O património do Vaticano gerido pela Administração do Património da Sé Apostólica (APSA) subiu (em termos líquidos) para €2,686 mil milhões em 2025, um curto aumento de cerca de €89 milhões (3,43%) em relação ao ano anterior. O resultado operacional foi de €22,8 milhões, montante que compara com os €62,2 milhões registados em 2024. Em maio, o IOR (instituto para as Obras Religiosas), conhecido com o banco do Vaticano, tinha apresentado um lucro líquido de €51 milhões (aumento de 55,5% em comparação com 2024).
Os números da APSA foram revelados pelo seu presidente, o arcebispo Giordano Piccinotti, numa entrevista concedida aos media do Vaticano e divulgada pela agência Vatican News de dia 31 de julho. Para explicar a quebra no resultado operacional, quando comparado com 2024, o arcebispo recordou que “o ano anterior foi extraordinário e irrepetível, caracterizado por receitas ligadas à reestruturação da carteira de investimentos”. Em contrapartida, “2025 representa um regresso às condições operacionais ordinárias” pelo que, sustentou, os indicadores financeiros, “neste contexto, são positivos.”
Apesar das medidas de clarificação e concentração da gestão financeira do património do Vaticano, das regras de transparência e responsabilização pelos critérios éticos observados na concretização dos negócios impostas pelo Papa Francisco e aprofundadas por Leão XIV, obter uma visão global e certificada dos bens e da situação financeira da Sé de Roma continua a ser impossível. Desde logo pelo facto dos tesouros artísticos dos Museus do Vaticano não estarem contabilizados.
As agências internacionais de rating, bem como os analistas italianos, têm vindo a notar como positivas as transformações operadas, sobretudo no IOR. Contudo, por mais transparentes e certificadas que sejam as contas das principais instituições financeiras e de gestão do património do Vaticano, uma imensa variedade de bens com relação direta com a Sé Apostólica encontra-se fora do perímetro de consolidação destas duas instituições. Ou porque foram instituídas com figuras jurídicas autónomas por quem doou tais bens, ou porque pertencem a instituições católicas juridicamente independentes do Vaticano.
O contrário também é verdade: entre os 4.281 imóveis que a APSA gere em Itália, e os cerca de 1.200 imóveis no resto do mundo, há de tudo. Desde unidades imobiliárias destinadas a usos de fins sociais e eclesiais, até imóveis para puro rendimento. Dioceses, congregações e ordens religiosas de países em que a Igreja Católica e as suas obras sociais são perseguidas, optam por vezes, como forma de proteção das suas escolas, hospitais e outras construções, erigi-las juridicamente como património da Santa Sé.
22,7 milhões para a Cúria

Arcebispo Giordano Piccinotti, presidente da APSA: ‘ a estratégia seguida em 2025 no que diz respeito à carteira mobiliária foi norteada “pela máxima prudência, com exposição limitada a ações (cerca de 17%), alocação de 32 por cento em títulos de renda fixa, 29 por cento em ouro físico e uma reserva de liquidez adequada”.’ Foto © Vatican News
Em 2025 o aumento do património líquido gerido pela APSA foi impulsionado principalmente pela reavaliação do ouro físico em carteira (+€40,8 milhões), pela valorização contabilística dos imóveis (+€39,2 milhões) e pela contribuição positiva da valorização de títulos (+€16,3 milhões). Alguns resultados negativos noutras componentes do património determinaram que o acréscimo não tivesse sido da ordem dos €96,3 milhões, mas sim de €89 milhões.
De acordo com o arcebispo Piccinotti, a estratégia seguida em 2025 no que diz respeito à carteira mobiliária foi norteada “pela máxima prudência, com exposição limitada a ações (cerca de 17%), alocação de 32 por cento em títulos de renda fixa, 29 por cento em ouro físico e uma reserva de liquidez adequada”. O rendimento global da carteira própria foi, segundo aquele responsável, de 14,37 por cento.
Do resultado líquido de €22,8 milhões a APSA entregou 22,7 milhões de euros para cobrir as necessidades da Cúria Romana, ficando, assim, um pouco abaixo dos 24,3 milhões de dividendos entregues este ano pelo IOR. Recorde-se que o Papa dispõe de outros rendimentos além dos destas duas instituições financeiras, nomeadamente os gerados pelo Óbolo de São Pedro (cerca de 6o milhões de euros para as obras de caridade e outros apoios financiados pelo Papa) e as receitas originadas pela cobrança de entradas nos Museus do Vaticano (perto de 100 milhões de euros).
No que diz respeito ao montante da contribuição da APSA para financiar as despesas do Vaticano, o seu presidente defendeu que “a parte mais significativa” desse apoio “não aparece nos números das demonstrações financeiras”, pois “cerca de 40 por cento dos recursos humanos da APSA trabalham em benefício de outras entidades da Santa Sé — dicastérios, escritórios e fundações —, prestando serviços que são, em grande parte, gratuitos”.
Além deste apoio, a APSA atua como o órgão central de compras da Santa Sé (em 2025, processou 4.417 solicitações de aquisição, geriu a contabilidade de 77 entidades, processou mais de 50.000 pagamentos e supervisionou a manutenção de todo o património imobiliário.
Apesar dos avanços na transparência e na prestação de contas, a realidade financeira da Santa Sé continua envolta numa enorme nuvem. Na melhor opinião de vários analistas, o Vaticano enfrenta nos últimos anos um défice anual crónico que pode ascender a qualquer coisa entre os 50 e os 80 milhões de euros. Pior do que este défice é a ameaça representada por um fundo de pensões que apresenta um défice estrutural que alguns observadores acreditam poder atingir os 631 milhões de euros. Tudo boas razões, sublinham estes observadores, para o Conclave se ter decidido por um Papa americano. Mas tal facto não parece, por si só, ter trazido muitos dólares à caixa de São Pedro… pelo contrário!










