O livro Um Retiro Bíblico nas Montanhas, da autoria de Manuel Nunes (edição Difusora Bíblica), constitui uma subida apaixonada à montanha; melhor: uma reflexão acerca de Deus e da negação de Deus, da Igreja, nas sombras e na luz, dos papéis das mulheres no seu interior e no mundo, representada como um retiro nas montanhas.
Logo na apresentação, o autor diz que escreveu o livro “não já a pensar em pessoas que se afastaram da Igreja, mas sim nas pessoas que permanecem dentro dela” (página 7). Mas tal não significa que não seja uma meditação inquieta. Aliás, a leitura recorda o texto misterioso do Génesis sobre a luta de Jacob com Deus, mencionada, aliás, no próprio livro.
Trata-se de uma reflexão em voz alta, perpassada por questões acerca do Sentido e acerca do caminho (muitas vezes pedregoso) para o alcançar. Melhor, o reconhecimento de que há sempre uma montanha mais alta, há sempre um enunciar de Deus que é incompleto, balbuciante. Só não o será para quem tem certezas e a fé não pertence ao reino das certezas racionais, mas sim à confiança de que nos encontramos na palma da mão de Deus e no Seu coração. Mesmo quando a subida dói, mesmo quando há espinhos, mesmo quando há obstáculos que deixam perplexos os próprios “alpinistas” – os cristãos à procura de Deus.
O livro está estruturado em duas partes e escrito como duas cartas enviadas a uma amiga a quem o autor (embora adote uma personagem feminina) descreve o que se passou num retiro no qual participou. A primeira parte debruça-se sobre “o Rosto feminino da Igreja”. A segunda, sobre “As ofensas ao nome de Deus”. Baseando-se numa releitura de Paulo à luz da exegese contemporânea, nomeadamente na interpretação da passagem da Carta aos Efésios em que se diz que, em Cristo, não há homem nem mulher, o autor conclui: “Então, se é assim, as mulheres contam mesmo! (…) Então, se é assim, mulheres e homens são igualmente responsáveis e corresponsáveis na Igreja. Em tudo! Não a fingir, mas a sério! Não só em algumas coisas, mas em todas!” (p. 37)
A segunda parte, ainda que o título possa parecer um pouco “tradicional”, de facto, constitui uma reflexão profunda, em diálogo com alguns teólogos tão díspares quanto Santo Anselmo ou Tomáš Halík, mas também com místicos (Etty Hillesum, por exemplo), teóricos do ateísmo, escritores portugueses e não só, físicos, nomeadamente, da física quântica. A perspetiva não é apologética. Procura-se uma reflexão viva em diálogo, por vezes, em disputa, com os autores e com os seus argumentos.
Manuel Nunes (na personagem de uma mulher) afirma, a dada altura, como o dom da fé “exige uma responsabilidade quase sempre insuportável” (página 147), mas permite, simultaneamente, “ver, viver e adormecer nos limites máximos (inimaginavelmente máximos) da Confiança, da Liberdade e do Amor”. E é com uma citação de Etty Hillesum referida pelo próprio autor que termino esta breve apresentação de um livro revelador de uma fé viva, inquieta e, simultaneamente, confiante na presença de Deus: “Dentro de mim, há um poço sem fundo. E lá dentro está Deus. Às vezes, consigo lá chegar. Mas acontece mais frequentemente haver pedras e cascalho no poço, e aí, Deus está soterrado. Então, é preciso desenterrá-lo. (…) Deus, pega-me pela mão (…). Mas dá-me de vez em quando um momento de sossego (…). Hei de acompanhar-te sempre guiada pela tua mão e tentarei não ter medo” (Diário de Etty Hillesum, 112; 139).
Mesmo para quem faz o percurso de subida da montanha, é preciso encontrar um lugar de descanso… um dia, nos braços de Deus.
Um Retiro Bíblico nas Montanhas
Autor: Manuel Nunes
Edição: Difusora Bíblica
198 páginas, 12,50 €
Teresa Toldy é professora universitária de Ética e teóloga; publicou Deus e a Palavra de Deus nas teologias feministas (Paulinas Editora).










