“O respeito pela liberdade, pela justiça e a procura do bem comum são os sólidos alicerces de qualquer sociedade. Para que estas vertentes colham realização, todos os cidadãos devem participar nos atos eleitorais”. O apelo vem da Comissão Arquidiocesana Justiça e Paz (CAJP), de Braga, num comunicado divulgado este fim de semana.
Com o título “O coração da política é a participação”, o comunicado lembra os 50 anos depois das primeiras eleições em liberdade, em Portugal (realizadas a 25 de abril de 1975) e, nas vésperas de eleições para a Assembleia da República, e convoca diversas abordagens do Papa Francisco relativamente à participação na vida social e política, com especial destaque para a encíclica Fratelli Tutti, sobre a Fraternidade e a Amizade Social.
A sugestão de que no coração da política está a participação é do recentemente falecido pontífice, por ocasião da 50.ª Semana Social, no dia 7 de julho de 2024, em Trieste, Itália. Nessa ocasião, Bergoglio propôs uma analogia entre uma democracia e “um coração curado”, dando exemplos tais como: a criação de espaço para pessoas com deficiência numa atividade económica; trabalhadores que renunciam a direitos próprios para que outros não sejam despedidos; “comunidades energéticas renováveis que promovem a ecologia integral, cuidando inclusive das famílias em pobreza energética”; criação de condições favoráveis à natalidade, o trabalho, a escola, os serviços educacionais, as casas acessíveis, a mobilidade para todos, a integração dos migrantes, por parte de administradores nas respetivas empresas, entre outras situações possíveis.
“É necessário – observa Francisco, na Fratelli Tutti – voltar a sentir que precisamos uns dos outros, que temos uma responsabilidade para com os outros e o mundo, que vale a pena sermos bons e honestos. Vivemos já muito tempo na degradação moral, baldando-nos à ética, à bondade, à fé, à honestidade; chegou o momento de reconhecer que esta alegre superficialidade de pouco nos serviu”.
“Uma tal destruição de todo o fundamento da vida social acaba por colocar-nos uns contra os outros na defesa dos próprios interesses, provoca o despertar de novas formas de violência e crueldade e impede o desenvolvimento de uma verdadeira cultura do cuidado do meio ambiente”, acrescenta o Papa no mesmo documento.
Voltando o seu olhar sobre a democracia enquanto regime e modo de organizar a vida social, Francisco apresentou o que designou por “coração ferido” de uma democracia em crise. Exemplos são a corrupção e a ilegalidade e as várias formas de exclusão social. “Cada vez que alguém é marginalizado, todo o corpo social sofre”, verificando-se que “a cultura do descarte traça uma cidade onde não há lugar para os pobres, os nascituros, as pessoas frágeis, os doentes, as crianças, as mulheres, os jovens, os idosos”, sublinha o Papa.
Por outro lado, o bispo de Roma que acaba de partir também alertou que a democracia não se circunscreve ao voto do povo, cuja abstenção eleitoral, de resto, aumenta.
É necessário — nota a CAJP citando o Papa — que, para além do apelo ao voto, se criem “as condições para que todos se possam expressar e participar. E a participação não se pode improvisar: aprende-se a partir da infância, da juventude, e deve ser ‘treinada’”. Por outro lado, e como pede o Papa, o sentido crítico deve ser aprofundado para que melhor se possa enfrentar as tentações populistas.
Os mais necessitados e os que vivem sem as condições mínimas requeridas para uma vida digna devem merecer a atenção primordial das políticas públicas, salienta também a Comissão Justiça e Paz de Braga.
Apoiada ainda em Francisco, aquela Comissão enfatiza o horizonte de esperança que, em inúmeras ocasiões, o Papa Francisco soube oferecer, propondo a “fraternidade”, que “faz florescer as relações sociais, em contraposição àquilo que se poderia designar por “um apagão do futuro”.
Para Francisco “é preciso ter coragem para pensar em si próprio como povo, não como eu, ou como o meu clã, a minha família, os meus amigos”. É que, como ele tinha escrito na encíclica Fratelli Tutti, “é muito difícil projetar algo de grande a longo prazo, se não se consegue torná-lo um sonho coletivo”. “Não tenhais medo de sonhar o futuro! Não nos deixemos enganar por soluções fáceis”, salienta Francisco, citado no comunicado.
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