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Secretário de Bento XVI publica livro incendiário e já não se livra de polémica e de críticas

| 10 Jan 2023

Gänswein, prefeito da Casa Pontifícia e secretário de Bento XVI, presidindo, em Julho de 2017, às exéquias do cardeal Joachim Meisner. Foto Raimond Spekking/Wikimedia Commons

 

O livro Nient’Altro Che La Verità – La mia vita al fianco di Benedetto XVI (“Nada mais que a verdade – A minha vida ao lado de Bento XVI”), do secretário de Joseph Ratzinger, o também alemão arcebispo Georg Gänswein, é publicado esta quinta-feira, 12, em Itália, mas o seu autor trabalhou ativamente na última semana para chamar a atenção para algumas das partes mais picantes do conteúdo. O livro, na sua versão digital, circula já em meios jornalísticos e eclesiásticos, e o 7MARGENS teve também acesso a ele.

A obra, de 334 páginas e nove capítulos, é editada pela Piemme, do grupo Mondadori e contou com a colaboração, na escrita, do jornalista Saverio Gaeta, autor de vários livros, entre os quais um sobre Fátima.

Georg Gänswein acompanhou o então cardeal Joseph Ratzinger desde 2003 até à morte deste, em 31 de dezembro último. Ou seja, acompanhou-o na fase final do cargo de prefeito da então Congregação para a Doutrina da Fé, seguido dos cerca de oito anos em que ele foi Papa e mais nove como emérito, depois da renúncia ao pontificado, em 2013. Isso tornou o arcebispo um “observador privilegiado dos eventos eclesiais das últimas décadas”, como ele próprio vinca, logo no início do livro.

A convivência com tão destacado hierarca permitiu-lhe, acima de tudo, e recorrendo de novo às suas palavras, “conhecer a verdadeira face de um dos maiores protagonistas da história do século passado, muitas vezes denegrido pelas narrativas mediáticas e pelos detratores que o definiram como o panzer-cardeal ou rottweiler de Deus”. Contudo, confessa, Ratzinger era “um homem doce e um arguto estudioso”, mas também um cardeal e um Papa que “fez a história do nosso tempo e que deve ser lembrado como um farol de competência teológica, clareza doutrinária e sabedoria profética”.

Os capítulos iniciais acabam por ser argumentos para sublinhar aspetos da fé, do perfil psicológico e da envergadura teológica de Ratzinger que virão a sobressair no Papa Bento XVI. Dos nove capítulos, os quatro finais são, por isso, os mais interessantes, dado que se referem, respetivamente, ao pontificado, à renúncia, à convivência com o Papa Francisco (o autor chama-lhe, significativamente, “a convivência dos dois papas”), e a vida quotidiana no mosteiro Mater Eclesiae, onde Ratzinger ficou a viver depois da resignação.

O arcebispo conta pormenores dos bastidores de alguns dos processos que foram vindo a público, desde a morte de João Paulo II, passando pelo conclave que elegeu Bento XVI, alguns passos e medidas do seu pontificado e a vida de recolhimento que se lhe seguiu. A confidência papal de que tencionava terminar o seu múnus foi feita a Gänswein alguns meses antes. Segundo conta, o próprio tentou demovê-lo dessa intenção, mas o então Papa fez-lhe saber que não se tratava de uma quaestio disputanda (questão em aberto), porque a decisão estava tomada.

Tocante é a descrição do momento em que os dois deixaram o Palácio Apostólico, para tomar o helicóptero para Castel Gandolfo: “Apaguei as luzes, e isso para mim já foi um ato muito emocionante, mas também muito triste.” Face à “pressão” que “era muito grande, (…) uma espécie de tsunami por cima, por baixo, ao redor. Eu já não sabia quem era”, escreve Gänswein, salientando que Bento XVI, em contrapartida, “estava num estado de incrível calma, como nos dias anteriores”.

É no capítulo da coexistência de um Papa e de um emérito que o secretário deste último aproveita para se espraiar por uma série de casos que têm sobretudo em comum a divulgação de comentários a peripécias, declarações ou decisões e medidas do Papa Francisco. Isso levou já várias figuras da Igreja, de diferentes posicionamentos relativamente ao pontificado de Francisco a manifestar a sua perplexidade ou reprovação.

Entre alguns dos exemplos, está o que ocorreu com o Sínodo sobre a Família e o documento subsequente Amoris Laetitia e o tema dos divorciados recasados, que levaram o secretário a deduzir que “tendo em conta algumas observações fugazes”, o emérito não partilhava do que fora publicado. Também teria ficado “humanamente surpreendido pela ausência de qualquer sinal de réplica” de Francisco aos quatro cardeais que lhe enviaram um conjunto de dúvidas.

Algo de análogo se terá passado com o documento papal Traditiones Custodes, sobre a liturgia segundo o missal antigo, pré-conciliar, que Bento XVI terá considerado “um erro” e “uma mudança de rota”, que “punha em risco a tentativa de pacificação” que o próprio tinha promovido em 2008.

Um outro caso diz respeito à recusa de Bento XVI de redigir um prólogo a um conjunto de trabalhos de teólogos sobre os fundamentos teológicos do pontificado de Francisco. Verifica-se, pelo que o livro conta, que Ratzinger ficou altamente incomodado com o facto de o autor de um dos livros ser o teólogo Peter Hübermann, que o tinha contestado múltiplas vezes no passado, relativamente a posições que tinha assumido. A recusa, escrita pelo próprio convidado, enaltecia os motivos que levaram a criar a coleção, mas invocava dificuldades de ler em tempo útil cerca de uma dezena de livros e não deixava de aludir ao incómodo pela inclusão de Hübermann. A polémica estalou quando se veio a descobrir que o coordenador da coleção, Eduardo Dario Viganò, então prefeito da secretaria para a Comunicação, tinha divulgado uma parte da mensagem de Ratzinger, ocultando a referência ao teólogo crítico. Francisco acabaria por ver-se obrigado a substituir Viganò.

 

Arcebispo Gänswein ressabiado com Francisco

padre maurice ashley agbaw-ebai, bento XVI e georg gänswein, foto Saint John's Seminary

O Papa emérito com o padre camaronês Maurice Ashley Agbaw-Ebai (à esquerda) e o alemão Georg Gänswein: as peripécias contadas no livro já motivara um coro de críticas ao arcebispo que foi secretário de Ratzinger nos últimos vinte anos. Foto © Saint John’s Seminary. 

 

Estas peripécias, como outras que convoca, servem como picardias e formas de contrapor o Papa em funções ao seu antecessor que, não pondo em causa uma convivência que o próprio Gänswein reconhece ter sido mutuamente respeitadora e cordial, dá azo a (e alimenta) guerrilhas e intrigas. Até porque ele convoca, neste livro, questões como a suspensão de funções (que não do cargo) de prefeito da Casa Pontifícia que sublinham o seu ressabiamento, em acentuado contraste com o estilo de Ratzinger.

O jornalista inglês e biógrafo de Francisco, Austen Ivereigh, por exemplo, insurge-se, no Twitter, contra o facto de, nestas abordagens, o arcebispo estar a trazer a público “aquilo que B[ento] pretendia que fossem documentos e comentários *privados*”.

Considera que, ao fazer isso, ele está a “minar o juramento de lealdade de Bento a Francisco, o qual Bento cumpriu rigorosamente; a violar o dever de confidencialidade de Gänswein para com B[ento] e F[rancisco] enquanto estiver num papel curial delicado; e encorajar aqueles que buscam erradamente colocar o legado de Bento XVI contra Francisco”.

Não foi posto em questão o direito do arcebispo de contar a sua experiência, certamente privilegiada e única. Desse ponto de vista o livro reveste-se de relevância. O que suscitou perplexidade e inquietação foi o facto de Gänswein, que tinha o livro preparado quando Bento XVI morreu, ter iniciado, através de entrevistas e da divulgação de pequenos fragmentos, a promoção da obra e a desencadear factos eclesiais quando ainda nem sequer o Papa emérito tinha sido sepultado. Deste modo, foi o autor que se tornou notícia.

 

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