“Palavra de honra que deviam chover lágrimas
quando o coração nos pesa”
(António Lobo Antunes)
Mais uma jovem amiga que perde um filho de forma repentina, desta vez nos Estados Unidos. Valha-nos ao menos o WhatsApp para podermos conversar nem que seja à distância. Sugeri-lhe que não deixasse de ver o filme Hamnet… talvez a ajudasse a ir vendo que a vida nos vai ensinando que a dor pode ser um caminho de resistência, permanência e transformação.
Não tive filhos – tive múltiplas perdas, sim, como a maior parte das pessoas –, e por muito que tente não me posso pôr no lugar de uma mãe – se é que alguém pode!… – numa circunstância dramática como esta. As imagens pungentes das guerras que avassalam o mundo (Congo, Sudão, Gaza, Ucrânia, Irão…) mostram-nos tantas mater dolorosas, verdadeiras Pietàs de cortar o coração. “Deviam chover lágrimas”, como diz António Lobo Antunes, escritor que conheceu na pele o sofrimento humano.
Em tempos idos (anos 80 do século passado), no South Bronx, Nova Iorque, acompanhei uma jovem mãe portoriquenha – considerada de família “em risco” -, no assassinato cruel, por um familiar, e dentro das quatro paredes da sua própria casa, da filhinha Sheila de 3 anos de idade. Crack. Outra mater dolorosa a quem o hospital recusou um leve calmante… vendo eu toda a família “forçada” a comprar drogas na rua que aliviassem a dor cruel.
Mais recentemente fui acompanhando uma pessoa de família bem próxima na perda súbita, por um estúpido e desastrado atropelamento, da sua jovem filha. Há cerca de 20 anos acompanhei outra familiar que perdeu uma filha de 6 anos num cruel desastre de automóvel – neste caso tendo de ser eu a dizer à mãe hospitalizada que a filha tinha morrido. Percebi bem os estádios da dor tão bem descritos pela psiquiatra suiça Elisabeth Kübler-Ross:
- “Negação: O choque inicial perante o diagnóstico ou a perda, em que a pessoa recusa aceitar a realidade ou situação.
- Raiva: O sentimento de revolta, injustiça e frustração dirigido a si mesmo, aos profissionais de saúde ou a familiares.
- Negociação: A tentativa de encontrar uma saída ou um acordo (muitas vezes com o divino), na esperança de adiar ou alterar o desfecho inevitável.
- Depressão: A tristeza profunda, o recolhimento e o luto antecipado perante a perda iminente das suas capacidades e da própria vida.
- Aceitação: A compreensão e resignação serena face à realidade, que não deve ser confundida com desistência, mas sim com uma paz interior possível.”
Senti, nas situações que enumero, que o meu coração podia rebentar a qualquer momento… cum-passio – viver a paixão com… Pelo facto de parte da minha vida profissional ter estado ligada a crianças “das margens”, vivi com as famílias dores indescritíveis para as quais não encontrava palavras de conforto. Só abraços, segurar um ombro, dar a mão. Olhar e fazer silêncio.
Lembro um dos primeiros livros de José Luís Peixoto Morreste-me sobre a morte do pai. “E espeta-se-me no peito nunca mais te poder ver ouvir tocar” (p. 60). Vivido, tocante, muito belo e sentido. Também perdi o meu pai. Cedo demais. Ele morreu-me também, disse eu um dia a José Luís Peixoto. E ele escreveu-me uma bonita dedicatória no livro. Em 2012.
Lamento ser repetitiva já que o filme Hamnet esteve muito tempo em cartaz. Mas pela segunda vez fui há dias ver o filme. Hamnet é um drama histórico com o mesmo nome, dirigido por Chloé Zhao, baseado no romance de 2020 de Maggie O’Farrell. Jessie Buckley (um merecido Óscar 2026, representando Agnès), Paul Mescal (Shakespeare) e seu filho Hamnet (interpretado por Jacobi Jupe, uma criança de uma extrema sensibilidade) nos principais papéis. Interpretam parte da família de Shakespeare – passam pelo filme os outros filhos, a sogra, o irmão de Agnès. Shakespeare e sua mulher Agnès experimentam a dor extrema de perder o filho Hamnet, cada um vivendo essa dor à sua maneira. Jessie Buckley (sublime no seu papel de mãe) vive a perda de forma visceral, lutando para que o filho em seus braços não morra, não acreditando que a morte havia visitado aquela criança: uma Pietà inconformada. Uma mater dolorosa, uma Nossa Senhora de todas as Dores cravadas no seu peito. Pura revolta e dor. Um grito pungente “chovendo sobre nós todos”, os espectadores.

” (…) uma obra de arte de tal intensidade que Agnès, ao ver a peça no teatro, escrita e encenada pelo marido, percebe por que razão ele a deixara entregue à sua dor maternal e solitária. Shakespeare transforma o luto em obra de arte, numa tentativa de se reconciliar com a vida.” Imagem retirada do trailer do filme. IMDB
A sublime peça Hamlet, de Shakespeare, representa, a meu ver, a forma como o pai Shakespeare, regressado a Londres, viveu a dor, transformando-a dolorosamente em arte: uma obra de arte de tal intensidade que Agnès, ao ver a peça no teatro, escrita e encenada pelo marido, percebe por que razão ele a deixara entregue à sua dor maternal e solitária. Shakespeare transforma o luto em obra de arte, numa tentativa de se reconciliar com a vida. As cenas finais do filme são avassaladoras:
“O filme Hamnet é um mergulho profundo na dor de perder alguém que se ama. Uma dor silenciosa, que não grita, mas atravessa-nos (sublinhados meus). Que se instala nos detalhes, nos espaços vazios, nos dias que continuam mesmo quando tudo dentro de nós parece ter parado. A história mostra que o luto não é para esquecer. É sobre aprender a conviver com a ausência. E talvez o ponto mais forte seja esse: quando a dor encontra um caminho para existir, ela pode transformar-se. No caso do próprio Shakespeare, tornou-se arte, e a peça Hamlet toca ainda hoje a eternidade”. (Igor Romeu , Reflexão do filme “Hamnet: A Vida Antes de Hamlet”, Strategic Market Intelligence, 30.3.26.

Miguel Ângelo (1475-1564): Pietà, esculpida em 1498-1499. © de Carrara, Basílica de São Pedro, Cidade do Vaticano
A Pietà (1499) de Michel Ângelo é uma das obras-primas da escultura renascentista, representando a Virgem Maria segurando o corpo abandonado de Jesus após a crucificação. Podemos contemplá-la na Basílica de S. Pedro no Vaticano, quase transparente em mármore de Carrara. Doce e jovem Maria. Sempre me admirou a sua expressão de serenidade em vez da revolta e dor extrema. Esta sublime estátua foi feita por Miguel Ângelo na sua juventude, apenas com 22 anos de idade. Como me deixo sempre seduzir pela figura da Pietà detenho-me em variadas igrejas ou museus, ao jeito das minhas deambulações, e fico a contemplar em silêncio a dor de perder um filho: há uma Pietà na Pinacoteca de Brera (Milão) pintada por Giovanni Bellini (cerca de 1460) de que gosto muito. Uma Maria madura, de negro vestida, retorcida na dor, em lágrimas. “A Descida da Cruz” de Van Der Weyden (1399-1464) habita o Museu do Prado e é de uma dramaticidade pungente. Mais próxima, uma lindíssima Pietà barroca habita, num dos seus altares laterais, a Igreja Paroquial de Santa Isabel em Lisboa.
Mas a obra extrema de Michelangelo é, a meu ver, a Pietà de Rondanini, exposta em Milão (Museus do Castelo Sforzesco), uma obra inacabada. Michelangelo começa a trabalhar nela por volta dos 77 anos, entre 1553-1555. É considerada por muitos o seu testamento espiritual, já que segundo documentos, “o artista continua a trabalhá-la até poucos dias antes da sua morte, deixando-a incompleta”.
Existem dúvidas que a Pietà de Bandini, exposta no museu do Duomo em Florença, seja da autoria de Miguel Ângelo.

‘Passados mais de 50 anos entre as duas obras, a Pietà de Milão espelha um profundo dramatismo com os dois corpos colocados verticalmente, num “abraço da morte”, segundo alguns autores. Como se o corpo de Jesus [ainda] fizesse parte do corpo da Mãe.’ Foto: Pietà de Rondanini. @ Paolo da Reggio. Museu do Castelo Sforzesco, Milão.
É esta Pietà de Rondanini que mais me avassala o coração e me desperta com-passio. Esta Pietà inacabada. Tantas outras Pietà(s) à nossa volta. Inacabadas.
As Pietàs continuam a habitar dolorosamente esta vida, ontem, hoje, em todo o mundo: Gaza, Irão, Congo, Ucrânia… Portugal. Como podemos consentir nisto? Como experimentar cum-passio perante a frieza dos écrans ou a vulgarização das notícias? Seremos ainda capazes de “chover lágrimas” como lembra Lobo Antunes? Apesar de tudo insisto em esperar pelo “depois” de Sophia:
Depois da cinza morta destes dias,
Quando o vazio branco destas noites
Se gastar, quando a névoa deste instante
Sem forma, sem imagem, sem caminhos,
Se dissolver, cumprindo o seu tormento,
A terra emergirá pura do mar
De lágrimas sem fim onde me invento.
(Sophia de Mello Breyner, in: Coral, 1950)

“A Descida da Cruz é de uma dramaticidade pungente.” Rogier van der Weyden (1399/1400–1464): Descida da Cruz. Museu do Prado, Madrid
Referências
- Kubler-Ross, Elizabeth. On Death and Dying, TAYLOR & FRANCIS LTD, 1969/2008.
- Peixoto, J.L. Morreste-me, Lisboa Quetzal. 2009.
Teresa Vasconcelos é professora do ensino superior e integra o movimento do Graal. contato: t.m.vasconcelos49@gmail.com










