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Viver é Cristo, morrer é lucro

| 22/04/2021

“A alma, embelezada pelo amor (tão mais pura quanto mais crê e mais espera), não é, de facto, compreensível. Porque é um sopro de Deus.” Foto © Mohamed Nohassi / Unsplash

 

Tantos milénios soma a humanidade e a morte continua envolta numa densa névoa, como se não fosse um dos poucos factos de que podemos estar certos enquanto vivemos, para os outros e para nós próprios.

Estranhamente, a morbidez escura e em surdina com que se vive o momento da morte e os que se lhe seguem alastra para todos os ambientes, incluindo os cristãos, como se não houvesse forma de contornar o politicamente correto negro de cara, veste e alma.

Mas há, há forma de mostrar a alegria da ressurreição quando morre um cristão, aquele que pôs em Cristo a razão da sua esperança.

A morte de alguém que amamos, para além da dor, pode-nos revelar a inopinada dimensão do dom. Damo-nos conta, por exemplo, que o ser tem a capacidade de tocar de forma diferente cada pessoa a que se doa. Trata-se de um brilho para além do que julgamos possuir, e cuja posse percebemos ser terrivelmente redutora, como um encapsulamento indevido de um ser maior.

Sermos criados à imagem e semelhança de Deus, nesse termo tão dito e tão pouco percebido, significa que à alma assiste essa centelha de infinito, de imortal, de eterno. Que a alma não é o nosso intelecto (apesar de gostarmos de achar isso), nem é a nossa vontade (que a maior parte das vezes é mais estorvo do que ajuda). A alma é participação de Deus, é o que Dele recebemos para Nele sermos eternamente.

A maravilha da nossa “cooperação” com Deus neste tempo de permeio é podermos percebê-Lo em nós e segui-Lo, num baile belíssimo onde apenas temos de nos render para Lhe dar lugar.

A alma, embelezada pelo amor (tão mais pura quanto mais crê e mais espera), não é, de facto, compreensível. Porque é um sopro de Deus.

A mania que temos de reter, de possuir, de achar que dominamos, é uma mania trágica e, essa sim, algo mórbida. Achar que possuímos alguém e agir em conformidade é matar o seu destino maior, que só Deus e ela própria podem conhecer.

Nos nossos preconceitos (às vezes até religiosos) andamos na vida como pequenos ou grandes tiranos das almas dos outros, a querer deles isto e aquilo, como se nos fosse devido. Fazemos violências horríveis até como pais e educadores, e cheios de pretensas boas intenções!

E, no entanto, o mais profundo amor pede a mais profunda liberdade. A alma é bem maior do que o que vemos da pessoa, a alma é de Deus.

Quando Deus chama uma alma amada caem as escamas dos olhos e a venda do coração. Podemos perceber quão bela ela era em tantas dimensões inopinadas, num caleidoscópio incrível que nunca conseguiremos abarcar.

E percebemos também o quão imenso é o seu ser no Ser, e de que forma estamos imersos nela e ela em nós, de forma tão nova, tão dinâmica, tão plena.

O tempo e a eternidade não são sequenciais. O tempo já está de alguma forma contido na eternidade, nós somos parte de um todo maior que coexiste e se faz presente, ou melhor, está efetivamente presente.

Nas nossas distrações infantis e tão adultas, empequenecemos o olhar, o rasgo e o coração. Paramos pouco para deixar que o Ser brinque em nós e faça de nós uma obra maior, tão acompanhada e tão cheia.

Adoramos possuir e em cada posse nos reduzimos, a nós e aos outros. E a cada posse nos tornamos escravos e escravizamos, nos desalmamos. E não deixamos ir. Nem deixamos morrer, que para um cristão é viver. É viver em Deus e Deus em nós nesse único vínculo que subsiste e que assim se fortalece.

 

Dina Matos Ferreira é consultora e docente universitária

 

Nota: “Viver é Cristo, morrer é lucro”, Carta de S. Paulo aos Filipenses 1:21

 

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