
“Mulher, mãe, vítima de violência anos a fio, reclusa. Quem quis saber de ti?” Foto © Firehorse.
Ninguém vai contar a tua história, Joana. Vi o telejornal da primeira à última notícia e nem uma palavra sobre ti. Sejamos sinceros, nem viva se interessaram por ti, quanto mais agora. Só mais uma vítima de violência doméstica, espancada, humilhada e violada pelo companheiro, com os filhos constantemente a assistir, convenhamos, já não é notícia.
Viveste sempre privada de tudo: de amor, de respeito, de afeto, de compreensão e agora também de liberdade.
“Nem pelos meus filhos fui capaz de o deixar.” Não te massacres com essa culpa agora, Joana, eles estão bem entregues onde cuidarão deles e nada lhes faltará até ao dia em que saias daqui e consigas refazer a tua vida. Abusada e maltratada pelo pai dos teus filhos, o homem que só devia proteger-vos, acarinhar-vos, amar-vos. “Ele dizia que eu não valia nada.” Sabes que isso é mentira, não sabes, Joana? Olha para mim, ouves-me? Isso é mentira. E tu encolhias os ombros.
Olhavas sempre para o chão, como se te tivesse sido tirado o direito de andar de cabeça erguida. Entravas na nossa capela de olhar cabisbaixo e choravas. Punhas-te num cantinho e durante toda a missa choravas. Fui ter contigo naquele primeiro dia e percebi logo o quanto sofrias profundamente. Agora os clínicos vão medicar-te e aos poucos vais começando a sentir-te melhor, acredita.
E de semana para semana as tuas lágrimas que inicialmente me deixavam o rosto molhado quando te dava dois beijinhos, começaram a secar. Não creio que o teu sofrimento tivesse diminuído, e a prova está à vista, mas estava anestesiado e por isso parecia menor. Até já conseguia adivinhar-te um sorriso algumas vezes. Como te sentes hoje, melhor? E o teu olhar vazio, como se passasse através de mim respondia “Acho que sim.” Mas não.
Soube agora que há um mês tinhas tentado pôr fim à tua dor atando um cinto ao pescoço mas porque era fraco, rebentou. A vergonha daquilo em que te transformaste, em que te transformaram, não te deixava vislumbrar um futuro menos escuro. Nem pelos teus filhos estavas a conseguir reerguer-te.
Vinhas sempre com frio. Mesmo no verão vinhas com camisola e blusão. “Tens frio, Joana?” Abanavas com a cabeça a dizer que sim. Mas acho que era só um conforto, uma forma de te sentires mais protegida. Também podias ter estado mais segura se te tivessem posto numa camarata com as tuas colegas mas continuaste sozinha na tua cela. Com tantas horas a seguir a tantas horas para reviver tudo o que passaste, tudo o que terias ainda que passar. Foi demais! O fio da televisão apareceu-te como uma solução para tudo. Decidiram sempre tudo por mim, fizeram o que quiseram com a minha vida, hoje decido eu.
A tua colega da cela ao lado ouviu os teus pés baterem contra a parede e percebeu o que estaria a acontecer. Gritou pela guarda mas quando abriram o ferrolho, já o teu calvário terminara. Expiraste.
Penso no que não fui capaz de te dizer, na força que não tive a capacidade de te transmitir, na tua angústia que não consegui aliviar. Abraçava-te longamente e nas últimas vezes, sorrias. Pensei que estavas a renascer. Escolheste não.
Nunca esquecerei o teu olhar baço, as tuas longas lágrimas, o teu sorriso tímido.
Não sofres mais agora, Joana, e eu contarei sempre a tua história que não interessa a ninguém. Mulher, mãe, vítima de violência anos a fio, reclusa. Quem quis saber de ti?
(Aconteceu há dias. Joana é um nome fictício, mas a história é totalmente real.)
Lígia Pires é visitadora nos estabelecimentos prisionais de Custóias, Santa Cruz do Bispo e Polícia Judiciária/Porto.










