Exposição em Salamanca

Será que já podemos dizer Ecce Homo?

| 19 Out 2022

A exposição The Mistery Man expõe a versão mais realista que alguma vez foi feita do homem que foi envolto no Santo Sudário de Turim, que muitos acreditam ser o próprio Jesus de Nazaré. Será?

O corpo que é ponto alto da exposição The Mistery Man, em Salamanca. Foto © Ricardo Perna

O corpo que é ponto alto da exposição The Mistery Man, em Salamanca. Foto © Ricardo Perna

 

Esta não é uma discussão recente. Com efeito, perceber se o Sudário de Turim é, efetivamente, o que envolveu o corpo de Jesus Cristo, colocado no sepulcro após a sua morte na cruz, tem sido uma discussão que tem animado não apenas o meio teológico, como também o académico e científico.

Mas aquilo que a exposição The Mistery Man (“O Homem Mistério”) mostra, na catedral de Salamanca por estes dias (até fevereiro ou março, mas a começar uma peregrinação que percorrerá todo o mundo), é algo nunca visto em séculos de discussão: a imagem hiper realista do corpo que esteve envolto no Sudário e que, como acreditam muitos, será o corpo de Jesus.

Álvaro Blanco, comissário da exposição, explica que não pretende entrar nesta discussão teológica ou sequer científica. “Toda a comunidade científica e médica concorda que neste pano esteve envolto um homem torturado, com 250 marcas de flagelação em todo o seu corpo, hematomas, um corte de uma lança que lhe perfurou o lado… o que fizemos foi recriar esse homem, com base nos estudos que foram feitos do Sudário, e depois cada um que sinta o que quiser sentir” ao ver a exposição e aquela imagem – que, com 75 quilos, até no peso foi recriada com o máximo de exatidão.

Para ele, não há dúvidas. “Eu não tenho nenhuma dúvida de que estamos perante o corpo de Jesus Cristo”, afirma. Mas o espaço da exposição, com uma sala totalmente em branco, procura deixar que cada visitante faça a sua interpretação.

Foram precisos 14 anos para que este projeto visse a luz do dia. Até ao dia da exposição, Álvaro Blanco assegura que apenas 14 pessoas tinham visto o resultado final. Entre elas, estão o próprio Blanco e a equipa de quatro pessoas que executou o trabalho. “Escolhi gente que já tinha feito trabalhos semelhantes e confiava na técnica. O que gostava neles era que trabalhavam para a indústria do cinema e não eram artistas. Um artista vai tentar sempre deixar a sua marca pessoal; aqui não, foi muito fácil trabalhar com eles, porque como não havia ‘erros artísticos’, provocados, qualquer erro podíamos emendar e alterar, não havia problema”, assegura o comissário.

Álvaro é o comissário da exposição e teve esta estátua 8 anos fechada na sua garagem, até que encontrou o local perfeito na catedral de Salamanca. Foto © Ricardo Perna

Álvaro Blanco é o comissário da exposição e teve a estátua oito anos fechada na sua garagem, até que encontrou o local perfeito para a expor na catedral de Salamanca. Foto © Ricardo Perna

 

Álvaro Blanco já era o responsável por uma exposição sobre o Sudário que, há anos, informava os visitantes sobre esta realidade. Com o dinheiro recolhido com essa mostra, esteve seis anos a estudar tudo o que já havia sido escrito sobre o lençol. Depois, juntou uma equipa que, durante cerca de quatro meses, recriou esta figura com um realismo que impressiona quem a vê. “Modificámos alguns aspetos como a musculatura que faltava em algumas partes do corpo, que é normal não estar presente quando o corpo está em rigor mortis. A posição meio encolhida, por exemplo, é perfeitamente consistente com uma posição de rigor mortis após a crucificação, e o corpo tem os peitos proeminentes, o ombro direito meio deslocado, as mãos esticadas. Fomos fazendo a pele, que tem sulcos, utilizámos pelos reais, e tudo isso se fez ao mínimo pormenor, e o corpo é perfeito. Está feito completamente, de alto a baixo, inclusive nas costas, que foi terrível de se fazer por causa da quantidade de feridas, mas só se irá ver no livro”, revelou.

Depois disso, foram oito anos com o corpo na sua garagem, à espera do local certo para o expor. “A minha garagem fica a três quilómetros desta catedral. Corremos o mundo todo à procura de locais, e foi aqui que ele veio ficar. Não há coincidências”, afirmou aos jornalistas, entre risos.

O corpo do “homem-mistério” do Sudário de Turim foi revelado no dia 13 de outubro, numa inauguração que contou com a presença do bispo de Salamanca, José Luís Retana, o alcaide da cidade e o deão da catedral, além de inúmeras figuras públicas e autoridades. Depois de uma ligeira apresentação, os fotógrafos e repórteres de imagem acompanharam esta pequena delegação que se deslocou à sala para testemunhar o desvelar do corpo. O bispo de Salamanca observava com cuidado o corpo agora revelado, e trocou algumas impressões com o comissário Álvaro Blanco. Passados uns momentos, e enquanto todos continuavam a conversar, olhou a imagem por breves segundos, fechou os olhos e baixou a cabeça.

“O que sentes é uma comoção, porque é o mesmo que dizemos no Credo: foi crucificado, morto, sepultado e ressuscitou. Estamos perante o pilar da nossa fé, que é a pessoa de Cristo. Nós seguimos a Cristo, que Deus fez Homem, que morreu e ressuscita connosco”, disse ao 7MARGENS, emocionado, após terminar a visita guiada à exposição. Mesmo sendo um trabalho sem base de fé, a prova teológica estava superada. Depois disso, foi possível observar a admiração e o espanto com que os primeiros visitantes se abeiraram da imagem, que, embora pareça “normal” ao longe, ao entrar no espaço se torna absolutamente real quando nos aproximamos e conseguimos perceber todos os detalhes do corpo, num contacto mais próximo com as feridas ou o olho negro ou ainda o “sangue” que escorre do lado onde entrou a lança.

Para o prelado, não há nenhuma questão com a exposição dos crentes a uma noção tão real do sofrimento que Jesus passou na Cruz, um sofrimento que a arte e os escritos têm tendência a suavizar. “O grau de sofrimento que vemos explicitamente ajuda-nos a entender o grau de amor. Foi um exemplo para que entreguemos a vida que nos é dada. Seguir um exemplo até à morte é de alguém que está apaixonado por outra pessoa. Por isso, isto simboliza o amor de Deus por cada um de nós”, diz o bispo de Salamanca, que assegura nunca ter visto “nada com este realismo”. “Cada detalhe, o tom da pele, os pelos dos braços… é impressionante, e convido todos para que possam vir contemplar”, afirma.

O bispo de Salamanca, José Luís Retana, ficou comovido ao ver a estátua pela primeira vez, por causa do seu realismo. Foto © Ricardo Perna

O bispo de Salamanca, José Luís Retana, ficou comovido ao ver a estátua pela primeira vez, por causa do seu realismo. Foto © Ricardo Perna

 

A exposição

Mas há muito mais para ver neste The Mistery Man. A exposição procura enquadrar o visitante, por um lado, na figura de Jesus Cristo, e por outro na história do Sudário, com todas as suas polémicas, incompreensões e espantos.

Numa primeira sala, o visitante é recebido por uma estátua de Jesus na cruz e uma imagem do Ecce Homo português, que está no Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa. Depois, o visitante toma contato com 30 moedas de prata, idênticas às que Judas terá recebido para trair Jesus, pontas de lança, uma idêntica à que trespassou o corpo do crucificado, representações dos chicotes de flagelação, de uma cruz e do sepulcro onde Jesus foi colocado, construído com as medidas que se conhecem dos registos históricos.

 

De seguida, iniciamos uma viagem pela história do Santo Sudário, muito pouco conhecida até que chegou às mãos dos duques de Saboia e a Turim, onde ficou.

Uma terceira sala permite-nos integrar as descobertas e as polémicas sobre o Sudário. Se, por um lado, acompanhamos as desventuras de Secundo Pia, o primeiro fotógrafo a captar a imagem do pano em 1898, em negativo, cujo trabalho foi totalmente desacreditado até que, 33 anos depois, outro fotógrafo repetiu o resultado, vamos depois ao encontro de Pierre Barbet e das suas experiências com cadáveres que permitiram perceber várias coisas – entre as quais a noção de que Jesus foi crucificado pelos pulsos e não pelas mãos.

Depois, a questão da datação pelo carbono 14, que lançou a polémica ao adiantar que o pano seria do século XIII ou XIV, mas que pode ter sido enviesada pela contaminação do pedaço de pano estudado, já que o sudário sofreu remendos com tecidos posteriores após a data dos acontecimentos, para garantir a sua durabilidade.

Para além disso, é interessante observar e compreender como muita iconografia religiosa dos primeiros séculos tem pontos de convergência com a imagem do Sudário de Turim, assim como o têm a moeda que o Imperador Justiniano II mandou cunhar com a face de Jesus, o que seria muito pouco provável sem ter o molde do Sudário.

Álvaro Blanco vai ainda mais longe: “A comunidade científica concorda que este é um corpo de um homem que sofreu torturas indescritíveis. Se a ideia fosse falsificar um corpo, para dizer que era o de Jesus, significa que outra pessoa teria de ter passado exatamente pelo mesmo sofrimento, pela mesma tortura, só para que se fizesse um pano assim, e haveria coisas que não seria possível explicar, como o facto de o pano ter uma consistência 3D, quando não o deveria ter, ou que as marcas de sangue ficariam ali tão bem delineadas”, explicou aos jornalistas, assegurando que “este corpo vai mudar tudo, como me mudou a mim”.

Depois de mais bem informado, o visitante é convidado a entrar numa sala imersiva 360º, onde uma coleção de 500 imagens de Jesus Cristo, desde a pintura à escultura, se misturam numa apresentação multimédia que preenche os sentidos e nos prepara para o que vamos encontrar de seguida, na tal sala branca, onde apenas se vê a escultura do corpo e uma imagem do Sudário.

Depois de todo este percurso, a proximidade com a imagem e o detalhe e o realismo com que está feita tornam muito difícil outra conclusão que não a de Álvaro Blanco: Ecce Homo, eis o Homem.

Na sala imersiva, podemos assistir a uma apresentação multimédia com 500 imagens de Jesus Cristo na arte. Foto © Ricardo Perna

Na sala imersiva, podemos assistir a uma apresentação multimédia com 500 imagens de Jesus Cristo na arte. Foto © Ricardo Perna

 

Intenção de vir a Lisboa para a JMJ

Nos primeiros dias, a exposição já foi visitada por milhares de pessoas que encheram filas para a ver. A intenção do comissário foi construir uma exposição “peregrina”, não itinerante, que possa percorrer o mundo nos próximos anos, para que mais pessoas tenham possibilidade de testemunhar este sentimento.

O primeiro ponto de paragem, depois de Salamanca, pode muito bem ser Lisboa. “Estaremos aqui até fevereiro, março, e depois veremos. Mas, por causa da Jornada Mundial da Juventude, gostaríamos muito que o próximo local fosse Lisboa. Ainda uma intenção, teremos de ver”, garante-nos fonte da Artisplendore, a empresa que montou todo o espaço e é parceira de Álvaro Blanco neste projeto.

Não há ainda planos ou expetativas de onde poderia estar, já que grande parte dos espaços religiosos estarão ocupados com as iniciativas da JMJ. Mas os organizadores estão no terreno e pretendem iniciar contactos com o Patriarcado de Lisboa em breve.

 

The Mistery Man
Preços:
Entrada geral: 12 euros; habitantes de Salamanca, maiores de 65 anos e estudantes até 25 anos: 10 euros; grupos com mais de 15 pessoas e pessoas com deficiência de mais de 30%: 10 euros; crianças: 6 euros; crianças até 7 anos e pessoas com deficiência de mais de 60%: gratuito.
Catedral de Salamanca; Segunda a sábado, das 10h às 20h; Domingos das 10h às 18h.
Até fevereiro (ou março) de 2023.
Mais informação aqui ou na página oficial da catedral de Salamanca.

 

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