A história das religiões é inseparável da história das ideias, da organização comunitária e da construção dos parâmetros éticos. A forma como as religiões se estruturam impacta na forma como as sociedades se organizam e gerem.
Mas há também uma inquestionável simbiose entre a religião e a política. Retomemos, como exemplo, os tempos iniciais de uma Igreja que se institucionalizou por imposição imperial. Niceia foi fundamental para definir a base teológico e espiritual do cristianismo institucional, o Credo que orienta, mas resultou da imposição de um imperador em processo de conversão, que, perante o crescimento do número e influência dos cristãos, precisava de uma Igreja estruturalmente sólida, instrumentalizável, para pacificar e manter o império.
Esperança na vida da comunidade
Acreditando o crente cristão que a fé é um dom divino, é no mundo e com o mundo que ele a concretiza. A esperança cristã é, de resto, um conceito operacional, não é apenas a expectativa de uma vida depois da vida, é a concretização da vida na vida concreta da comunidade. Constrói-se a esperança na medida em que se leva alento onde este não existe, em que se acende uma luz nas sombras do desespero.
Sem esta esperança concretizada no dia-a-dia, no reconhecimento da dignidade de cada pessoa e na sua libertação pelo trilho do evangelho, não há como equacionar, na fé cristã, uma vida para além da existência que se conhece.
É aqui que trabalha a ética cristã, que Paulo descrevia numa ideia: “tudo me é lícito, mas nem tudo me convém”. É no domínio da humildade ética que se diz e se revela a fé cristã. Como diria Cortela, resumindo a ética paulina: há coisas que eu quero mas não faço, há coisas que eu faço mas não devo, há coisas que eu devo mas não quero. A ética cristã é esta boa tensão, o reconhecimento da importância da dúvida e da consciência, do debate entre o que se entende e o que não se entende, para definir a linha moral de atuação, o que é ou não é lícito, as barreiras do comportamento à luz do evangelho.
Caminhar juntos

“(…) também a Igreja caminha para uma sinodalidade de mais ampla participação.” Foto: Direitos reservados (https://www.synodresources.org/2546/)
Vem isto a propósito da sinodalidade, que é, segundo a tradição cristã, basicamente o exercício da ética levado às bases da reflexão comunitária.
Historicamente, podemos rever o conceito de “caminhar juntos” nos procedimentos de comunidades judaicas no tempo de Jesus de Nazaré. Se quisermos, até podemos ver a dinâmica sinodal na filosofia helénica que desenvolveu a democracia na polis. Na verdade, o conceito inicial de sinodalidade eclesial estará até mais próximo desta visão helénica elitista, em que só os predestinados escolhidos ou eleitos por escolhidos tinham voz e intervenção.
Tal como acontece com o aprofundamento da democracia, que evoluiu para o direito a todos terem voz e posição nos desígnios da comunidade, com capacidade de decisão, assim também a Igreja caminha para uma sinodalidade de mais ampla participação.
É evidente que há diferenças. Em democracia vale o direito de todos a ter voz e a participar, para, pragmaticamente, tomar decisões sob pretexto de maiorias com deveres legais. Na sinodalidade, que se propõe também como método de organização e decisão, qualquer escolha exige uma condição sem a qual não há decisão: o “voto” do Espírito.
O debate em âmbito sinodal, podendo ser democrático, supõe a escuta do outro, o respeito pela intuição do outro, mas – sine qua non – a escuta de Deus.
Sendo um método para iluminar decisões, a sinodalidade não exclui a democracia, mas esta depende do Espírito, que pode auxiliar o debate democrático e até revelar-se na decisão democrática.
Responsabilidade partilhada
Se, num processo de decisão à luz da fé cabe a capacidade de atuação do Espírito, podemos imaginar o contributo prático do mesmo método, fora de um contexto de fé?
Como diria Saramago, “se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.” Ao que, no circuito eclesial, se denomina sinodalidade, podemos chamar, dando-lhe uma grande angular… corresponsabilidade.
Na sinodalidade, o Espírito orienta o foco da análise humana. Na corresponsabilidade, é o sentido do bem comum, dos valores maiores da comunidade, que incute a responsabilidade partilhada.
No primeiro caso, a inclusão no processo é garantida por uma intuição iluminada pela fé. No segundo caso, esta inclusão tem uma intuição definitivamente ética – que pode ter matriz religiosa –, de uma cidadania participativa.
A intuição, quando se revela no campo do diálogo, ou do duálogo, como diria Panikkar – de igual para igual –, é mais do que acaso, é antevisão, vislumbre do discernimento, empoderamento da razão e da emoção.
Nos últimos anos conhecemos e convivemos com um inconformado intuitivo, capaz de, na análise e no discernimento, traduzir para hoje os ecos de um seguimento de Jesus que atravessou tempos e templos para ser sendo.
Processo sinodal: entre a criatividade e a incompreensão

“O método sinodal intuído por Francisco pode ser uma inspiração na revitalização do ato político, acrescentando à decisão democrática a oportunidade da escuta incondicional, do respeito por quem pensa diferente.” Foto: Papa Francisco saúda migrantes durante uma audiência na Praça de São Pedro, em 2018. © Vatican Media
Quando o papa Francisco relança e reforça na Igreja a dinâmica sinodal, está a responder a um problema eclesial, já analisado no segundo concílio do Vaticano, atualmente gravado por graves incoerências na estrutura, como a situação degradante do abuso sexual de menores – Francisco inseriu os abusos sexuais de menores no contexto de um inaceitável “clericalismo” promotor de um “abuso de consciência” –, por fraturas e divisões, aparentemente insanáveis na Igreja.
Conhecemos o percurso do processo sinodal, entre a criatividade e a incompreensão, o entusiasmo de gente empenhada e gente empenhada em travar a dinâmica, incapaz de entender a autoridade como ação de corresponsabilidade, a sinodalidade vai entrando num aquaplaning.
O método sinodal intuído por Francisco pode ser uma inspiração na revitalização do ato político, acrescentando à decisão democrática a oportunidade da escuta incondicional, do respeito por quem pensa diferente. É, em primeiro lugar, uma atitude, e podia representar um inesperado contributo de um Papa e dos cristãos num tempo de emergências relacionais e políticas.
Esta boa teimosia de Bergoglio – a sinodalidade – era e é mais do que uma intuição para a Igreja. Era e é sinal e proposta para um mundo de perplexidades, com lideranças polarizadas, formas de estar e governar que, pela deriva do populismo demagógico, da irracionalidade algorítmica e do individualismo, promovem o autoritarismo, a segregação e a beligerância.
Leão assumiu o desafio ao seu jeito. A análise do papa Prevost desenha como prioridades a “unidade” e a “paz desarmada e desarmante”, utopias que carecem ainda de novas intuições para novos processos.
Ninguém está excluído na construção da sociedade, somos em interdependência, como nenhum cristão católico pode ser excluído no andamento da Igreja, no devir do evangelho. Este é o princípio, que, apesar da água na fervura do entusiasmo, tem mantido clérigos e muitos leigos empenhados numa sinodalidade que dá alento à esperança cristã. É gente que entende o potencial da intuição de Bergoglio.
Joaquim Franco é investigador em Ciência das Religiões e jornalista.
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