
O novo livro de Faggioli aborda, entre outros temas, a “receção interrompida” do Concílio, as fases dessa interrupção e a mudança que tem vindo a representar o pontificado do atual Papa. Foto: Direitos reservados
O que é uma Universidade que se diz católica? E qual o lugar que deve nela ter a Teologia? Que tendências se estão a desenhar nas últimas décadas? Estas e outras perguntas serviram ao leigo teólogo e historiador italiano Massimo Faggioli, para dar corpo a um estudo que acaba de ser publicado em livro, com o título Theology & Catholic Higher Education: Beyond Our Identity Crisis (Teologia e ensino superior católico: para além da nossa crise de identidade).
Importa referir que a realidade empírica de referência do autor é a multiplicidade de instituições universitárias católicas existentes nos Estados Unidos da América ou anglo-americanas, ainda que algumas questões de fundo possam interessar a docentes, investigadores, estudantes e outros interessados de diferentes contextos. Além disso, Faggioli estuda o que conhece bem, visto que há mais de década e meia vive e leciona nos Estados Unidos da América, no departamento de Teologia e Estudos Religiosos da Universidade de Villanova, nos arredores de Filadélfia.
Um marco na reflexão do autor é a chamada Declaração de Land o’Lakes, de 1967, inspirada pelos ventos do então recém-concluído Concílio Vaticano II, pela qual as universidades católicas afirmavam “uma verdadeira autonomia e liberdade académica face à autoridade de qualquer espécie, leiga ou clerical, externa à própria comunidade académica”, para poderem realizar adequadamente o seu ensino e investigação. A ‘declaração de autonomia’ foi tal que, nos anos seguintes, a maioria das faculdades e universidades católicas nos Estados Unidos abandonaram os seus laços com a Igreja Católica, atribuindo a conselhos de curadores independentes e a conselhos de administração a governação das respetivas instituições.
Este fenómeno causou alarme no Vaticano que, desde Paulo VI, procurou reverter esta tendência, o que só se materializou com o Papa João Paulo II, quem, no 12º ano do seu Pontificado, em 1990, fez publicar a constituição apostólica Ex corde ecclesiae, com o objetivo de fazer com que a hierarquia voltasse a definir a disciplina e a retomar o controlo das universidades católicas e, particularmente, das faculdades / departamentos de Teologia.
Ora, como escreve Massimo Faggioli na introdução ao seu livro, “no exato momento em que muitas faculdades e universidades católicas se libertaram da interferência episcopal, elas renderam-se alegremente à influência de doadores empresariais ansiosos por financiar projetos conservadores nos campi católicos — projetos que muitas vezes combinavam tradicionalismo teológico com ideologias económicas neoliberais ou libertárias”.
Desta forma, a Declaração de 1967 pode ter assegurado a autonomia face aos bispos, mas parece ter deixado que as instituições se entregassem, incapazes de resistir, “ao ataque de ideias e práticas tecnocráticas e orientadas para o mercado, que as escravizam novamente”.
Têm sido essas novas correntes que, nas últimas décadas, têm vindo, segundo o autor, a “marginalizar a teologia e as humanidades, sem as quais a teologia não pode ser desenvolvida”. O capítulo primeiro do novo livro de Faggioli é sobre essa crise da teologia que se debruça, ainda que alargue a análise a outros fatores.
O segundo capítulo aborda a “recepção interrompida” do Concílio, as fases dessa interrupção e a mudança que tem vindo a representar o pontificado do atual Papa, nomeadamente quanto ao que, segundo o National Catholic Reporter, chama “o fim da relação abertamente antagonista entre a teologia académica e a Cúria Romana”, mas considerando também que os teólogos “não foram convidados a desempenhar um papel significativo no processo sinodal”.
O capítulo terceiro intitula-se significativamente “Teologia na Universidade – uma convidada na sua própria casa”, sugerindo Faggioli a necessidade de uma nova “Declaração de Land o’Lakes” para o século XXI. No capítulo seguinte, a reflexão sobre o Ensino Superior Católico leva o teólogo para uma reflexão sobre “os seminários, os campi e os sínodos, perguntando que papel tem o ensino superior católico numa igreja sinodal, incluindo a formação ministerial.
Antes de terminar com um ponto de propostas para o futuro, este professor e investigador dedica o quinto capítulo à teologia católica virada para a sociedade, especificando três vertentes: para além da ecclesia, a universitas e a civitas.
Massimo Faggioli é provocativo quando escreve: “Agora, as universidades tornaram-se seminários de outra religião: seminários para a formação do alto clero do capitalismo e para as ordens menores da economia de serviços”.
Faggioli, M. (2024). Theology & Catholic Higher Education: Beyond Our Identity Crisis. Maryknoll, NY: Orbis Books.
A editora disponibiliza a Introdução e o índice.
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