Sabe-se actualmente que a literatura tem o poder de usar a nossa imaginação para criar mundos possíveis, personagens, mitos e histórias que nos ajudam a expressar melhor aquilo que é difícil de dizer e a viver, de forma simbólica, muitas das questões éticas, políticas e religiosas que permeiam as nossas sociedades contemporâneas. Assim, o ‘imaginário literário’ pode ser o espaço onde projetamos os nossos desejos, medos e utopias, muitas vezes dialogando com — e até questionando — as ideias filosóficas e mesmo as teológicas que dominam a nossa sociedade. Tendo em conta que a teologia actual voltou a reconhecer que a imaginação é parte essencial da fé, da linguagem religiosa e da própria experiência de Deus, e que essa imaginação, não sendo fantasia, tem assim a capacidade de perceber e expressar, por meio de símbolos, mitos, histórias e metáforas, a presença de Deus no mundo, propus-me hoje recriar, pela minha própria imaginação, esse evento central da fé cristã que é o Natal.
Parti da seguinte questão: “E se Jesus tivesse hoje nascido algures na nossa actual sociedade ocidental?” A história que quero contar, seguramente já foi contada centenas, milhares ou mesmo milhões de vezes, das mais variadas maneiras em vários lugares e épocas, mas em contextos semelhantes. Imagino um cenário nos subúrbios de uma grande metrópole. Decorrente das grandes alterações climáticas que afetam o globo, uma tempestade cai repentinamente numa zona muito movimentada da cidade. Um pouco por todo o lado, ouve-se o frenesim e as sirenes dos carros de bombeiros e ambulâncias. Árvores e luminárias públicas são derrubadas, muitas ruas ficam subitamente alagadas. O trânsito colapsa, as pessoas correm de um lado para o outro procurando abrigo, ouvem-se várias cacofonias de palavras proferidas em várias línguas e dialectos. Maria e José, exaustos, recém-chegados àquela cidade – procurando esperançosamente um local e um emprego –, tinham acabado de descer de um dos últimos autocarros que ainda circulavam naquela noite fria, chuvosa e caótica.

‘O segurança dessa unidade, ao vê-los, disse-lhes: “Existe aqui perto um dormitório para pessoas em situação de sem-abrigo. Dirijam-se depressa para lá!”.’ Imagem retocada através da IA tendo como suporte um esboço a lápis
O local para onde esperavam ir, e que fora sugerido por uns amigos seus, estava totalmente inacessível e provavelmente lotado devido à situação catastrófica que se abatera naquela noite sobre a cidade. Encontraram um abrigo, mas porque estava lotado, foram transferidos para um outro, e assim andaram durante dias, transferidos de abrigo em abrigo, enrodilhados nos processos de acolhimento e de pedido de residência demasiado complexos. Não demorou muito até que Maria começasse a sentir as primeiras contracções, precisamente quando estavam à porta de uma unidade de saúde, entretanto fechada. A chuva não abrandava. O segurança dessa unidade, ao vê-los, disse-lhes: “Existe aqui perto um dormitório para pessoas em situação de sem-abrigo. Dirijam-se depressa para lá!”
O abrigo estava deveras lotado, mas os voluntários, já cansados, sobrecarregados, mas amáveis, agiram rapidamente. Numa das despensas da casa, instalaram o jovem casal, por não haver alternativa. Uma simples cortina foi colocada a tapá-la provisoriamente, a fim de garantir alguma privacidade ao casal recém-chegado. Uma das enfermeiras que estava de turno naquela noite, ajoelhou-se ao lado de Maria. Alguém teve a ideia de ali pendurar uma das luzes LED que estavam a enfeitar o refeitório, a fim de dar mais tranquilidade ao ambiente. Um dos sem-abrigo trouxe o seu próprio cobertor com que costumava pernoitar tantas vezes debaixo de um vão de escadas ali perto. Outro lembrou-se de usar uma das muitas caixas de cartão que estavam ali na despensa empilhadas para a reciclagem. Ali, no meio de muitas pessoas não desejáveis pela sociedade, num local inesperado com uma corografia nada parecida com aquelas que costumam adornar os postais de Natal, nasce um bebezinho.
O seu choro era ainda subtil, mas atraía, mesmo assim, a atenção de todos os presentes. Pouco a pouco, foram-se aproximando d’Ele muito silenciosa e reverentemente, atraídos, inexplicavelmente, por algo inominável. Uma das pessoas, que se debatia havia muitos anos com grandes problemas de adição, ofereceu-lhe o único agasalho que tinha. Uma mulher estrangeira com um filho ao colo e marcada pela vida de prostituição, trauteava uma canção de embalar, leves reminiscências da sua feliz infância perdida há muito. Um homem, ainda meio cambaleante da última garrafa de vinho que tinha ingerido, postava-se de guarda junto à cortina, todo orgulhoso e tentando proteger aquele bebezinho indefeso deitado naquela caixa de cartão. Nenhum deles sabia, certamente, a história extraordinária que estava a viver, e, no entanto, todos aqueles que presenciaram aqueles milagrosos momentos, de alguma maneira a pressentiram.

“Teria Jesus sido reconhecido, agora e aqui, nesta sociedade tão impregnada de consumismo e de imagéticas natalinas que nada têm a ver com aquele primeiro e humilde Natal de há dois mil anos?” Foto: rua de Braga em anos anteriores. © O Minho
Teria Jesus sido reconhecido, agora e aqui, nesta sociedade tão impregnada de consumismo e de imagéticas natalinas que nada têm a ver com aquele primeiro e humilde Natal de há dois mil anos? Teriam, inclusive, as próprias instituições religiosas reconhecido Aquele bebezinho nascido algures num local tão improvável, no mais improvável dos lugares da terra? Tenho a impressão de que Ele teria nascido no meio de uma família com habitação precária. Muito provavelmente seria alguém indocumentado, ou sem seguro de saúde, um total desconhecido. Estaria provavelmente rodeado de pessoas a quem a sociedade rotula de indesejáveis e culpa por muitos dos problemas que nela grassam. Questiono novamente: seria Ele reconhecido? Tenho a impressão de que não. Talvez reconhecido discretamente, sim, por alguém que vivesse nas margens da sociedade, por um imigrante pobre numa paragem duma estação ferroviária, por um segurança nocturno, por uma enfermeira que estivesse de serviço numa instituição social, por um toxicodependente a dormir na rua, por uma mãe prostituta e um alcoólatra que pernoitassem naquele mesmo abrigo naquela noite, pessoas que, apesar de tudo, tivessem ainda um coração capaz de albergar o Senhor do Universo feito carne.
Doutorando em História e Cultura das Religiões pela FLUL – Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Investigador na Universidade Católica Portuguesa – Centro de Investigação em Teologia e Estudos da Religião. Email: vitor.rafael@edu.ulisboa.pt
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