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autores - Dália Fernandes

[Entre Margens]

O cristianismo sem ressurreição ainda é cristianismo?

| 23/04/2026

Não existe cristianismo sem a crença na ressurreição. Esta afirmação, que pode parecer evidente, constitui, na verdade, o ponto mais exigente e decisivo da fé cristã. Desde os seus primórdios, o movimento que viria a ser conhecido como cristianismo não se definiu, em primeiro lugar, por um sistema moral, uma doutrina estruturada ou uma instituição organizada, mas por um acontecimento: a convicção de que Jesus, morto na cruz, foi ressuscitado por Deus. Como afirma a Primeira Epístola aos Coríntios, “se Cristo não ressuscitou, então é vã a nossa pregação e é vã a vossa fé” (1 Cor 15,14).

Esta centralidade não é um desenvolvimento tardio, mas pertence ao núcleo mais antigo da tradição cristã. A pregação apostólica, tal como se pode reconstruir a partir das fontes do Novo Testamento, é surpreendentemente simples: Jesus morreu, Deus ressuscitou-o, e essa ressurreição inaugura uma nova possibilidade de vida. Antes de qualquer formulação dogmática ou sistema teológico, há um anúncio — breve, essencial, quase desarmante na sua simplicidade.

Benjamin Gerritsz Cuyp (1612–1652: O anjo abrindo o túmulo de Cristo. O túmulo aberto como sinal de que a morte não tem a última palavra. Museum of Fine Arts, Budapest / Wikimedia Commons

Essa simplicidade, porém, não se manteve imune à complexidade histórica. Desde cedo, o cristianismo teve de se pensar a si mesmo, organizar-se, responder a conflitos internos e externos, e definir os contornos da sua identidade. Nesse processo, inevitável e em muitos aspetos necessário, surgiram normas, estruturas e linguagens que procuravam preservar e transmitir a fé. No entanto, esse mesmo processo trouxe consigo uma tensão que atravessa toda a história do cristianismo: a tensão entre a leveza do Evangelho e o peso da religião.

Jesus, tal como o conhecemos pelas tradições evangélicas, não se apresentou como um reformador externo ao judaísmo, mas como alguém que falava a partir de dentro dele. É precisamente por isso que as suas críticas à religiosidade do seu tempo são tão incisivas. Nos evangelhos, encontramos uma denúncia recorrente de práticas que, em vez de aproximarem as pessoas de Deus, as sobrecarregavam: “atam fardos pesados e difíceis de suportar e põem-nos sobre os ombros dos outros, mas eles próprios não os querem mover nem com um dedo” (cf. Mt 23,4).

O problema, para Jesus, não é a Lei em si, mas o modo como ela pode ser utilizada: como instrumento de distinção, de controlo ou de autojustificação. A religião, quando se absolutiza, corre o risco de perder o seu próprio sentido. Em vez de abrir um caminho de relação com Deus e com os outros, transforma-se num sistema que pesa, exclui e, paradoxalmente, afasta daquilo que pretende servir.

Seria, contudo, historicamente incorreto imaginar que o cristianismo primitivo escapou completamente a essa dinâmica. Pelo contrário, desde muito cedo, a questão da norma e da prática se impôs com força. O chamado Concílio de Jerusalém, narrado em Atos 15, mostra que a comunidade cristã teve de decidir até que ponto os não-judeus deveriam ou não observar a Lei de Moisés. A decisão ali tomada — não impor a totalidade da Lei aos gentios — não elimina o problema, mas formaliza-o. A tensão permanece, agora sob novas formas.

Ao longo dos séculos, à medida que o cristianismo se expandia e se institucionalizava, esta tensão conheceu novas expressões. A definição de doutrinas, a elaboração de dogmas, a criação de estruturas de autoridade e a multiplicação de normas foram respostas históricas a desafios concretos: preservar a unidade, evitar desvios, garantir continuidade. Seria redutor ver nestes processos apenas uma traição ao Evangelho. Eles são também sinais da tentativa humana de dar forma, estabilidade e inteligibilidade a uma experiência fundadora.

E, no entanto, permanece a pergunta: em que momento a mediação se transforma em obstáculo? Quando é que aquilo que nasceu para servir a fé começa a obscurecê-la?

Fra Angelico, Noli Me Tangere

Fra Angelico (c.1395–1455, Noli Me Tangere (c. 1440).O encontro com o Ressuscitado no jardim, onde a ausência do túmulo se torna sinal de vida nova. Museu de São Marco, Florença. / Wikimedia Commons

A história do cristianismo mostra que esta linha é ténue. Em diferentes épocas, surgiram movimentos que procuraram recuperar a simplicidade original, frequentemente em tensão com as formas instituídas. A crítica à “religiosidade” — entendida como acumulação de práticas, normas e exigências desligadas do essencial — não é, por isso, um fenómeno recente, mas uma constante interna à própria tradição cristã.

Colocar esta questão no presente não implica um gesto de condenação, mas de discernimento. À luz das palavras e atitudes de Jesus, torna-se legítimo perguntar: que práticas religiosas hoje podem tornar-se fardos? Onde se exige aos outros aquilo que não se vive? Em que medida a preocupação com a norma pode obscurecer a centralidade do essencial?

Talvez a força do cristianismo não resida na complexidade das suas formulações, mas na persistência de um núcleo que resiste a todas as camadas históricas: a proclamação de que a morte não tem a última palavra e de que a vida, inaugurada na ressurreição, é oferecida como possibilidade real. Tudo o resto — instituições, doutrinas, práticas — encontra aí o seu sentido ou perde-o.

Regressar à ressurreição não é, portanto, um exercício de simplificação ingénua, mas um critério exigente. Obriga a reler a tradição, a questionar as formas adquiridas e a distinguir entre o essencial e o acessório. Nesse sentido, a pergunta permanece aberta e atual: será que o cristianismo continua a viver da leveza do Evangelho, ou corre o risco de se deixar definir, mais uma vez, pelo peso da religião?

 

Dália Fernandes é mestre e doutoranda em História e Cultura das Religiões pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e professora do ensino básico e secundário. Contacto: fernandes.daliasantos@gmail.com

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