
“A história ensina-nos que o conceito de paz tem sido, muitas vezes, interpretado de forma distorcida e limitada.” Pablo Picasso, Dança da Paz
“Não queremos nada além de paz”. Esta frase poderia ser proferida por qualquer líder mundial comprometido com a harmonia global. O problema é que foi dita por Adolf Hitler, um dos maiores responsáveis pela destruição e violência no século XX. Este exemplo extremo mostra-nos que, sem ações concretas, o discurso da paz pode ser facilmente manipulado e até esconder intenções sombrias.
A história ensina-nos que o conceito de paz tem sido, muitas vezes, interpretado de forma distorcida e limitada. Na antiguidade greco-romana, por exemplo, a paz era sinónimo de domínio. Quem pertencia ao povo vencedor beneficiava dessa ‘paz’; todos os outros estavam excluídos. Na Idade Média, a situação não foi muito diferente: aqueles que não partilhavam da fé dominante eram deixados de fora, rotulados como ameaças ou inimigos.
Mesmo com o surgimento do Iluminismo, que trouxe novas ideias e acordos para evitar guerras, a paz continuou a ser elitista e desigual. As populações colonizadas, por exemplo, não tiveram voz nem benefícios reais. Já na modernidade, após a Primeira Guerra Mundial, houve esforços genuínos para construir uma cultura de paz mais abrangente. Infelizmente, esses esforços foram rapidamente esmagados pela devastação da Segunda Guerra Mundial.
Nas últimas décadas, apesar de uma maior consciencialização global e da criação de movimentos populares pela paz, assistimos a um paradoxo preocupante: o mundo está cada vez mais militarizado e os conflitos, em vez de diminuírem, intensificam-se. O que nos leva a duas perguntas fundamentais: será que promover a paz significa apenas acabar com guerras? Ou será necessário algo mais profundo – uma mudança cultural que nos leve a repensar os valores e comportamentos que sustentam a violência?
Essas duas perguntas são, hoje, a base da perspetiva académica contemporânea dos Estudos da Paz, uma área que tem atraído cada vez mais investigadores e investimento. Contudo, para a comunidade científica, a paz permanece sem um fim à vista e, pior ainda, sem consenso sobre o seu verdadeiro significado ou sobre como poderá ser alcançada.
Abílio Almeida é doutorado em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho e investigador integrado do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade da mesma instituição. É autor do livro História do Riso (2022), resultante da sua investigação doutoral.
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