AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

Cinema

“Once”: a brevidade das coisas eternas

| 20/08/2026

Longe dos clichés românticos, “Once” recorda-nos que algumas pessoas entram na nossa vida apenas para nos devolver a capacidade de seguir em frente.

 

O amor é, sem margem para dúvida, o pior escritor de guiões de Hollywood. O amor não quer saber da aristotélica estrutura em três atos. Ignora o clímax, despacha a catarse e tem uma inclinação quase infantil para nos deixar a falar sozinhos, a olhar para uma porta que afinal já não tem chave. Nós achamos que vai tudo acabar num beijo à beira-mar, com uma orquestra a chorar cordas e um pôr do sol de agência de viagens, e o infeliz do amor vira-se para nós e diz: “Não. Hoje vamos apanhar autocarros diferentes.”

A notícia da morte de Glen Hansard levou-me a rever Once. E foi precisamente essa birra que me acompanhou ao longo de todo o filme.

A gente cresceu a achar que uma história de amor só presta se terminar com o tipo a carregar a miúda ao colo sobre o limiar da porta. Hollywood meteu-nos isso na cabeça com a mesma subtil insistência de um anúncio de detergente: primeiro os desencontros, depois os abraços, a recompensa no fim e, para fechar a fatura, os créditos a rolar por cima de uma promessa de felicidade eterna, com imposto do selo incluído.

John Carney, que é irlandês e, portanto, já viu chuva a mais para acreditar em contos de fadas açucarados, manda essa cartilha toda abaixo logo nos primeiros minutos. E não faz isto por pose de rebelde cool. Faz porque sabe que a vida raras vezes aceita o guião que lhe tentamos impingir.

 

O rapaz e a rapariga

A história tem aquela simplicidade que desarma a gente logo no início. Um músico de rua canta nas esquinas de Dublin enquanto tenta sobreviver aos restos mortais de uma relação que azedou. Uma jovem imigrante, que provavelmente veio com uma mala de cartão e um sonho empoeirado, ouve aquelas canções com uma atenção que já ninguém dá a ninguém.

Ela toca piano. Ele escreve canções. Entre um café fraco, uma caminhada por ruas onde cheira a cerveja entornada e uma digressão improvisada a uma loja de instrumentos musicais, onde os donos deviam estar a dormir a sesta, nasce uma intimidade que não tem nada a ver com o romance de folhetim. É uma intimidade feita de duas fragilidades coladas com fita-cola.

O detalhe mais bonito — e aqui tiro o chapéu ao homem — é que nunca sabemos os nomes deles. São o Rapaz e a Rapariga. Ao princípio parece uma manigância de realizador indie que quer ganhar prémios em festivais onde só comem sandes de atum.

Depois percebemos que não. É uma escolha de quem sabe das coisas. Ao tirar-lhes o bilhete de identidade, Carney dá-lhes uma dimensão universal. Eles deixam de ser o João e a Maria para passarem a ser aquele encontro improvável que todos nós, se tivermos a decência de fazer memória, guardamos na gaveta de cima da cómoda.

Porque toda a gente, meu caro, já conheceu alguém assim. Aquela pessoa que entrou na nossa vida sem pedir licença, sem mostrar documento de identificação, ficou muito menos tempo do que a nossa vaidade exigia e, no entanto, mudou a engrenagem toda.

Nem sempre foram grandes paixões de alcatifa e hotel de luxo. Às vezes foi um colega de escritório que nos disse uma verdade incómoda, um professor que nos emprestou um livro que nunca devolvemos ou um tipo qualquer num banco de jardim.

Gente que chegou a sério, rearrumou os móveis da nossa alma, deitou fora o sofá velho e foi-se embora antes de conseguirmos perguntar onde ficava a paragem. E o mais extraordinário é isto, essas pessoas vão-se embora, mas os estragos ficam todos lá.

 

Câmaras a tremer e canções que valem por mil conversas

Quando cantam, não estão a representar papel nenhum; estão, finalmente, a dizer o que lhes vai na alma. Foto retirada do trailer.

Essa honestidade toda transparece na própria forma como o filme foi parido. A câmara treme, a fotografia parece tirada por um tipo que esqueceu o tripé no autocarro e há momentos em que temos a sensação nítida de que estamos a espiar a vida dos outros por uma racha na cortina.

Noutra produção qualquer, isto seria defeito de fabrico. Aqui é a própria matéria da vida. Afinal de contas, seria um disparate desgraçado contar uma história feita de hesitações e gaguejos através de imagens polidas à lixa de água.

O processo de rodagem diz tudo: dezassete tostões de orçamento e dezassete dias de trabalho. Once não esconde as rugas. Pelo contrário, faz delas estilo. Não há espaço para pirotecnia, efeitos especiais ou grandes discursos de autoajuda. Sobra o essencial, duas pessoas, algumas guitarras mal afinadas e uma Dublin suficientemente cinzenta para acolher os silêncios de ambos.

Talvez por isso a música nunca funcione como pausa na narrativa. A música é a narrativa. Enquanto nos musicais tradicionais a malta para tudo a meio da rua para dar dois passos de dança como se estivesse na Broadway, aqui cada canção é apenas uma conversa que eles ainda não têm pachorra — ou coragem — para ter em voz alta. As melodias fazem o trabalho sujo das confissões, das lágrimas e das declarações meio balbuciadas. Quando cantam, não estão a representar papel nenhum; estão, finalmente, a dizer o que lhes vai na alma.

 

O final

E é aqui que o filme acerta em cheio na ferida. Once nunca tenta transformar aqueles dois num casal de capa de revista. O que lhe interessa é bem mais modesto e infinitamente mais difícil, é a forma como um faz o outro acreditar que ainda há fumo debaixo da cinza. Ela vê talento onde ele só vê um monte de desgraças; ele devolve-lhe uma confiança que andava perdida algures entre o pó da rotina e a saudade de casa.

Nenhum deles faz o papel de herói de capa e espada. Simplesmente oferecem aquilo que, em certas alturas da vida, vale mais do que qualquer testamento; a certeza de que ainda somos capazes de voltar a dar flor.

Fomos educados na mentira de que o grande amor é aquele que dura cinquenta anos a ver a mesma telenovela. Hoje em dia desconfio fortemente dessa definição. Há gente que passa uma vida inteira ao nosso lado sem nos deixar sequer uma marca de giz na manga do casaco. E há outros que ficam três dias, mas deixam uma pegada que atravessa décadas.

Once pertence a essa estirpe ímpar de objetos artísticos que percebem esta aritmética estranha.

É por isso que o final nos deixa com um nó na garganta e uma comichão na planta dos pés. Não porque seja um final triste — os finais tristes são fáceis, metem chuva e violoncelos —, mas porque é um final adulto. Recusa dar ao espectador o rebuçado sentimental que ele julgava ter comprado à entrada. Prefere entregar-nos algo muito mais duro de roer, a constatação de que algumas histórias cumprem a sua missão precisamente porque não acabam como mandava a tradição.

No fim de contas, Once nunca foi uma história sobre duas pessoas destinadas a casar na igreja do bairro. É a história de duas pessoas destinadas a abanar a vida uma da outra até cair o pó todo. E, se calhar, convenhamos, esta é a única maneira honesta que o amor tem de acontecer sem nos estragar a tarde.

Caso lhe desperte a curiosidade, o filme pode ser visto gratuitamente no canal da NetMovies, no YouTube.

 

Vanderlei Tenório é jornalista, cronista, poeta e crítico de cinema brasileiro.

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

Último desejo de Francisco: os bolinhos da amiga Jacoba

Ano jubilar-800 anos da morte (8)

Último desejo de Francisco: os bolinhos da amiga Jacoba novidade

O Papa Leão XIV proclamou, desde 10 de janeiro e até final deste ano, um ano jubilar assinalando os 800 anos da morte de Francisco de Assis, ocorrida em 3 de outubro de 1226 – a festa litúrgica é assinalada dia 4. Com esse pretexto, o 7MARGENS publica, até final do ano, nos dias 3 ou 4 de cada mês, uma série de dez textos da autoria de frei Isidro Lamelas, da Ordem dos Frades Menores, professor de Teologia. Este é o oitavo texto da série.

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.

Pin It on Pinterest

Share This