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Susana Braguês

[Margem 8]

Quase reprovei a latim

| 03/04/2023

Susana Braguês

Ilustração © Aquarela original de Susana Braguês para esta publicação.

 

Foi mesmo por pouco e ainda há quem lembre momentos tão hilariantes como aquele em que respondi ao professor que me perguntava, apontando o quadro, “O que está mal nesta frase?”, com um titubeante “Acho que deve ser os acentos, que faltam…” A sala deu uma gargalhada, o professor descompôs-se de riso também, e eu era o único que estava sem entender porquê. Afinal, para meu espanto, o latim não tinha acentos. Onde já se viu?

Mas o que mais gravei foi um exercício de tradução que me saiu tão bem e fluido. O texto, em latim clássico, era de um daqueles luminares que se usam nessas coisas, algum primo do Cícero ou cunhado do Séneca que não recordo. Li o título do texto, passei-lhe os olhos, e peguei no meu dicionário como se fosse uma lâmina para entrar a desbravar mato. Lembro-me que a primeira palavra apresentava vários significados. “Vida” era o primeiro deles, mas apareciam também “ajuntamento, tenda, convívio”, coisas destas. A outra palavra do título, pesquisada nas folhas fininhas do meu dicionário latim-português, apresentava traduções como “alegria, teatro, festa, palco, representação, mímica”, por aqui.

E eu apresentei-me nesse dia às artes de acomodar tradução e escrita criativa. Escrevi, seguríssimo, no topo da minha folha de exame da faculdade, a tradução do título: “Acampar é Divertido”. Que feliz! Que feliz eu estava, finalmente um quase-latinista. Fui texto adentro, cada frase me entusiasmava mais. Sempre que aparecia aquela palavrinha primeira do título (e era muitas vezes), eu traduzia por “acampar”, “acampamento” ou alguma declinação disso. Da mesma maneira, sempre que aparecia no texto a segunda palavrinha, lá me espraiava em “divertido”, “alegre”, “jubiloso”, “exultante”…

Terminei a minha tradução como quem acrescenta um canto a’Os Lusíadas. O melhor, por sinal. Entreguei a folha de exame com a luminosidade e pose de quem chega à ponta de uma passerelle.

Quando chegou a correcção, uma banhada. Então não é que o tal primo do Catulo ou lá quem era, em vez de ter escrito um texto ameno e bem humorado com o título “Acampar é Divertido”, tinha em vez disso escrito um texto contundente e polémico com o título “A Vida é um Palco”?! Não só o título era esse, como todo o desenvolvimento que lhe segue é sobre a farsa do quotidiano, as charadas, os papéis que desempenhamos de acordo com as necessidades e apertos, as máscaras que vamos trocando. Eu juro que não vi nada disto, e fiquei quase ofendido com a desfeita que o texto me fez, não me avisando enquanto eu placidamente o traduzia como se fosse um elogio ao escutismo do séc. I no Império Romano.

O problema foi o ponto-de-partida, claro. Peguei mal no princípio, ao traduzir o título, e depois isso serviu-me de chave-de-leitura para tudo. É claro que há outras explicações mais profundas (e certas), mas para os meus pobres conhecimentos de latim na altura, essa explicação é a mais honesta.

Lembrei-me disto nestes dias em que andamos a pensar sobre o que vivemos no pós-relatório da Comissão Independente para o Estudo sobre Abusos Sexuais. Sinto que aqui por dentro da Igreja – em que me situo, claro – os pontos de partida estão quase sempre errados. E os pontos de partida, como no meu exame de latim, vão ser a chave-de-leitura para traduzirmos coisas mais sérias: no caso, para traduzirmos a verdade e a conversão em idioma de realidade. Se o ponto de partida é a sacralização da estrutura ou da condição de privilégio, a chave-de-leitura vai ser a auto-protecção. Se o ponto de partida é a arrogância moral e o auto-convencimento de impunidade, a chave-de-leitura vai ser a desculpabilização e a tentativa de descredibilizar a Comissão. Se o ponto de partida é dar aos jornalistas o que eles querem para que nos deixem em paz, a chave-de-leitura vai ignorar realmente as vítimas e o que elas precisam para que, talvez, possam ter mais paz.

Há duas semanas dei por mim num estranho início de conversa sobre estas coisas por causa de um artigo de opinião. Alguém tinha escrito um texto sobre a conferência de imprensa dos bispos, com o título a letras gordas: “Deceção”. Uma pessoa ao meu lado, numa comunidade religiosa, estava a ler e quis comentar comigo. Estendeu-me a página do jornal, para eu olhar, e diz: “Não posso com isto, a sério. Não há maneira de me dizerem que isto faz sentido.” E eu comecei também a comentar o que tinha achado da conferência de imprensa, para ser logo interrompido: “Não é isso, é o acordo ortográfico. Não é deceção, mas decepção!” E por aí ficámos, eu não tinha mais nada a dizer.

Quando não é o que está realmente no centro da questão aquilo que mais nos perturba, estamos condenados à irrelevância. Talvez, para uma qualquer coisa pascal, seja a morte necessária. E merecida.

 

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