Quando se tornam cada vez mais audíveis os discursos de medo em relação ao que é estrangeiro e diferente, há quem escolha uma narrativa mais discreta, mas não menos poderosa: a de construir vizinhança, hospitalidade e pontes entre pessoas de diferentes culturas e religiões. É neste contexto que mais de 40 pessoas de 13 países estão esta semana reunidas em Portugal para a 5ª cimeira anual da A World of Neighbours (Um Mundo de Vizinhos), uma rede internacional que agrega pessoas dedicadas ao acompanhamento de migrantes e refugiados e que assume o diálogo inter-religioso como parte essencial da sua identidade.
Organizada este ano com a colaboração da associação portuguesa MEERU, a cimeira, que tem estado a decorrer em Barcelos desde segunda-feira, 31, pretende ser um espaço de partilha, apoio e reflexão entre os membros da rede, mas também de encontro e diálogo com a comunidade local. Por isso, a iniciativa terminará esta quinta-feira, 3 de setembro, no Porto, com uma sessão aberta ao público.
Sob o mote que dá nome à rede, “Um mundo de vizinhos”, representantes das tradições cristã, judaica e islâmica irão sentar-se à mesma mesa e conversar sobre o que as suas perspetivas teológicas dizem acerca do estranho, da fronteira e do vizinho, a partir das suas experiências concretas de acolhimento e integração de pessoas migrantes. A conversa decorrerá no espaço A Porta, dos Missionários Redentoristas, com início às 18h30, e a entrada é livre, sem necessidade de inscrição.
Para Isabel Martins da Silva, cofundadora da MEERU, uma das características fundamentais desta rede passa precisamente pelo diálogo entre as diferentes religiões. “É uma escolha sermos uma narrativa que contraria o conflito religioso”, explica a responsável ao 7MARGENS, sublinhando que a rede procura testemunhar que é possível “caminharmos juntos, assumindo as diferenças de crença e procurando encontrar um caminho comum”.
A cimeira anual tem percorrido diferentes pontos da Europa. Depois da Grécia e da Polónia, onde os participantes estiveram próximos de zonas de fronteira particularmente marcadas pelas rotas migratórias e pelas políticas de controlo, a escolha de Portugal teve outra motivação: o país era visto dentro da rede como um exemplo de políticas de integração e havia interesse em conhecer de perto essa experiência.
“Nos últimos anos, o contexto social e político em Portugal tem mudado um bocadinho este paradigma de integração”, reconhece Isabel Martins da Silva. Ainda assim, a vontade de conhecer o país manteve-se e a MEERU, enquanto membro da rede, acabou por assumir a organização do encontro.
A cimeira em Portugal ganha particular significado perante a evolução do debate europeu sobre migrações. Para Isabel Martins da Silva, o crescimento dos discursos anti-imigração, a securitização das fronteiras e o aumento da islamofobia tornam especialmente importantes organizações como a A World of Neighbours. “Mais silenciosamente do que a gritaria da extrema-direita”, a rede procura “ir contando e construindo uma outra forma de entender as relações sociais, a vizinhança, a hospitalidade”, assinala. E num contexto cada vez mais difícil, considera Isabel, a possibilidade de reunir organizações, académicos, pessoas de diferentes tradições religiosas e pessoas com experiência migratória permite criar um “espaço seguro” de partilha e construção de soluções. “É bom para não nos sentirmos isolados e não começarmos nós próprios a ficar cansados e desgastados da missão que temos de acolhimento diário”, afirma.
Cozinhar, partilhar e conhecer o trabalho feito no terreno

A iniciativa incluiu um workshop de cozinha do mundo com mulheres migrantes e refugiadas acompanhadas pela MEERU. Foto © MEERU
Essa partilha não ficou pelas palavras: nos primeiros dias da cimeira, aconteceu também à mesa, na cozinha e no contacto com as comunidades locais. O programa começou com alguns momentos “mais internos” da rede, incluindo uma jornada de trabalho dedicada à apresentação de relatórios, eleições e organização da estrutura, mas também um workshop de cozinha do mundo com mulheres migrantes e refugiadas acompanhadas pela MEERU, oriundas da Síria, Tunísia e Marrocos.
O jantar, realizado depois da preparação conjunta da refeição, foi também uma oportunidade de partilha cultural com a comunidade local, incluindo a participação num festival de folclore organizado pelo município de Esposende. Houve ainda momentos de retiro, dedicados à reflexão inter-religiosa e à partilha de experiências e competências entre os participantes.
Esta quinta-feira, o programa desloca-se para o Porto, onde os membros da rede irão encontrar-se com diferentes organizações portuguesas para conhecer melhor o contexto nacional e o trabalho desenvolvido na área da integração de migrantes. Estão previstas visitas à Casa da Pertença, ao Centro Comunitário de São Cirilo e à Academia Amal da MEERU.
É a partir desta experiência concreta de encontro que se fará também a reflexão da sessão pública que encerrará a cimeira. Até porque o objetivo, sublinha Isabel Martins da Silva, não é fazer “uma discussão abstrata” sobre religião.
De resto, a proposta dirige-se a todos quantos, crentes ou não, se sentem “inquietos” perante os desafios colocados pela diversidade cultural e religiosa e pelo acolhimento do “outro” e do “estranho”. “Será uma boa conversa para que possamos construir algumas ideias”, para compreender que a fé e a religião podem ser um espaço de encontro” e que aquilo que poderia ser um lugar de conflito pode transformar-se “num local de pontes”, afirma a cofundadora da MEERU.
A sessão terá como moderador o padre Rui Santiago, dos Missionários Redentoristas, e terminará com um concerto de Rudi, artista que faz parte da rede A World of Neighbours. O músico desenvolveu o seu projeto musical em Lesbos, depois de ter atravessado o Mediterrâneo como migrante e permanecido naquela ilha, utilizando a música como forma de lidar com a experiência vivida e, posteriormente, de promover o encontro entre pessoas.
“Não podíamos deixar passar esta oportunidade de um encontro como este não poder ser alargado” a outras pessoas em Portugal interessadas no diálogo intercultural e inter-religioso, por isso “todos estão convidados a participar”, reitera Isabel Martins da Silva.
O local da cimeira de 2027 ainda não está definido, mas deverá levar os membros da rede “mais para leste”. Em Portugal, o encontro termina esta quinta-feira, mas durante o resto do ano a rede continuará a promover aquilo que aqui procurou construir: uma Europa onde o outro possa ser, antes de mais, um vizinho.










