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Os autores do livro Miñan, Irmãozinho. Foto Meeru
"Este livro foi escrito com a voz de Ibrahima e com a mão de Amets Arzallus Antia." Foto © Meeru

Livro

Que fizemos dos nossos irmãos?

| 28/04/2026

Não foi fácil.

Defrontarmo-nos com Miñan é doloroso e desconcertante. Porém, partir do desconforto pode ser profundamente redentor se soubermos ver para lá das trevas, buscarmos a esperança para lá do fracasso e colocarmo-nos em movimento.

Este livro, pequeno no tamanho, mas enorme no que nos obriga a pensar, precisa de ser lido e relido, como aconselhava o Papa Francisco.

Partimos de Miñán, que significa “irmãozinho” na língua Pular, e logo isso torna este livro tão poderoso: ele fala-nos de migrações, de fronteiras, de sofrimento e de injustiça, mas no fundo fala-nos de algo muito simples e profundamente humano — a relação entre irmãos, num sentido estrito, mas também num sentido lato.

A história é real. Ibrahima Balde, a quem presto a minha homenagem e agradeço este testemunho corajoso e generoso, é um jovem da Guiné-Conacri, que descobre que o seu irmão mais novo desapareceu ao tentar seguir caminho para a Europa. Em vez de ficar parado, parte à sua procura. E essa procura leva-o a atravessar países, desertos, redes de tráfico humano, prisões clandestinas, fome, medo e violência.

Importa perceber que Ibrahima não parte por aventura. Não parte por ambição. Não parte por capricho. Parte porque ama alguém. Parte porque sente responsabilidade por alguém. Parte porque não consegue aceitar perder o seu irmão.

E isso deve levar-nos a olhar para esta história de outra forma.

Muitas vezes ouvimos falar de migrantes como números, fluxos, vagas, pressões, estatísticas ou problemas políticos. Este livro devolve-nos o essencial: antes de serem categorias, são pessoas. Antes de serem processos administrativos, são filhos, mães, pais, irmãos, irmãs, amigos. São seres humanos com laços, afetos, perdas e esperanças.

Uma das leituras mais importantes deste livro pode ser esta: muitos migrantes são “Peregrinos da Esperança”.

Um peregrino é alguém que caminha porque acredita que existe algures um lugar melhor, uma possibilidade, uma resposta, uma vida com mais dignidade. Não caminha porque o caminho é fácil. Caminha porque ficar parado seria pior.

No caso de Ibrahima, ele caminha porque acredita que ainda pode encontrar o irmão. Caminha porque acredita que ainda pode reparar algo que se partiu. Caminha porque acredita que ainda vale a pena procurar.

E aqui está uma grande lição para todos nós.

Vivemos num tempo em que muitas pessoas perdem a esperança depressa. Desistem depressa. Cansam-se depressa. Este livro mostra-nos pessoas que, mesmo depois da fome, da humilhação, do medo e da violência, continuam a procurar. Continuam a levantar-se. Continuam a tentar. E tentam recomeçar, mesmo quando a esperança motriz inicial se desvanece, ainda que passando pela estação do desespero transitório…

É notável que mesmo quando a esperança parece desaparecer, há quem encontre força para a procurar de novo.

Isso merece uma vénia silenciosa e profundamente respeitadora perante esta realidade de Ibrahima.

mapa MINAN

Mapa que representa o caminho percorrido por Ibrahima. Direitos reservados

O livro começa por mostrar uma verdade desconfortável: o equilíbrio humano é um fio muito fino. Uma família vive modestamente, mas vive. Há trabalho, escola, rotina, esperança. De repente, morre o pai, falta o dinheiro, quebra-se a proteção, desaparece um irmão, instala-se a doença, e tudo se desmorona. Quantas vidas dependem de um fio quase invisível? Quantas pessoas perante um acidente, uma guerra, uma doença, uma perda, correm o risco de cair no abismo? E, no entanto, ao lado dessa fragilidade, aparece outra realidade impressionante: a resistência humana quase inaudita. Pessoas que perderam quase tudo e continuam de pé. Pessoas que recomeçam sem garantias. Pessoas que sobrevivem onde pareceria impossível sobreviver.

Há depois uma outra dimensão que este livro nos obriga a encarar: a perplexidade perante a maldade humana. Ao longo da travessia surgem formas brutais de exploração que julgávamos pertencer apenas ao passado: pessoas vendidas como mercadoria, escravizadas, torturadas, humilhadas, usadas economicamente até ao limite e descartadas quando deixam de servir. São as sombras da humanidade. São momentos em que nos perguntamos como é possível um ser humano infligir tanto sofrimento a outro.

Mas, ao mesmo tempo, no meio dessa escuridão, aparece também o lado luminoso da condição humana: os que repartem água no deserto, os que ajudam um desconhecido a levantar-se, os que orientam o caminho, os que acolhem mesmo tendo pouco, os que abrem a porta quando tudo parece fechado. O livro mostra-nos que dentro da história humana convivem sempre sombra e luz — e que cada geração decide qual delas alimenta.

Ainda nos momentos perturbantes, há um excerto particularmente tocante. Ibrahima conta que, durante o dia, no mercado da Libéria, havia pessoas que sabiam o seu nome, que o chamavam, que lhe davam pequenas tarefas. Mas depois escreve: “À noite todos aqueles que sabiam o meu nome desapareciam e eu ficava sozinho. Então regressava à estação. Ali desmontava umas quantas caixas e fazia uma pequena cama para mim no chão. Na Libéria aprendi a dormir na rua.”

Que frase dura esta: aprendi a dormir na rua. Como se a rua fosse uma escola de sobrevivência. Como se a exclusão também ensinasse. E há aqui algo profundamente humano: durante o dia, alguém tem nome; à noite, volta a ser invisível. Quantas pessoas vivem assim entre breves momentos de reconhecimento e longas horas de abandono?

Outra dimensão muito forte deste livro que quero destacar é a ética do cuidado.

Ao longo da narrativa, percebemos que Ibrahima não vive centrado apenas em si próprio. Preocupa-se com a mãe doente. Carrega-a às costas até ao hospital. Preocupa-se com os irmãos. Trabalha para ajudar. Procura o mais novo. Sobrevive porque também encontra pessoas que o ajudam em momentos decisivos.

Isto lembra-nos algo importante: o mundo não se sustenta apenas com leis, mercados ou instituições. Sustenta-se também com gestos concretos de cuidado. Com pessoas que ajudam outras pessoas. Com quem dá de comer. Com quem acolhe. Com quem escuta. Com quem não vira a cara.

Por isso, este livro também é um convite à fraternidade humana, título e inspiração da famosa declaração subscrita em 2019 pelo Papa Francisco e pelo Grande Imã Almad Al Tayyeb, nos Emiratos Árabes Unidos.

Fraternidade significa reconhecer que a vida do outro me diz respeito. Que eu não sou indiferente ao sofrimento alheio. Que não posso viver fechado apenas no meu conforto enquanto outros atravessam o desespero. Fraternidade diz respeito à nossa condição de irmãos e à pergunta: que fizemos dos nossos irmãos?

O irmão perdido de Ibrahima representa, de certa forma, todos os irmãos perdidos do nosso tempo: o migrante que atravessa o mar, a criança desacompanhada, a pessoa sem-abrigo, o idoso esquecido, o jovem invisível, quem sofre sozinho. Por isso, nós deveríamos ser Ibrahima, não desistindo de procurar os nossos irmãos.

Talvez possamos traduzir a resposta a esta pergunta numa imagem simples: precisamos de saber defender e construir uma mesa com lugar para todos. Uma sociedade justa não é aquela em que alguns se sentam em abundância enquanto outros ficam à porta. É aquela que alarga a mesa, acrescenta cadeiras, reparte o pão e reconhece dignidade a cada pessoa. A mesa comum simboliza pertença, encontro e humanidade partilhada. Todos sabemos como muda uma vida quando alguém nos diz: “Senta-te connosco.”

Livro Miñan, irmãozinho. Foto Meeru

Miñan começa por mostrar uma verdade desconfortável: o equilíbrio humano é um fio muito fino. Foto © Meeru

Regresso ao livro.

Em Miñan surge uma expressão carregada de significado: cantar boza. Entre migrantes, “boza” é o grito de alegria quando a travessia resulta, quando se consegue passar, quando se chega vivo ao outro lado. Cantar boza é celebrar a sobrevivência. É agradecer ter escapado. É afirmar vida depois do risco de morte. Que mundo é este onde atravessar vivo já é motivo de festa? E, ao mesmo tempo, que extraordinária força humana existe em quem ainda consegue cantar depois de tudo o que sofreu?

Este livro também interpela a Europa e todos nós.

Se milhares de pessoas precisam de atravessar desertos, máfias, campos clandestinos e risco de morte para procurar segurança ou futuro, então não estamos apenas perante dramas individuais. Estamos perante falhas colectivas.

Falhámos quando normalizámos o sofrimento.

Falhámos quando discutimos números e esquecemos nomes.

Falhámos quando falamos de controlo e esquecemos a humanidade.

Mas este livro deixa-nos, finalmente, outra lição preciosa: ninguém se conta sozinho. Este livro foi escrito com a voz de Ibrahima e com a mão de Amets Arzallus Antia. Há aqui uma imagem belíssima. Precisamos de ser, tantas vezes, a mão que escreve de quem não pode escrever. Precisamos de ser a voz de quem não consegue ser ouvido. Precisamos de usar privilégios, não para nos fecharmos, mas para abrir caminhos. Obrigado Amets por nos mostrar o que podemos ser.

Esta obra ensina-nos que cada pessoa pode transportar uma história invisível. Que nunca sabemos tudo sobre quem temos à frente. Ensina-nos que o amor pode mover mais do que o interesse. Ensina-nos que continuar, mesmo cansado, é uma forma de coragem. Ensina-nos que cuidar não é fraqueza — é força moral.

E, acima de tudo, recorda-nos uma pergunta antiga e sempre atual: “Onde está o teu irmão?”, pergunta que, no Genesis, é a segunda depois da pergunta fundante “Onde estás?”.

Estas são perguntas dirigidas à consciência humana.

Que fizemos dos que fogem da guerra?

Que fizemos dos que chegam sozinhos?

Que fizemos dos que vivem ao nosso lado e ninguém vê?

Que fizemos dos que sofrem sem voz?

Ibrahima atravessa lonjuras à procura do seu irmão.

E nós?

Talvez o maior desafio deste livro seja este: não ficarmos espectadores. Não lermos apenas com emoção momentânea. Não fecharmos o livro e seguirmos iguais. Fazermos como a Isabel e o Pedro que, com a Meeru – e antes dela – dão corpo ao melhor da humanidade em movimento, na expressão concreta do amor feito serviço e do serviço transformado em Amor.

Esse é o desafio.

Porque há livros que se lêem para desfrutar ou para pensar.

E há livros que se lêem para agir. Para nos colocar em movimento.

Miñán é um desses livros.

 

Miñán – Irmãozinho
Autores: Ibrahima Balde e Amets Arzallus Antia
Tradução de Jorge Melícias
Edição: Flâneur e Associação para o Desenvolvimento Meeru/Abrir Caminho
Março de 2026, 148 páginas, 16 €

 

O livro pode ser encomendado na página da edição, através da Meeru/Abrir Caminho (pelo e-mail abrircaminho@meeru.org) ou na Livraria Flâneur.

 

Este texto foi lido durante a sessão de apresentação da edição portuguesa do livro, que decorreu no passado dia 20 de abril, em Braga, e é aqui reproduzido com autorização do autor.

 

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