No princípio foram os sucessivos escândalos relacionados com os abusos sexuais no interior da Igreja alemã, que surgiram como abanão num quadro que já era de crise larvar. A partir daí, em 2019, os bispos e o Comité Central dos Católicos alemães decidiram lançar um “caminho sinodal” que fosse ao encontro das causas sistémicas dos abusos e do seu encobrimento e das medidas para as combater. Chegou a hora de avaliar o percurso feito e de perspetivar o futuro.
Na cidade de Estugarda, reúne-se, desde quinta-feira, 29, e até este sábado, aquela que é já a sexta Assembleia Sinodal, com a presença de 177 membros sinodais, 15 conselheiros, sete observadores e onze convidados. Pelo caminho, ficaram controvérsias e conquistas, um diálogo com o Vaticano que levantou vários problemas e exigiu clarificações, a começar pelo Papa Francisco; e uma minoria de bispos alemães que, em dado momento, se afastaram do processo.
Destacando o que considera um aspeto muito positivos destes seis anos de caminho, a presidente do Comité Central dos Católicos Alemães (ZdK), Irme Stetter-Karp, disse, no início dos trabalhos, que estava grata por tudo o que foi conquistado. Destacou, nomeadamente, “uma nova relação positiva entre bispos e leigos”, construída através de “debates honestos e uma luta apaixonada para encontrar o caminho certo”. “Testemunhamos uma mudança cultural nas nossas interações. Considero isso crucial”, acrescentou.

Georg Bätzing, presidente da Conferência Episcopal, pôs em evidência os numerosos textos aprovados nos últimos anos pelas assembleias sinodais, desde a questão do poder e a governação da vida das dioceses e das paróquias, o trabalho e estatuto do padre ou o papel da mulher na comunidade eclesial, os quais proporcionam, a seu ver “um importante impulso para diversas áreas da atividade da Igreja”. Foto © Weg Maximilian von Lachner / Caminho Sinodal
Por sua vez, o ainda presidente da Conferência Episcopal, o bispo Georg Bätzing (que anunciou ir deixar o cargo dentro de semanas), pôs em evidência os numerosos textos aprovados nos últimos anos pelas assembleias sinodais, desde a questão do poder e a governação da vida das dioceses e das paróquias, o trabalho e estatuto do padre ou o papel da mulher na comunidade eclesial, os quais proporcionam, a seu ver “um importante impulso para diversas áreas da atividade da Igreja”.
Um responsável do ZdK, Thomas Söding, que, além de ter sido ator importante no Caminho Sinodal, foi um dos participantes na assembleia do Sínodo sobre a Sinodalidade, em Roma, defendeu que os problemas abordados no percurso da Igreja alemã são “problemas globais para a Igreja Católica” no seu todo. Referiu, nomeadamente, a necessidade de maior participação e transparência; a falta de mecanismos de controle e equilíbrio; o excesso de clericalismo; a escassez de direitos para as mulheres e a grande exclusão com base na orientação sexual. Para Söding, os leigos não participam na vida da Igreja “apenas para aconselhar o clero – eles devem ser parte ativa do processo de tomada de decisões”.
De entre as decisões tomadas pelas assembleias sinodais anteriores, aquela que criou mais problemas e reticências do lado do Vaticano foi a criação de um Conselho Sinodal, um órgão nacional, participativo e com carater decisório, com réplicas em cada diocese, no qual os bispos não teriam a última palavra, como acontece atualmente. Esta foi a linha vermelha que levou várias vezes a Roma, nos últimos anos, uma delegação da Conferência Episcopal, para aturados diálogos com altos cargos da Cúria, entre os quais os prefeitos dos dicastérios dos Bispos e da Doutrina da Fé.
Um dos resultados desses diálogos foi a alteração da designação do órgão aprovado, de Conselho para Conferência Sinodal, mas mantendo-a, nas palavras de Bätzing, como um “instrumento”, com o qual ”bispos e leigos podem abordar conjuntamente os desafios essenciais que a Igreja enfrenta na Alemanha, a fim de desenvolver soluções sustentáveis”. Para o responsável eclesiástico, essa Conferência Sinodal permite também um “compromisso com o que está estabelecido no documento final do Sínodo Mundial”, “inteiramente no espírito que o Papa Francisco e o Papa Leão XIV pediram a toda a Igreja”.

6ª Assembleia Sinodal do Caminho Sinodal na Alemanha. Foto © Marko Orlovic / Caminho Sinodal
Se tudo correr como o previsto, essa Conferência iniciará os seus trabalhos no outono deste ano, tendo como agenda a concretização das decisões tomadas pelas várias assembleias do Caminho Sinodal. Mas a incerteza continua a pairar, já que um comité de 74 membros, saído da ultima dessas assembleias, aprovou, em novembro de 2025, os estatutos da Conferência Sinodal, mas a Conferência Episcopal Alemã, em que figuram alguns bispos que se demarcaram do caminho seguido, pretende abordá-los na sua próxima assembleia plenária, em fevereiro próximo (e na qual Bätzing terminará a sua presidência e será escolhido um novo líder).
O desafio que o episcopado tem pela frente não é pequeno: está maioritariamente solidário com o Caminho Sinodal, em que participou ativamente e cujas decisões fundamentais votou. Mas quer evitar, ao mesmo tempo, que sejam dados passos que ponham em causa a comunhão com Roma. Esta derradeira Assembleia Sinodal deixará, por certo, sinais importantes para o futuro.










