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Zombie a usar smartphone. Foto Pressmaster
"A ironia trágica do tempo presente é que invertemos a fórmula: tornámo-nos vivos-mortos." Foto © Pressmaster

[Dicionário particular III]

‘z’ de zombie – um olhar sem verbo (e pelo meio duas sugestões de leitura)

| 05/08/2026

Olho em redor, não oiço conversas. Não vejo rostos, vejo nucas inclinadas sobre os ecrãs e olhares parados. As cidades são quase como um necrotério em movimento onde nos vamos cruzando sem nos tocarmos, nem olharmos, para não sentirmos as dores da rotina. Mas esta anestesia corta-nos a própria humanidade.

Na ficção, o zombie, o morto-vivo, é um corpo sem alma que caminha sem rumo, movendo-se por impulsos. É incapaz de memória, de remorso e de afeto. A ironia trágica do tempo presente é que invertemos a fórmula: tornámo-nos vivos-mortos. Temos um coração que bate, sangue a circular, mas o espírito foi ficando profundamente dormente. Consumimos informação, estímulos e imagens de desgraça, tudo para preencher o vazio da existência. Caminhamos em bando, respiramos, produzimos e consumimos, mas estamos cada vez mais desabitados por dentro.

O atual modo zombie é um perigo, e não é apenas pela apatia diária, é por se tornar um terreno fértil para um colapso democrático. Um cérebro anestesiado não questiona, não verifica, não tem dúvidas; consome desinformação com a passividade de quem assiste a entretenimento. E é nesta escuridão mental que o populismo e os discursos radicais ganham espaço, oferecendo respostas simples para problemas complexos, inventando culpados por conveniência e explorando o medo nas populações já emocionalmente exaustas. Nesta ausência de reflexão, as pessoas vão-se transformando em joguetes ideológicos prontos a aceitar barbaridades ou a repetir slogans extremistas em nome de uma falsa segurança e sem terem a mínima noção do veneno que vão destilando e espalhando.

Almada, 23 de julho. Um bebé foi deixado dentro de um carro e acabou por morrer. Não foi um monstro a planear um crime, foi a falha de um cérebro reduzido a uma peça de engrenagem, possivelmente triturado por horas de ponta, pela pressa, pela obsessão da produtividade. E a creche, atafulhada em processos burocráticos, ficheiros, folhas de presença e rotinas anestesiantes a cumprir, foi incapaz, também falhou. E quando as instituições falham a este nível, a sociedade começa a dar sinais de que está muito doente.

Os cegos de Saramago, no seu Ensaio sobre a Cegueira, arrastam-se pelo esgoto do manicómio em bando, desprovidos de nome e de pudor. Não são uma metáfora do passado, são o nosso espelho. “Se podes olhar, vê; se podes ver, repara”, escreveu o Nobel da literatura. Mas nós recusamo-nos a reparar. Preferimos a cegueira branca e higiénica que nos permite jantar em paz enquanto o mundo se desmorona.

Ceuta, 3 de agosto. O mar cospe corpos exaustos. Nós, incapazes da compaixão mais primária, a de nos pormos na pele de quem se atira à água, ignoramos a miséria real e a armadilha vil das redes sociais, que venderam a essas pessoas o sonho europeu em troca da própria vida. E o que faz o povinho no conforto do sofá? Abre a caixa de comentários e descarrega ódio nojento, sadismo visceral, contra quem não tem como se defender. Enquanto isso, a Europa das grandes declarações e discursos revela o que é verdadeiramente: uma aliança de cobardes! Contrariamente ao que se passou em 2020 com a Turquia de Erdogan, os governos europeus viraram as costas a um Estado-Membro e usam a desgraça alheia para somar votos no seu pequeno jogo político.

É A Desumanização de Valter Hugo Mãe e a transformação do homem despido da empatia até só restar a coisa, o peso, o número. “O inferno não são os outros (…) Eles são o paraíso, porque um homem sozinho é apenas um animal. A humanidade começa nos que te rodeiam, e não exatamente em ti.”

Desengane-se quem pensa que o fim do mundo vai ser anunciado por uma bomba nuclear. O fim do mundo já está a ser anunciado pela nossa absoluta incapacidade de sentir seja o que for.

Queremos continuar a aceitar como normal esta forma de caminhar pelo mundo: cegos, anestesiados e cruéis?

 

Júlia Costa é cristã na essência, católica por tradição. Ligada à paróquia da Amadora, na Pastoral Juvenil e na Promoção da Comunidade. Mãe de uma filha, avó de três netos. Profissionalmente na área da contabilidade, embrenhada em números, mas desde sempre fascinada pela palavra.

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