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autores - Marijke de Koning

[Entre Margens]

Sair do silêncio? O deserto promete

| 17/07/2026

 

“O deserto floresceu, tão repentinamente quanto exuberantemente – vimos com os nossos próprios olhos.
O que Isaías descreveu como uma visão é uma possibilidade escondida na realidade”.
Hans Opschoor

 Como sair do silêncio?

 

Escrevendo. Também. Mas não só. Claro.

Tinha pensado escrever, mas caí num silêncio. Será que vou conseguir sair do silêncio do meu deserto? Talvez.

De repente, no dia 9 de Junho, recomecei. Abri o computador e passei pelos documentos Word com textos iniciados durante o mês de Maio, mas “congelados”.

Ao escrever este texto, senti tocar um alarme na minha cabeça: “já falaste disto”. E voltei ao já publicado para verificar o grau de uma demasiada repetitividade, dando-me conta de que o tema do fim da vida é central em mim. Esta temática esteve sempre presente, desde muito cedo. Lembro-me de um sacerdote, docente de religião e moral na escola de enfermagem onde eu estava a tirar um curso, dizer-me: “A menina é demasiado nova para estar tão centrada na questão da morte”.

Depois de me ter instalado no meu novo espaço na Holanda, voltei no dia 30 de Abril para Portugal. Maio e Junho em Lisboa, um tempo para começar a arrumar materiais e livros.

Por razões diversas, estes meses transformaram-se, para mim, num deserto, apesar de encontros com amigas e amigos. Fui aguentando o deserto, dar-lhe tempo para que pudesse começar a florir. É que logo à chegada a Lisboa, tive de enfrentar a morte de duas pessoas amigas.

Com uma delas participei no Terraço do Graal no ADAGIO, uma iniciativa de um grupo de mulheres já aposentadas que, não querendo deixar o silêncio invadir as suas vidas, se  foram encontrando mensalmente durante vários anos, para conversarem sobre o que as inspirava.

O outro amigo que faleceu foi Hans Opschoor.

Hans Opschoor tornou-se um dos fundadores da economia ambiental na Holanda.

Desde 1973 Hans fez parte de um grupo com o nome OVER, em que eu também participei. As siglas O.V.E.R. correspondem à seguinte afirmação: Onze Verantwoordelijkheid Eist Radicaliteit (A nossa Responsabilidade Exige Radicalidade). Em 1976, o grupo transformou-se numa Fundação, que financiou vários projetos em que eu trabalhei no Graal, em Portugal, entre 1976 e 1986.

Enquanto investigador, Hans viveu alguns anos com a família no Botsuana, como responsável por um projeto sobre o meio ambiente e o desenvolvimento rural. Foi acompanhado à distância por Bob Goudzwaard, o seu professor.

Quando este último o visitou em 1980, Hans foi mostrar-lhe o Deserto do Kalahari. De noite, enquanto estavam na tenda, isolados no deserto, houve uma violenta tempestade que observaram juntos durante horas. No dia seguinte, ao longo da viagem de regresso ao mundo habitado, deram-se conta de como  o deserto tinha florescido.

Em 2009, Hans participou, no Centro Nacional de Cultura, em Lisboa, num Ciclo de Conferências organizado pela Fundação Cuidar O Futuro.

Depois da abertura deste evento, Hans proferiu uma conferência em que abordou a seguinte temática: O cuidado com as gerações futuras e a biodiversidade: ética da terra e algumas implicações para estruturar o domínio público.

Hans Opschoor

Hans Opschoor: “adoeceu de repente. Uma operação de urgência não resultou. Recusou ser operado uma segunda vez. Juntou a sua família para conversar. Mulher, filhos/as e netos/as. Disse-lhes que não queria prolongar a vida. Conversaram muito. Ficaram em paz.” Foto © Marijke de Koning

Hans adoeceu de repente. Uma operação de urgência não resultou. Recusou ser operado uma segunda vez. Juntou a sua família para conversar. Mulher, filhos/as e netos/as. Disse-lhes que não queria prolongar a vida. Conversaram muito. Ficaram em paz. Depois iniciou-se o processo da sedação paliativa, que lhe permitiu morrer tranquilamente uns dias depois. Estive na celebração da despedida através do lifestreaming.

 

Entre viver até demasiado tarde e morrer demasiado cedo

“Anja foi sepultada num sítio lindo.” Imagem do cemitério natural de Heidepol (Holanda).Foto © Marijke de Koning

O não prolongar a vida, quando já não há ou não vai haver qualidade, é uma temática que me “ocupa” cada vez mais. Acho que é uma questão incontornável nos tempos que correm. Várias pessoas com quem fui conversando, também “problematizam” o exagerado “desafio” de uma vida prolongada a todo o custo, muitas vezes com pouca qualidade. É uma temática “emergente”, mas que vai ganhando mais espaço nas nossas sociedades. Como viver até ao fim com qualidade? Que condições são necessárias?

Há poucos dias, vi no canal televisivo neerlandês BVN, uma reportagem sobre pessoas de idade que conseguem criar comunidades em apartamentos seniores. Os condomínios para idosos na Holanda, também conhecidos como comunidades residenciais ou complexos para a terceira idade, oferecem uma moradia independente combinada com instalações compartilhadas e com uma forte coesão social. Têm como foco a prevenção da solidão e a promoção da autonomia por meio do apoio mútuo e da interação social ativa.

Um dos sites na Holanda que promovem esta filosofia de vida propõe: “Viver mais tempo, mas com um sorriso”. Encontrei online uma iniciativa idêntica em Portugal.

O meu irmão Hans tinha 51 anos quando morreu, após 9 meses de luta contra um tumor cerebral. Ainda conseguiu vir passar férias em Portugal, com a mulher e o filho mais novo. Gostaria de ver a passagem do ano de 1999 para 2000, dizia ele, para ver como o mundo ia “aguentar” esta passagem para o novo milénio. Não conseguiu.

A minha amiga Anja tinha 53 anos quando faleceu em 2014, após 2 anos de luta contra uma doença invasiva. Já não aguentava mais. Eu estava em Lisboa. Ela na Holanda. Falámos pelo telefone, um dia antes da eutanásia dela. Lembro-me de ela dizer que esperava ter a coragem de dizer “sim” quando o médico lhe perguntasse se queria mesmo morrer. A Anja não acreditava no horizonte de uma vida eterna. O que existe além do fim da vida era para ela incompreensível, impossível de expressar em palavras. “O que é um ser humano além de um grão de poeira ao vento, um farrapo em séculos de história? O que realmente deixo para trás… quem serei quando tudo isso passar?” Foram as palavras dela citadas por um amigo na celebração do funeral, preparado por ela própria.

Sepultura. Cemitério natural

“A Anja optou por ser enterrada num cemitério natural.” Foto: Sepultura de Anja no cemitério natural de Heidepol. © Marijke de Koning

A Anja optou por ser enterrada num cemitério natural. Existem várias opções para este tipo de sepultara, como cesto, caixão, sudário ou urna. Todos os materiais utilizados devem ser naturais e biodegradáveis. Isso também se aplica às roupas; exemplos incluem algodão, lã, seda ou linho. Materiais sintéticos não são permitidos. Acessórios não são biodegradáveis, portanto, óculos e joias não podem ser sepultados com a pessoa falecida. Próteses dentários removíveis devem ser retiradas. A Anja foi sepultada num sítio lindo.

Há poucos dias a minha irmã  (11 anos mais nova do que eu) e o meu cunhado (17 anos mais novo do que eu) foram se inscrever e reservar um lugar neste espaço. Há muita gente interessada nesta opção e, como sabem, o meu país é duas vezes e meio mais pequeno do que Portugal. Daí, ser prudente não adiar demasiado esta decisão.

No dia 16 de junho, dia em que estava a finalizar a escrita deste texto, recebi uma mensagem WhatsApp da minha irmã a comunicar mais uma perda de uma amiga comum. Tinha 83 anos. “Uma idade bonita”, comentei eu. “Depende com quem a comparas”, respondeu ela. “Não demasiado velha. Não vale a pena comparar”, respondi eu.

Entretanto no dia 13 de Junho estive numa festa de anos de outra amiga, a celebrar os seus 90 anos. Cheia de saúde e energia.

O meu deserto deixou-me sair do silêncio enquanto fui escrevendo estas memórias e comentários. Um texto talvez demasiado sombrio. Mas para mim é importante não fugir à questão do fim e partilhá-la com outras pessoas, para aprendermos a viver com ela, sempre na Esperança de que o Fim é desabrochar na Luz.

Proponho que oiçamos a canção Old and Wise de Alan Parsons, que a Anja quis que acompanhasse a celebração da sua despedida.

Traduzi as primeiras linhas:

Até onde os meus olhos conseguem ver
Há sombras que se aproximam de mim
E aqueles que deixei para trás, eu queria que soubessem
Que sempre compartilharam comigo os meus pensamentos mais profundos
E que me seguem para onde eu for.

 Depois de ter finalizado a escrita deste texto, abri um livro que estava em cima da minha mesa. Calhou ser na página 93 e li uma frase sublinhada por mim em janeiro de 2024:

“(…) muitas pessoas não acreditam em Deus mas acreditam na música, sendo a música a respiração de Deus (…).
Lídia Jorge (2022). Misericórdia. Alfragide: Dom Quixote, p.93.

Com muita gratidão à minha amiga Luísa Falcão, por ter corrigido o meu “Português de estrangeira”.

 

Marijke de Koning, neerlandesa,  trabalhou como pedagoga social e educadora de adultos, predominantemente no contexto do Graal, movimento internacional de mulheres enraizado na fê Cristã.

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