O Presidente de Timor-Leste e Nobel da Paz, José Ramos-Horta, lançou um “grito de desespero” pela atual situação que se vive na Faixa de Gaza, não hesitando em falar de “um holocausto do século XXI”, vivido pelo povo palestiniano às mãos de Netanyahu e outros líderes de Israel.
Numa comunicação em inglês, divulgada no canal de YouTube da Presidência da República timorense, Ramos-Horta, foi veemente nas palavras: “Isto não é o Holocausto judeu perpetrado pela Alemanha nazi durante a Segunda Guerra Mundial e na Europa ocupada, que dizimou milhões de judeus. Este é um holocausto do século XXI. O holocausto do povo palestiniano, dos árabes, dos muçulmanos. Perpetrado por Israel, uma criação do pós-Segunda Guerra Mundial, uma criação dos europeus para encontrar um lar para os judeus perseguidos.”
Para o Presidente timorense, “este é um holocausto palestiniano perpetrado por Netanyahu e outros líderes de Israel, o recém-criado [Estado de] Israel do pós-Segunda Segunda Guerra Mundial, indiciado pelo Tribunal Penal Internacional, um genocídio que é condenado por pessoas em todo o mundo”.
Este genocídio, acrescentou Ramos-Horta, “está a acontecer em plena luz do dia há muitos meses, e, no entanto, as democracias ocidentais que tanto pregam os direitos humanos” parecem não querer ver o que se passa no território palestiniano ocupado.
O líder timorense lembrou que a “democracia ocidental que criou o Tribunal Penal Internacional e à qual o meu país aderiu, assinou e ratificou no primeiro dia em que foi criado — porque acreditamos na doutrina ocidental contra o genocídio, contra crimes de guerra, crimes graves”.
Ramos-Horta apontou o facto de o ataque do Hamas, a 7 de outubro de 2023, não ter sido “um incidente isolado”, uma vez que aquele movimento islamista atacou Israel “muitas vezes antes”. “Mas foi primeira vez que um ataque em tão grande escala aconteceu”, admitiu, sem deixar de afirmar que o mesmo teve lugar “após 70 anos de literal encarceramento de todo um povo na maior prisão a céu aberto do mundo, Gaza”. “Setenta anos de traição e negação do direito do povo palestiniano a viver com dignidade e segurança, [70 anos de] falsas promessas, do Acordo de Oslo e do Acordo de Camp David [e das] declarações da Assembleia Geral da ONU”, acrescentou.
Ramos-Horta apontou ainda o facto de os colonatos terem continuado a expandir-se nestes 70 anos, argumentando que “Israel apoiou o Hamas porque acreditava que, com o Hamas, a solução de dois Estados seria negada devido ao extremismo do Hamas”.
No mesmo discurso, o Presidente timorense lançou “um grito de desespero”, dirigido em concreto aos israelitas: “Como podemos nós, seres humanos, como podem os sobreviventes do Holocausto judeu, Israel, vocês, o vosso povo, ter sobrevivido ao Holocausto, os vossos avós, os vossos pais sobreviveram ao Holocausto. Vocês têm os palestinianos a viver mesmo ao vosso lado. Ao vosso lado. Vocês viram a expulsão destas pessoas, a humilhação destas pessoas que são os vossos vizinhos e cuja terra vocês desapropriaram”, completou.
“E vocês, Europa?”, dirigiu-se Ramos-Horta à União Europeia, lembrando que propôs a organização para o Prémio Nobel da Paz em 2008, 2009, e que foi atribuído em 2012 — “por mais de seis décadas contribuiu para o avanço da paz e reconciliação, democracia e direitos humanos na Europa”, afirmou então o Comité do Nobel. Onde está essa Europa.
O Presidente timorense acredita “na União Europeia, nos nossos valores comuns de humanidade, de justiça, de democracia”, mas os 27 países “continuam a fornecer armas a Israel e não conseguem chegar a um acordo” entre todos os Estados-membros “para impor sanções a Israel”. “Sanções que vocês impõem tão facilmente a países do terceiro mundo por infrações menores”, acusou.
Na parte final da sua comunicação, Ramos-Horta afirmou-se “completamente desiludido” com as lideranças mundiais. “Desculpem-me. Estou completamente desiludido. Estamos a lidar com crianças, com mulheres, com idosos. Estamos a lidar com seres humanos. Como é que cada um de nós pode sequer manter relações diplomáticas com Israel, quanto mais relações comerciais ativas e quanto mais a imoralidade de continuar a financiar Israel, financiar a guerra? Lamento.”

Papa Francisco e Ramos Horta no encontro com as autoridades em Dili, Timor-Leste, a 9 de setembro de 2024. Foto Vatican Media
“Sou o Presidente de Timor-Leste, e estou preparado para assumir quaisquer consequências pela minha audácia. Isto não é audácia nenhuma. Isto é um grito de desespero que eu partilho. Quando me encontrei com o Papa Francisco em janeiro de 2024 em Roma, antes de visitar o meu país, eu disse ao Papa Francisco, olhando-o nos olhos, ‘Sua Santidade, estou tão desiludido com a liderança mundial, com a liderança global’”. E rematou: “O que está a acontecer com Gaza? O que está a acontecer com os palestinianos? O que está a acontecer com o mundo que os está a ignorar?”










