Acabado de chegar a Fiumicino, liguei o telemóvel. Logo a primeira notícia: o Papa acabava de ser internado no Gemelli para exames médicos. Os eventos do Jubileu dos Artistas e do Mundo da Cultura com a presença do Santo Padre foram cancelados (audiência geral na Praça de S. Pedro na manhã de sábado e visita à Cinecittà segunda de manhã). Permaneciam outros que não exigiam a presença do Papa. Mantinha-se a celebração da eucaristia (na manhã de domingo), agora presidida pelo cardeal Tolentino. Pensei logo: falhando o «artista» principal, o Jubileu já não será o mesmo. E, de facto, faltou júbilo, festa pública, aquela alegria de estarmos juntos, na diversidade, que a presença do Papa assegura por si mesma.
«Roma, cidade aberta», recordando o filme de Rossellini, permite inesperados encontros. Jantando com amigos numa velha trattoria (taberna) romana, perto da Piazza Navona, na mesa ao lado estava também o conhecido ator italiano Toni Servillo que fez de Jep Gambardella em La Grande Bellezza, de Paolo Sorrentino, vencedor do Óscar para o melhor filme estrangeiro, em 2014. Discretas trocas de olhas, sorrisos tímidos, umas oblíquas fotos…
Quando se levantou da mesa, com coragem atrevida e terna alguém da nossa mesma lhe diz: «Lei è grande!». E toda a distância se quebrou. Houve celebração, reconhecimento, agradecimento. Toni Servillo não deixou de lamentar o facto do encontro do Papa com os artistas na Cinecittà, para o qual estava convidado, ter sido cancelado. O nosso sincero e comum pensamento convergia no desejo das melhoras rápidas do Papa. Assim foi o meu primeiro dia, as vésperas do Jubileu dos Artistas e do Mundo da Cultura.
Depois de uma passagem por livrarias, preparava-me para o primeiro momento do Jubileu: a abertura de um pequeno espaço expositivo (tipo montra) que convida o peregrino a reorientar, alargar e pousar o olhar: Conciliazione 5, assim chamada, ou Galeria Jubileu 2025. Nela estão expostos 27 retratos de pessoas da comunidade prisional romana Regina Coeli, ali mesmo ao lado do Vaticano, uma das mais lotadas de Itália, com elevada taxa de suicídios, onde a esperança é um sentimento difícil de conceber.

“Aqueles rostos «saem» da prisão, resgatados do seu silêncio e anonimato, e revelam-se ao nosso olhar.” Foto © António Martins
Presos, guardas, médicos, capelães, pessoas com rosto, cuja dignidade é maior do que os seus erros, ali se revelam diante do nosso olhar, interpelando-nos. Os retratos (aguarelas) são obras do retratista de origem chinesa Yan Pei-Ming. Já com a penumbra do entardecer, passando junto à prisão, ao subir a Lungotevere a caminho da Basílica de Santo Egídio para uma oração pela paz, pude ver os mesmos retratos, ampliados, luminosamente projetados na fachada. Aqueles rostos «saem» da prisão, resgatados do seu silêncio e anonimato, e revelam-se ao nosso olhar. «Por Detrás dos Muros», assim se chama a exposição, é o resultado de uma parceria entre o Dicastério para a Cultura e a Educação e o Sistema Prisional Italiano. A exposição anunciava já o apelo do Papa Francisco a uma criação artística que saiba «inclinar-se sobre as feridas do mundo».
Creio mesmo poder afirmar que o momento mais alto do Jubileu dos Artistas foi a homilia do Papa Francisco lida pelo cardeal Tolentino. Constituiu um forte apelo profético à missão dos artistas no tempo presente, marcado por tantas feridas, complexas crises e profundas inquietações. Também os artistas são chamados a ser «peregrinos da esperança»: Afirma o Papa: «O artista é aquele ou aquela que tem a função de ajudar a humanidade a não se desnortear, a não perder o horizonte da esperança». A verdadeira esperança entrelaça-se com o drama da existência humana; não ignora a dor da história; não oculta os gritos e as lágrimas da humanidade de hoje. «A arte autêntica é sempre encontro com o mistério, com a beleza que nos supera, com a dor que nos interpela, com a verdade que nos chama». E dirigindo-se diretamente aos artistas, interpela: «Queridos artistas, vejo em vós guardiães da beleza que sabe inclinar-se sobre as feridas do mundo, que sabe escutar o grito dos pobres, dos sofredores, dos feridos, dos presos, dos perseguidos, dos refugiados».

O cardeal português José Tolentino Mendonça a ler a homilia do Papa Francisco durante a celebração do Jubileu dos Artistas e do Mundo da Cultura. Foto © Vatican Media via Agência Ecclesia.
Domingo de manhã, com a pressa da concelebração em S. Pedro, atravessei a Porta Santa sem devoção nem comoção. Reservei para a noite a passagem solene, com tempo, sentida, integrado no Jubileu dos Artistas. O entardecer na Praça de S. Pedro é de impressionante beleza, quando a luz natural se vai apagando e o cenário da fachada e da colunada começa a surgir iluminado no contraste entre penumbra e luz. Beleza cenográfica, grandiosa e solene. A proposta de passagem da Porta Santa, no contexto do Jubileu dos Artistas, estava anunciada com extrema contenção, a indicar, precisamente, surpresa: «… percorrer um itinerário espiritual e cultural na Basílica». Mas não deixava de ser sugestivo o anúncio de uma «noite branca», trazendo à minha memória noites estivais algarvias. Juntei-me ao grupo dos peregrinos noturnos com altas expetativas e nenhumas certezas.
Entre luz e penumbra, com lentidão, passei comovido a Porta Santa, fazendo meu o antigo gesto que une peregrinos de todos os tempos. Atravessada a Porta foi o impacto com a escuridão. Um sentimento de estar perdido, inseguro, desorientado, enquanto o olhar não se fixava num ponto de luz. Passo a passo pelo escuro surge intensamente iluminada (talvez até demais…) a Pietà. Acompanha a contemplação da Pietà a audição em gregoriano das Lauda (poemas dedicados à Virgem), de Jacopone de Todi, um franciscano medieval contestatário do poder papal.
Éramos convidados a fazer uma experiência sensorial, cruzando visão e audição. Pouco a pouco íamos descobrindo colunas iluminadas, rostos e mãos de estátuas, asas de anjos esculpidos num túmulo, transfigurados por uma intensa luz azul. O projeto de iluminação do espaço interior da Basílica, com o seu traço cenográfico, foi encomendado ao diretor artístico de teatro Andrea Chiodi. Avanço pela nave principal, atraído pelo esplendor das monumentais obras de Lorenzo Bernini, o baldaquino e a cátedra de S. Pedro. Paro junto do local aonde se coloca o coro para as celebrações papais: o violoncelista Jacopo di Tono interpretava Bach num sóbrio e íntimo concerto, enchendo, com o seu magnetismo, a nave da basílica e o nosso ouvido.

“O esplendor das monumentais obras de Lorenzo Bernini, o baldaquino e a cátedra de S. Pedro…” Foto © António Martins.
Após o almoço de segunda, 17 de fevereiro, dirigi-me para a Praça Pio XII, 3, para o Dicastério para a Cultura e a Educação, onde decorreu o encontro de centros culturais católicos. Para este encontro, a Capela do Rato foi expressamente convidada pelos serviços do Dicastério, facto que nos honra e confirma a singularidade desta Comunidade.

“… asas de anjos esculpidos num túmulo, transfigurados por uma intensa luz azul…” Foto © António Martins
Dos cerca de 300 centros referenciados, estiveram representados 40 (de Itália, Malta, Hungria, India, Inglaterra, Austrália, Estados Unidos, México, Venezuela, Brasil …). De Portugal fomos a única presença. Nos três minutos de «direito de antena», tive oportunidade de partilhar a história de cultura democrática que tem marcado a Capela do Rato (e isso foi notícia no Vatican News e no Osservatore Romano); a prática de fecundo diálogo com a cultura contemporânea (as questões antropológicas da inteligência artificial, como fizemos este ano) e ser ponto de encontro de artistas, pensadores, escritores, poetas, atores, crentes e não crentes.
Na minha breve apresentação referi ainda desafios atuais a que os centros culturais católicos devem responder: «Promover, nos centros locais, oportunidades de livre debate com artistas, acolhendo as suas inquietações, interrogações e criatividade provocatória, pois a arte é um dos lugares por excelência de revelação da nossa comum humanidade; Escutar a voz de escritores e de pensadores sobre as grandes questões da atualidade, acolhendo o seu contributo para a leitura da complexidade dos sinais do nosso tempo».
O encontro de responsáveis dos centros culturais católicos começou com uma saudação de boas-vindas do cardeal Tolentino. Na sua intervenção, o prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação assinalou que os centros culturais católicos são lugares artesanais onde se tece a esperança no quotidiano da realidade concreta. Afirmou: «O nosso encontro no contexto do Jubileu da Cultura é um momento que o Dicastério para a Cultura e a educação considera necessário para relançar, aprofundar, sistematizar e clarificar o papel dos centros culturais católicos, que definimos “artesãos de esperança”». Contrapondo a dimensão artesanal à dimensão industrial, afirmou ainda o cardeal Tolentino: «Não existe um modelo industrial [de centro] a replicar do mesmo modo onde quer que seja, mas cada um, fundado em Cristo, procura tecer os fios do evangelho na vida quotidiana». Unifica todos os centros, em sua diversidade, o desejo de radicar esperança na cultura.

“… Colunas iluminadas, rostos e mãos de estátuas.” Foto © António Marujo
Coincidindo com o voo de regresso a Lisboa, tinha lugar o último momento do jubileu dos artistas, a abertura da exposição «Visual Poetry», com curadoria de Rafaella Perna, no interior do Dicastério para a Cultura e a Educação. Em seu experimentalismo de vanguarda, a poesia visual, desenvolvida no pós-guerra, procura dar expressão estética a essa antiga aliança entre palavra e imagem. Inspira-se na antiga tradição hebraica e islâmica com a sua arte caligráfica, sem esquecer os monges copistas medievais e a arte das iluminuras. Afirmando que não existe fronteira entre palavra e imagem, a poesia visual assinala que a palavra é, antes de mais, desenho. Nesta mostra de poesia visual destaca-se «A Via Sacra do Logos», obra do artista veneziano Carlo Pava (Giancarlo Pavanello). Artista poeta, agnóstico, praticante da grafia enfática, utiliza textos caligráficos em sua proposta de uma experiência verbo-visiva, simultaneamente inquietante e profundamente mística. As 15 telas de Carlo Pava, policromadas com formas abstratas, dão visualização às etapas da paixão do Logos (o Verbo), a partir de textos bíblicos.
Compreendidos no seu conjunto, os eventos que marcaram o Jubileu dos Artistas e do Mundo da Cultura testemunharam uma profunda coerência em sua proposta de concretização do magistério do Papa Francisco sobre a arte e a poesia, envolvendo artistas, poetas, curadores, com eficaz coordenação do Dicastério para a Cultura e a Educação. Apresentam-se também como inspiração para outros artistas e comunidades, desafiando novas criações, outras práticas possíveis, «pois a arte não é um luxo, mas uma necessidade do espírito». Sintetiza deste modo o padre António Spadaro, subsecretário do Dicastério para a Cultura e a Educação, a proposta prática deste jubileu, no texto que escreveu para L’Osservatore Romano: «Através da celebração da beleza e da criatividade, o Jubileu quis inspirar artistas, poetas e pensadores que saibam transformar o mundo com a forma da esperança.»
Este jubileu dos artistas e da cultura aconteceu, ao mesmo tempo, luminoso e sombrio. Luminoso, porque foi a oportunidade de dar forma estética ao magistério do Papa Francisco sobre a arte, a beleza, a poesia, convidando artistas e poetas a inclinar-se sobre as feridas da humanidade atual, dando rosto à esperança. Sombrio, pela hospitalização do Papa Francisco, cujo quadro clínico se agravava de dia para dia, em seu diagnóstico reservado, para apreensão de todos, mobilizando crentes e não crentes num comum desejo de melhoras, traduzido em correntes crescentes de oração e de compaixão. Na perplexidade das notícias quotidianas, perante a incerteza da política internacional, a esperança com que se espera a saúde do próprio Papa bem pode ser a parábola dos tempos que estamos todos a viver, aprender a «esperar contra toda a esperança».

A Via Sacra do Logos, de Carlo Pava. Imagem do Dicastério para a Cultura e Educação, da Santa Sé.
(Foto de destaque: 27 retratos de pessoas da comunidade prisional romana Regina Coeli, do retratista de origem chinesa Yan Pei-Ming. A prisão é uma das mais lotadas de Itália, com elevada taxa de suicídios, onde a esperança é um sentimento difícil de conceber.)
António Martins é padre católico e capelão da Capela de Nossa Senhora da Bonança (Capela do Rato), em Lisboa.










