Francisco e o Secretário-Geral da ONU Guterres, por acaso um português e católico.
Como me dizia a minha mulher há dias, é preciso que ambos continuem a enunciar os princípios, mesmo que estes não adiram imediatamente à realidade, porque sem princípios fica tudo pragmatismo, perdemos o norte.
Então, apoiá-los como? Eu diria que é necessário articular os princípios com uma estratégia realista.
Com os princípios, todos os dias: rezar, inundar corações e mentalidades, moldar uma cultura moral, cívica e política favorável à paz e contra o pecado da guerra.
Pragmaticamente, exigir uma diplomacia pela paz. Ora esta exigência tem de ser activa e não se pode ser feita isoladamente. Só faz sentido ser feita através de grandes movimentos colectivos, o que pressupõe lideranças (que eu gostaria que estivessem na Conferência Episcopal que, pelos vistos, continua firmemente incólume aos desafios da contemporaneidade). Essas lideranças teriam de militar na procura de alianças, de cooperação, de disponibilidades aos níveis nacional e internacional.
Esse era precisamente o desafio que tentei lançar no tal artigo no 7MARGENS, criar um sobressalto pela paz que começasse pelos cristãos. Enviei o artigo a todos os bispos titulares e à CEP, mas dos nossos bispos apenas recebi o silêncio habitual.
De novo peço que atentem que a minha ideia não era ingenuamente pedir a paz, era antes tentar pressionar os políticos a apoiar Francisco e Guterres e a incluir convictamente a dimensão da diplomacia para a paz nas suas palavras e actos.
No fim do artigo no 7MARGENS imaginei até uma lista de possíveis iniciativas. Ainda alguma será viável? Os nossos bispos não quererão chegar-se à frente?










