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Papa entregou anel e barrete cardinalício a 21 novos cardeais, no consistório deste fim de semana. Foto © Vatican Media via Agência Ecclesia.

Com uma agenda enviesada

Setor conservador da Igreja Católica está a espiolhar vida dos cardeais “papáveis”

| 29/12/2024

Papa entregou anel e barrete cardinalício a 21 novos cardeais, no consistório deste fim de semana. Foto © Vatican Media via Agência Ecclesia.

Papa entregou anel e barrete cardinalício a 21 novos cardeais, no consistório de dezembro de 2024. Foto © Vatican Media via Agência Ecclesia.

Quem são os cardeais que poderão vir a ser eleitos Papa e que posições defendem sobre matérias “fraturantes”? Estas são as questões a que dois jornalistas que acompanham os assuntos do Vaticano acabam de responder, através de um site (para já apenas em inglês), disponível desde o último dia 12, na internet. O objetivo de The College of Cardinals Report é “facilitar a vida” aos purpurados eleitores que, em data imprevisível, se reunirão em conclave na Capela Sistina.

Fruto de uma aturada investigação, o site dispõe da possibilidade de consultas interativas, que permitem saber, na hora, qual a posição de um dado cardeal sobre um determinado assunto, de uma lista que foi pré-definida pelos autores. E quem são os cardeais? E que matérias figuram nessa lista temática?

Aqui começam os sinais de que há uma intencionalidade, mesmo um projeto ideológico, por detrás desta iniciativa. Desde logo a começar pelos jornalistas Edward Pentin e Diana Montagna, responsáveis pelo trabalho apresentado no site. Pentin, além de consultor e conferencista em temas relacionados com o Vaticano, trabalha para o conservador National Catholic Register. Diana Montagna nasceu nos Estados Unidos mas teve vários empregos já em Itália, tendo sido jornalista do site ultraconservador LifeSiteNews e sendo atualmente jornalista correspondente em Roma para o Catholic Herald, uma publicação igualmente conotada com os setores contestatários do Papa Francisco.

Ambos se movimentam em meios que, sem chegar ao extremo dos sedevacantistas, distanciam-se e combatem a orientação do pontificado do atual Papa, considerando que, com Francisco, a Igreja Católica vive um “tempo de escuridão”, decorrente do eclipse da luz do magistério dos dois pontificados anteriores e consequente confusão e ambiguidade doutrinal. Os tópicos sobre os quais os dois autores desenvolvem a sua inquirição ao currículo e, sobretudo, às declarações e escritos dos potenciais candidatos a Papa são, para eles, indicadores seguros que poderão influenciar as opções do conclave. 

Quem são e o que defendem os cardeais papabili? As respostas têm em conta o grau de adesão, discordância ou ambiguidade perante os seguintes temas: ordenação de mulheres como diáconos; bênção de casais do mesmo sexo; celibato opcional; restrição da antiga missa em latim; acordos secretos entre o Vaticano e a China; promoção de uma Igreja sinodal; foco nas mudanças climáticas; reavaliação da Humanae Vitae; comunhão para divorciados e recasados; e o Caminho Sinodal da Alemanha.

A lista carateriza-se por evidentes ênfases e óbvios silêncios, desde logo em tudo o que tem a ver com a doutrina social da Igreja (nomeadamente as desigualdades sociais; as transformações do mundo do trabalho; as migrações; a paz e a guerra; a indústria e comércio de armas; os discursos de ódio e a desinformação, entre outros), mas também o diálogo inter-religioso, o ecumenismo, a evangelização, etc.

Quanto aos nomes incluídos na lista dos potenciais candidatos, a questão que algumas análises tem levantado consiste em reduzir um processo complexo e frequentemente surpreendente a um mero jogo político, onde a dimensão espiritual parece ausente. Acresce que a lista inclui nomes (como o do cardeal Raymond Burke ou mesmo o do cardeal Robert Sarah) que, ainda que formalmente possíveis, estiveram envolvidos, cada um a seu modo, em comportamentos tais que só uma Igreja desassisada os poderia escolher. Outros purpurados já com os 80 anos ultrapassados figuram na lista, o que torna os seus nomes bastante improváveis.

Um motivo associado a este projeto relaciona-se com o facto de o Papa Francisco ter deixado de convocar o consistório dos cardeais para debater assuntos prementes da vida da Igreja, impedindo a formação de um verdadeiro “colégio”. A orientação de Bergoglio de escolher bispos das periferias e de dioceses improváveis, tornaria complicadas as decisões, se Francisco morresse ou renunciasse. Segundo Sandro Magister, um vaticanista particularmente crítico do Papa, a primeira e última vez em que houve debate vivo entre cardeais foi, pela primeira e última vez, em 2014 e não teria corrido bem para Francisco. Essas reuniões constituíam oportunidade para os purpurados se conhecerem melhor uns aos outros e, assim, estarem mais habilitados para uma eventual eleição. A revista Cardinalis, que surge agora associada à iniciativa de Pentin e Montagna, tal como a editora Sophia Institute Press, já tinha essas preocupações e fez capa e destacou, através de entrevistas, algumas das figuras mais conservadoras. 

Refira-se, finalmente, que este é um trabalho em permanente atualização. Supõe-se que os dois coordenadores que aparecem ligados ao produto final terão pessoas a trabalhar no sentido de reunir mais informação à já existente e introduzir novos cardeais eleitores na lista agora publicada. Recorde-se que não deve faltar financiamento para este fim. De facto, em 2018, vários meios de comunicação social que cobrem a atualidade da Igreja Católica anunciaram existir, nos Estados Unidos, a previsão de um fundo de um milhão de dólares para trabalhar precisamente nesta tarefa. Não encontramos informação de ligação direta entre o que agora foi publicado e essa intencionalidade de há anos, mas os círculos de pessoas e organizações se não são os mesmos, têm ligações e os objetivos são convergentes.

 

O “nosso” candidato: José Tolentino Mendonça

Cardeal Tolentino Mendonça: pesa a dúvida ou a ignorância sobre o posicionamento do português.

Na lista de algumas dezenas de cardeais que poderiam eventualmente vir a ser eleitos papa, o português Tolentino Mendonça, atual prefeito do Dicastério para a Cultura e Educação é apresentado como possível numa espécie de segunda linha. Isto é, caso não se verificassem, primeiro, outras escolhas. É interessante verificar que, nos itens considerados, pesa bastante a dúvida ou a ignorância sobre o posicionamento do português. Mas a apreciação qualitativa que dele é feita, na circunstanciada análise do seu percurso, aponta no sentido de que ele deve ser colado à ala dos que defendem uma linha de continuidade com o atual pontificado.

Em geral, há o reconhecimento de que, se se verificarem certas circunstâncias, ele pode ser um candidato forte. Sublinha-se a sua larga trajetória, que toca um leque significativo de vertentes, a sua ligação a África (viveu parte da infância em Angola) e a sua atitude geral de “evitar o confronto”. Sublinha-se que ele está muito próximo do atual Papa, que valoriza a sinodalidade como o futuro da Igreja, tal como Francisco. Ao mesmo tempo diz-se que ele possui competências de administração “bastante pobres”, desvaloriza-se a vertente poética, dizendo que ele é mais reconhecido pela sociedade do que pela Igreja. E conclui: “[A]pesar da sua relativa juventude, o seu estatuto papabili dentro do Colégio Cardinalício não deve ser subestimado. (…) Para os cardeais eleitores que desejam um candidato de continuidade, alguém certamente heterodoxo e modernista, talvez com um impulso revolucionário ainda maior do que Francisco, o cardeal português da Madeira poderia ser o seu candidato ideal”.

Pelo exemplo da “ficha” de Tolentino, pode imaginar-se que houve um verdadeiro trabalho de espiolhar a vida dos cardeais eleitores, incluindo o seu círculo de relações e os escritos, nomeadamente as entrevistas dadas. Essas fontes que, pelo menos neste caso, não são nomeadas, podem ter um papel decisivo quanto à visão que constroem de cada um dos homens do ‘barrete vermelho”.

Resta acrescentar que a lista dos eleitores inclui, naturalmente, fichas para os cardeais Manuel Clemente, António Marto e Américo Aguiar.

 

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O Papa Leão XIV proclamou, desde 10 de janeiro e até final deste ano, um ano jubilar assinalando os 800 anos da morte de Francisco de Assis, ocorrida em 3 de outubro de 1226 – a festa litúrgica é assinalada dia 4. Com esse pretexto, o 7MARGENS publica, até final do ano, nos dias 3 ou 4 de cada mês, uma série de dez textos da autoria de frei Isidro Lamelas, da Ordem dos Frades Menores, professor de Teologia. Este é o oitavo texto da série.

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