
Neste número triplo da revista Reflexão Cristã (2022-2024), sob a direção de João Miguel Almeida, publicam-se textos das Conferências de Maio de 2022, 2023 e 2024, respetivamente, sobre os temas “Construir uma Paz duradoura é possível”, “Fé cristã, profecia e cidadania” e “Organizar a Esperança” e de outras conferências promovidas.
Relativamente ao tema “construir a paz”, inspirado nas reflexões do Papa Francisco na encíclica Fratelli Tutti sobre a arquitetura e o artesanato da paz, publicam-se reflexões de Teresa Vasconcelos, Luís Lobo Xavier, Luís Moita e Luís Filipe Castro Mendes, que se revestem de grande atualidade.
Teresa Vasconcelos, na linha de Maria de Lourdes Pintasilgo, desenvolve os conceitos de arquitetura e artesanato da paz no contexto da educação.
Luís Lobo Xavier interpela-nos para a necessidade de termos presente a necessidade de assegurar a justiça intergeracional integrando a preocupação com as gerações futuras nos processos de tomada de decisão de desenho das políticas públicas.
O texto de Luís Moita é um autêntico testamento moral e intelectual de quem tanto estudou e pensou sobre a guerra e a paz e pode servir de inspiração para analisar guerras como a da Ucrânia: A história confirmará que as guerras já não se ganham? Depois de o ler, podemos continuar sem pensar nem agir quando, mesmo entre nós, se pretendem fazer das indústrias ditas de defesa uma alavanca do desenvolvimento industrial?
Luís Castro Mendes, diplomata e poeta, afirmando-se não crente, tem reflexões de grande sabedoria sobre os desafios que enfrentamos, as raízes da violência, as dificuldades de institucionalização de um processo de paz à escala mundial, e interroga a narrativa da Redenção.
As Conferências de Maio de 2023 procuraram recordar e transmitir às novas gerações o legado profético de quatro católicos que, de diferentes formas, deram testemunho da sua fé cristã como cidadãs e cidadãos exemplares: Aristides de Sousa Mendes, Manuela Silva, Alfredo Bruto da Costa, Maria de Lourdes Pintasilgo.
Fernando Gomes da Silva, sócio fundador do CRC, evoca a vida profética de Manuela Silva, “uma figura ímpar na Igreja de Cristo no seu tempo e no seu modo”, mas também uma cidadã que “jamais recusou a sua participação cívica.”
É também inspiradora a leitura que frei Filipe Rodrigues, O.P., faz da estrutura ética de Aristides de Sousa Mendes, da sua vida justa, do ato heroico de procurar salvar todos os que a ele recorreram sem olhar a nacionalidade, raça ou religião, por fidelidade à sua consciência cristã, desobedecendo às ordens em contrário, com sacrifício pessoal e familiar.
Num país em que forças populistas procuram desenvolver a xenofobia, o racismo, a insensibilidade perante os dramas dos refugiados, o seu legado deve inspirar os nossos atos. Outros textos serão decerto publicados nos próximos números.
São ainda publicados outros dois artigos que têm a ver com a fé cristã, profecia e cidadania: um do padre Nélio Pita, da Congregação da Missão, sobre Dorothy Day, Uma Arriscada Caridade; outro de Nuno Teotónio Pereira, ainda não publicado em papel, sobre as relações dos católicos com o salazarismo e o caso da ocupação da Capela do Rato.

“Dorothy Day, a quem a Igreja reconhece qualidades de uma Serva de Deus…” Dorothy Day, February 1968, Milwaukee Journal Photo. Foto cedida por Department of Special Collections and University Archives, Marquette University Libraries
Dorothy Day, a quem a Igreja reconhece qualidades de uma Serva de Deus, que foi jornalista de jornais socialistas e anarquistas, sufragista, escritora, pacifista, criadora do jornal e movimento Catholic Worker, uma cristã de prática religiosa intensa, cujo legado nos continua a inspirar.
O texto de Nuno Teotónio Pereira é uma reflexão à luz da ocupação da Capela do Rato sobre os caminhos percorridos pelos católicos que foram rejeitando o salazarismo, marcada pela interrogação porque tão tarde se verificou a ocupação da Capela do Rato e a rejeição do poder colonial-fascista por parte dos católicos.
Mas neste número há também lugar para a confissão, o arrependimento e o perdão. É pena que não se tenha podido contar com a intervenção de uma não-cristã, mas profundamente conhecedora do catolicismo, Carmo Afonso, cujo texto Sejam bem-vindos ao Parque do Perdão, publicado no Público (03 de Março de 2023), desencadeou estas reflexões, que naturalmente, abordaram muitas outras dimensões.
O Poder de Perdoar, do padre José Manuel Pereira de Almeida, foi a introdução à reflexão, enriquecida com a reflexão da teóloga Sónia Monteiro sobre De que nos arrependemos? Arrependimento e perdão na atualidade. Eleanora Lampreia, engenheira civil, dá um contributo de uma grande frescura sobre a matéria elegível para a confissão e sobre o confessar para quê?
Para além de um texto da minha autoria para recordar a Salette Tavares (1922-1994), poetisa, ensaísta, educadora, artista plástica, e a sua colaboração com o CRC, a maioria dos textos publicados tiveram como base as intervenções realizadas nas Conferências de Maio 2024 sobre Organizar a Esperança.
Estas conferências tiveram uma singularidade: a última, que reuniu a poeta chilena Carmen Yáñez, a teóloga brasileira Maria Clara Bingemer, a Sor Magdalena Herrera, Filha da Caridade, espanhola, teve lugar por vídeo-conferência e cruzou intervenções em português e espanhol. São textos com uma grande força, que brotam da vida vivida. Carmen Yáñez inicia o seu texto Hablemos de esperanza com um belo poema que começa assim “Qué es esperanza?/Se come Sì./ Se bebe? Sí?”. É um texto de uma enorme beleza e capacidade de inspiração.
O texto da teóloga brasileira Maria Clara Bingemer vive entre dois abris: o 1 de abril de 1964, data do golpe militar, que começou por ser bem recebido por amplos setores do catolicismo brasileiro, antes de o Brasil se tornar o país onde a teologia da libertação e as comunidades cristãs de base se converterem na inspiração da resistência à brutalidade da repressão e das torturas e de construção de projetos de futuro; e o 25 de abril de 1974, libertador, que teve grande repercussão no Brasil. Maria Clara Bingemer mostra através da evolução da letra das canções de Chico Buarque de Holanda como foram sentidas no Brasil as diferentes fases da revolução portuguesa. E partilha connosco como foi evoluindo o seu pensamento e como descobriu a sua vocação de teóloga. Nunca esquecer que para organizar a esperança “(…) há que começar sempre por baixo para que todos sejam incluídos na esperança”.
O texto Converter o Desespero Em Esperança, de Sor Madre Magdalena Herrera, tocou-me profundamente e ajuda a perceber a ação de muitas freiras junto a doentes terminais, designadamente com sida. Estou certo que a ele voltarei muitas vezes. A partilha da experiência que teve com o doente Ambrosio e a consciência de que “(…) yo no estaba amando com mi próprio amor, era el amor de Dios que pasaba por mi para poder llegar a él…”.
Muito interessante é o texto sereno de Ricardo Saldanha, A Inteligência Artificial Como Oportunidade que tem em conta a atenção que o Papa Francisco tem dado ao desenvolvimento da IA.

“A escritora angolana Ana Paula Tavares oferece-nos uma reflexão sobre o futuro, num contexto pós-colonial, em que novas ameaças nos atingem e em linha com Italo Calvino pede ao futuro que não se deixe desalojar.” Foto © Site do Centro Cultural Português Camões/Berlim
A grande escritora angolana Ana Paula Tavares oferece-nos uma reflexão sobre o futuro, num contexto pós-colonial, em que novas ameaças nos atingem e em linha com Italo Calvino pede ao futuro que não se deixe desalojar.
De Cristina Sá Carvalho é publicado um notável ensaio, construído a partir de uma leitura continuada das intervenções do Papa Francisco, que aborda questões de grande atualidade, a propósito de organizar a esperança, como: os tempos do ceticismo democrático e os profetas do futuro ou para mudar as estruturas injustas: a misericórdia que cultiva a fraternidade reinventada. Recomendo a todos não se fiquem por este ensaio, leiam tudo o que sobre o pensamento do Papa Francisco tem publicado Cristina Sá Carvalho.
Não deixem de o ler. Este número tem textos que continuarão a ser inspiradores e a ser procurados no futuro.
José Leitão é advogado e foi deputado e presidente do CRC.










