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[Entre Margens]

Um novo olhar sobre nós próprios e o mistério de Deus

| 16/04/2026

  “Um novo olhar sobre nós próprios e o Mistério de Deus:
Como a Artemis II pode alterar a nossa visão do ser humano, do universo e de Deus”. 

 

Ao reler alguns testemunhos dos tripulantes da missão Artemis II, nessa recente e épica viagem à volta da Lua, quase 54 anos depois da última missão tripulada do programa Apollo, em 1972, não deixei de me emocionar. A cerca de trezentos e vinte mil quilómetros de casa, os depoimentos recolhidos entre alguns astronautas continuam a emocionar-me, desde logo pelo espanto perante a visão do nosso planeta, a Terra, a partir do espaço.

Um dos testemunhos que mais me tocou foi o de Christina Koch que, ao reflectir sobre a observação do planeta através da janela da nave espacial Orion, o descreveu como pequeno e vulnerável no meio de uma imensa vastidão, conduzindo-nos a uma releitura antropológica e relacional da humanidade:  “A Terra é uma tripulação”, disse ela.

Terra vista do espaço. Artemis II

“Um novo olhar sobre nós próprios e o Mistério de Deus: Como a Artemis II pode alterar a nossa visão do ser humano, do universo e de Deus” Foto: A Setting Earth. © NASA (https://www.nasa.gov/image-detail/amf-art002e009289/)

Jeremy Hansen destacou igualmente a beleza e o forte impacto do que viram e sentiram, sublinhando a viagem como uma experiência profundamente humana. Entre todos, fez-se sentir também um profundo sentimento de gratidão, “grande de mais para caber dentro de uma só pessoa”, manifestado entre os tripulantes em gestos de abraço, cumplicidade, unidade e empatia, esbatendo-se, assim, as barreiras visíveis e os conflitos existentes no nosso planeta.

De facto, o fenómeno conhecido como Overview Effect é já amplamente reconhecido, desde que Frank White, em 1987, o descreveu como uma transformação cognitiva na forma como os astronautas percepcionam a Terra e o seu lugar no universo, gerando sentimentos de admiração, espanto, autotranscendência, dissolução de fronteiras e consciência da fragilidade do nosso planeta, incluindo uma mudança de identidade.

Gostaria de deixar aqui algumas breves reflexões sobre o que foi referido acima. A primeira, de natureza antropológica, retira-se do testemunho dos quatro tripulantes da Orion: o ser humano é um ser relacional, algo visível em todos eles — um grupo unido por um único propósito, marcado pelo sentido de sacrifício, responsabilidade e por um estado de graça partilhado. Este exemplo eleva o conceito de equipa e pode ser entendido como uma autêntica antropologia de comunhão. É particularmente interessante o depoimento do astronauta Hansen, que reforça essa visão ao afirmar que, ao olharmos para eles com profundidade, não vemos apenas um grupo de astronautas, mas um espelho que nos reflecte a nós próprios e à própria humanidade.

A outra reflexão importante prende-se com algumas expressões públicas de gratidão dirigidas a Deus, especialmente aquelas que revelam um profundo sentimento de reverência perante a imensidão do universo e a consciência de quão pequenos e frágeis somos. O saltério hebraico contém textos que exprimem essa mesma reverência e maravilhamento: “Quando contemplo os céus, obra das tuas mãos, a Lua e as estrelas que Tu criaste: que é o homem para que te lembres dele, o filho do homem para que com ele te preocupes?” (Salmo 8,4-5). O testemunho notável do astronauta Victor Glover vai ainda mais longe: no dia de Páscoa, ao reflectir sobre a criação de Deus, afirmou ter tido o privilégio e a oportunidade de adorar no espaço, contemplando a beleza da Criação — especialmente este incrível lar que é a Terra.

Não deixo de pensar em como estes testemunhos podem, de facto, desafiar-nos a novos olhares sobre nós mesmos e sobre o grande Mistério que é o nosso próprio Deus e a sua Criação. A missão Artemis II pode realmente alterar a nossa visão do universo e do Criador. Antes de mais, temos de reconhecer que a condição humana é marcada por limites bem reais, estabelecidos pelo próprio Deus: não existimos por nós mesmos, não dominamos o tempo, não vemos toda a realidade e dependemos uns dos outros para viver e crescer.

Olhando para a situação actual do nosso planeta, vemos um mundo em fortes convulsões políticas, sociais e económicas, com conflitos que resultam em guerras, dor e destruição. Como seria diferente se cada ser humano pudesse experimentar uma mudança drástica de perspectiva que o confrontasse com as suas fragilidades e com as do próprio planeta, levando a uma transformação profunda da consciência e da vida — aquela de que Jesus tanto nos fala e que conduz a uma vida radical de serviço e amor ao próximo, espelhando a imagem do Reino de Deus nas nossas vidas, nas comunidades e na humanidade em geral (cf. Marcos 10,45; João 13,34).

Mesmo muitos dos nossos discursos afirmativos acerca de Deus, como muito bem afirma o grande teólogo Wolfhart Pannenberg, devem ter sempre em conta a natureza provisória, histórica, limitada e relativa do nosso conhecimento: o ser humano nunca tem acesso directo e incontestado ao Deus infinitamente incompreensível, sendo rejeitada à partida a possibilidade de um conhecimento teológico infalível. Mas também observo como as nossas perspectivas limitadas, mesmo aquelas que eu próprio tenho acerca de Deus, podem mudar drasticamente quando confrontadas com o infinito e a grandeza do nosso universo. Talvez as nossas perspectivas teológicas tenham de ser igualmente transformadas: aqui, dentro destas caixas “fechadas” da nossa existência, pensamento, linguagem e sentimentos jamais podem abarcar esse Deus infinito e amoroso, que é Mistério, transcendente e, ao mesmo tempo, profundamente imanente, habitando em cada um de nós. Quanto mais reconheço o quão limitado sou, mais entendo que o nosso Deus não é concorrente da nossa humanidade, mas o seu próprio fundamento e plenitude. O nosso Deus não é, de facto, um absoluto impessoal, mas um Deus amoroso, cuja vida é igualmente dom e comunhão com cada um de nós.

Sim, a missão Artemis II pode levar-nos a repensar nós mesmos, o universo e o Criador, despertando uma espiritualidade concreta: reconhecer os limites sem cair no desespero, aceitar a fragilidade sem desistir, abrir-se ao Outro como espaço de verdade, aprender pela consciência da finitude a humildade, encontrar no Infinito de Deus inspiração para a confiança e a esperança.

Afinal, o ser humano realiza-se não ao querer abarcar tudo, mas na comunhão com Aquele que é maior do que tudo e, simultaneamente, mais íntimo do que o nosso próprio íntimo.

 

Vítor Rafael é doutorando em História e Cultura das Religiões pela FLUL – Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Investigador na Universidade Católica Portuguesa – Centro de Investigação em Teologia e Estudos da Religião. Email: vitor.rafael@edu.ulisboa.pt

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