Divulgado documento da etapa continental do sínodo

Tensões, preocupações e pedidos de mudança unem católicos do mundo inteiro

| 27 Out 2022

grupo de redatores do documento para etapa continental do sinodo foto synod.va

Parte do grupo de peritos que redigiu o Documento de Trabalho da Etapa Continental do Sínodo.  Foto © synod.va

 

Foi publicado esta quinta-feira, 27, o Documento de Trabalho da Etapa Continental do Sínodo (DEC), que servirá de “quadro de referência” para os trabalhos da segunda etapa do caminho sinodal lançado pelo Papa Francisco em 2021. Nele, sobressaem tensões, questões e pedidos de mudança transversais aos fiéis de todos os continentes. Entre os principais motivos de preocupação estão a falta de participação dos “exilados da Igreja”, os contínuos problemas relacionados com escândalos de abusos (sexuais e não só), as disputas litúrgicas e o clericalismo.

Apesar disso, o documento, intitulado “Alarga o espaço da tua tenda” (expressão do Livro de Isaías, capítulo 54), começa em tom de entusiasmo: “o sínodo segue em frente”, lê-se na introdução do texto de 56 páginas, onde se sublinha que “a participação a nível global – nesta primeira etapa – foi superior a todas as expetativas”.

À Secretaria do Sínodo chegaram as sínteses “de 112 das 114 Conferências Episcopais e de todas as 15 Igrejas Orientais Católicas, às quais se juntam as reflexões de 17 dos 23 dicastérios da Cúria Romana, além das que vieram dos superiores religiosos, dos institutos de vida consagrada e sociedades de vida apostólica, e ainda de associações e movimentos de fiéis leigos, sublinha o DEC. A somar a estas, “chegaram mais de mil contributos de pessoas singulares e de grupos” e foram também recolhidas sugestões nas redes sociais, graças à iniciativa do “Sínodo digital”.

“Não faltaram, contudo, dificuldades, que as sínteses não escondem”, salvaguarda desde logo o documento. Entre elas, “o medo que a ênfase sobre a sinodalidade possa fazer pressão para a adoção no interior da Igreja de mecanismos e procedimentos impregnados do princípio da maioria de tipo democrático” ou “o ceticismo sobre a real eficácia ou intenção do processo sinodal”.

Numerosas sínteses mencionam “os medos e as resistências da parte do clero, mas também a passividade dos leigos, o seu temor a exprimir-se livremente e o cansaço de articular o papel dos pastores com a dinâmica sinodal”, refere o DEC.

 

“Uma ferida aberta”

crianca abuso infantil foto soupstock

“Há um forte senso de urgência para reconhecer o horror e os danos causados” pelos abusos cometidos por membros do clero. Foto: Direitos reservados. Foto © Soupstock.

 

Um obstáculo apresentado como “particularmente relevante” nesta primeira fase do caminho sinodal é o do “escândalo dos abusos cometidos por membros do clero ou de pessoas que desempenham um cargo eclesial”. Em primeiro lugar “e sobretudo” os abusos sobre menores e pessoas vulneráveis, mas também os de outro género (espirituais, sexuais, económicos, de autoridade, de consciência), especifica o DEC. “Trata-se de uma ferida aberta, que continua a infligir dor às vítimas e aos sobreviventes, às suas famílias e comunidades”.

Citando a síntese australiana (o documento refere várias vezes excertos de sínteses nacionais quando estas são representativas do que é expresso pela maioria), “há um forte senso de urgência para reconhecer o horror e os danos causados, e para aumentar os esforços a fim de proteger as pessoas vulneráveis, reparar os danos causados à autoridade moral da Igreja e reconstruir a confiança”.

Inúmeros grupos pediram, assim, “uma mudança cultural da Igreja, com vista a uma maior transparência, responsabilidade e corresponsabilidade”, indica o texto.

A generalidade das sínteses alertou também para a necessidade de incluir aqueles que muitas vezes se sentem excluídos na Igreja: as próprias vítimas de abusos, os divorciados recasados, os pais solteiros, os indivíduos LGBTQ, os homens que deixaram o sacerdócio, mas também os pobres, os idosos , indígenas e migrantes, entre outros.

Como refere a síntese dos Estados Unidos da América, “as pessoas pedem que a Igreja seja um refúgio para quem está ferido e caído, não uma instituição para os perfeitos. Querem que a Igreja encontre as pessoas onde quer que estejam, que caminhe com elas em vez de as julgar e construa relações reais por meio do cuidado e da autenticidade, não com sentido de superioridade”.

Prova dessa vontade é que, não obstante as diferenças culturais, “há notáveis semelhanças entre os vários continentes no respeitante àqueles que são considerados como excluídos, na sociedade e também na comunidade cristã”, refere o documento. Em muitos casos, a sua voz esteve ausente no processo sinodal, e “aparecem nas sínteses só porque outros falam deles, lamentando a exclusão”.

 

Permitir às mulheres participar mais plenamente

Cópia de mulheres religiosas alemanha ordenacao, Foto Direitos Reservados

Quanto à ordenação presbiteral para as mulheres, as posições são diversificadas: enquanto algumas sínteses a desejam, outras consideram que essa é uma questão fechada. Foto: Direitos Reservados.

 

O documento destacou também a necessidade de ouvir mais atentamente os jovens, integrar as pessoas com deficiência e dar às mulheres a possibilidade de “participar plenamente na vida da Igreja”. “De todos os continentes chega um apelo a fim de que as mulheres católicas sejam valorizadas acima de tudo como batizadas e membros do Povo de Deus com igual dignidade”, sublinha o texto. “É quase unânime a afirmação que as mulheres amam profundamente a Igreja, mas muitas sentem tristeza porque a sua vida não é bem compreendida, enquanto o seu contributo e os seus carismas não são sempre valorizados.”

Relativamente a este tema, o contributo da Terra Santa expressa bem o pensar e sentir comuns: “Numa Igreja em que quase todos os que tomam decisões são homens, há poucos espaços nos quais as mulheres possam fazer ouvir a própria voz. E constituem, contudo, a espinha dorsal das comunidades eclesiais, quer porque representam a maioria dos praticantes, quer porque são dos mais ativos membros da Igreja”.

A síntese continental conclui, assim, que a Igreja enfrenta atualmente “dois desafios relacionados entre si: as mulheres permanecem a maioria dos que frequentam a liturgia e participam nas atividades, sendo os homens uma minoria; contudo, a maior parte dos papéis de decisão e de governo são desempenhados por homens. É claro que a Igreja deve encontrar o modo de atrair os homens a uma pertença mais ativa na Igreja e permitir às mulheres participar mais plenamente em todos os níveis da vida da Igreja”.

Muitas sínteses pedem que a Igreja prossiga o discernimento sobre algumas questões específicas: papel ativo das mulheres nas estruturas de governo dos organismos eclesiais, possibilidade para as mulheres com adequada formação de pregar no âmbito paroquial, e diaconado feminino. Quanto à ordenação presbiteral para as mulheres, as posições são bastante mais diversificadas: enquanto algumas sínteses a desejam, outras consideram que essa é uma questão fechada.

 

Um “estilo sinodal” a vários níveis

A Assembleia Diocesana Pré Sinodal do Sínodo dos Bispos (2021-2023) decorreu no dia 14 de maio de 2022, no Centro Diocesano de Espiritualidade, no Turcifal foto patriarcado de lisboa

A “grandíssima maioria das sínteses” assinala também a necessidade de prever a formação para a própria sinodalidade, de modo a facilitar uma conversão sinodal no modo de exercitar a participação. Foto © Patriarcado de Lisboa.

 

São também muitas as sínteses que sublinham que não há sinodalidade completa sem unidade entre os cristãos. Esta começa com o apelo a uma comunhão mais estreita entre Igrejas de diferentes ritos, refere o DEC. Apesar de reconhecerem  que o diálogo ecuménico tem feito progressos desde o Concílio Vaticano II, “as sínteses pedem uma maior atenção às realidades que geram divisões, como por exemplo a questão da condivisão da Eucaristia”.

A “grandíssima maioria das sínteses” assinala também a necessidade de prever a formação para a própria sinodalidade, “de modo a facilitar uma conversão sinodal no modo de exercitar a participação, a autoridade e a liderança, em vista de uma mais eficaz realização da missão comum”.

E inúmeras sínteses “encorajam fortemente a prática de um estilo sinodal de celebração litúrgica”, que permita a participação ativa de todos os fiéis no acolhimento de todas as diferenças, na valorização de todos os ministérios e no reconhecimento de todos os carismas”. A escuta sinodal das Igrejas “regista muitas questões a enfrentar nesta direção”, como sejam “a reflexão sobre uma liturgia demasiado centrada no celebrante” e “as modalidades de participação ativa dos leigos”. A este respeito, a experiência das Igrejas regista também nós de conflito, que devem ser enfrentados de modo sinodal, “como o discernimento da relação com os ritos pré-conciliares”.

Curiosamente, a fraca qualidade das homilias é assinalada, quase unanimemente, como um problema: são desejadas “homilias mais profundas, centradas no Evangelho e nas leituras do dia, e não sobre política, que usem uma linguagem acessível e atraente e façam referência à vida dos fiéis”, diz o contributo da Igreja Maronita citado no DEC.

 

Não há conclusões, mas há três questões

Sínodo

Nesta etapa, serão realizadas assembleias em todos os sete continentes, e cada assembleia continental elaborará um documento final com base nas suas reflexões. Foto © Vatican Media.

 

Todas estas tensões que o caminho sinodal trouxe à superfície deverão ser exploradas “como fonte de energia sem que se tornem destrutivas”, defende o documento.  “Só assim será possível continuar a caminhar juntos, em vez de andar cada um pelo seu caminho.” Aprovado e traduzido em cinco línguas, o texto está disponível no site oficial do Sínodo e irá agora orientar a segunda etapa do caminho.

“Não se trata de um documento conclusivo, porque o processo está longe de estar terminado; não é um documento do Magistério da Igreja, nem o relatório de um inquérito sociológico; não oferece a formulação de indicações operativas, de metas e objetivos, nem a completa elaboração de uma visão teológica, embora nele abunde o tesouro ricamente teológico contido na narração da experiência da escuta da voz do Espírito por parte do Povo de Deus, permitindo fazer emergir o seu sensus fidei. Mas trata-se de um documento teológico também no sentido de estar orientado ao serviço da missão da Igreja”, salvaguarda a equipa que o redigiu.

O principal objetivo, para já, é oferecer às Igrejas locais “a oportunidade de escutar a voz de umas e de outras”. Esta segunda etapa, que agora se inicia, deverá concentrar-se, segundo o DEC, na reflexão sobre três questões essenciais, que citamos na íntegra:

  1. “Depois de ter lido o DEC em ambiente de oração, que intuições ecoam, de modo mais intenso, com as
    experiências e as realidades concretas da Igreja do vosso continente? Que experiências vos aparecem novas ou
    iluminadoras?”.
  2. “Depois de ter lido o DEC e fazer uma pausa em oração, que tensões ou divergências substanciais surgem como particularmente importantes na perspetiva do vosso continente? Consequentemente, quais são as questões ou
    interrogações que deveriam ser enfrentadas e tomadas em consideração nas próximas fases do processo?”.
  3. “Olhando para aquilo que emerge das duas perguntas precedentes, quais são as prioridades, os temas recorrentes e os apelos à ação que podem ser partilhados com outras Igrejas locais no mundo e discutidos durante a Primeira Sessão da Assembleia sinodal em outubro de 2023?”.

Nesta etapa, serão realizadas assembleias em todos os sete continentes, e cada assembleia continental elaborará um documento final com base nas suas reflexões. Os documentos finais das sete assembleias continentais servirão de base para a elaboração do Instrumentum Laboris (documento oficial de trabalho) para a etapa universal. Este deverá estar concluído até junho de 2023.

 

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