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autores - Alexandre Freire Duarte

[Entre Margens]

Queremos mesmo viver a amar o “Pai Nosso”?

 

Este texto é uma reflexão, mais inquietantemente sapiencial do que cronística, decorrente de uma exposição que inesperadamente me vi a fazer, há alguns meses. Não tinha pensado falar nela, nunca pensara nela de modo organizado, mas a forma como sobreveio à minha mente e ao meu discurso na referida ocasião mostrou que era algo que ardia dentro de mim.

Muitos dos leitores destas palavras rezarão o “Pai Nosso”, mas saberão que não basta pronunciar o mesmo, mas vivê-lo na lógica do amor? E quererão fazê-lo? Desconfio que não. Se não, vejamos. 

  • Queremos mesmo ter como Pai a Deus, implicando isto, imediatamente, termos uma atitude de responsabilidade adulta para com Ele e os demais que, pela fé em Jesus e pela sua condição de necessitados, são nossos irmãos jamais eleitos por nós?

 

  • Queremos mesmo que as nossas pessoas e ações glorifiquem em tudo, não a nós, mas a Deus, para, desse modo, expressarem que Ele é Aquele tesouro que Se distingue de nós para nos poder amar e, assim, permitir-nos unir a Si sem fusão?

 

  • Queremos mesmo que venha até nós o Seu Espírito Santo reinar (governar), pelo amor, nos nossos corações, para,  com Ele, renovarmos a face da Terra, vivendo o poder como uma rejeição frontal de toda a força que não seja aquela de a todos servirmos?

 

  • Queremos mesmo fazer a, e viver da vontade de Deus e não exigir-Lhe que faça a nossa? Aceitamos que Ele tenha uma vontade objetiva comum para todos nós (comungarmos na Sua vida), e que, com Ele, os demais e as circunstâncias das nossas vidas, temos que construir uma Sua vontade subjetiva que é única de pessoa para pessoa (o vivermos onde amarmos mais, melhor, de modo mais alegre e belo)?

 

  • Queremos mesmo viver essas vontades como quando viermos a viver plenamente n’Ele; isto é: quando viermos a viver no seio da suma Pobreza em que não teremos consciência de quem somos senão no ato de nos darmos e acolhermos a todos, numa universalidade que é o que nos insere na humanidade gloriosa do Senhor Jesus?

 

  • Queremos mesmo viver, no seio da comunidade fraterna, com um mínimo de segurança para um máximo de generosidade, que outra coisa não é do que negarmos o nosso fátuo egoísmo e vivermos à sombra da sólida inconstância da Cruz de Jesus, servindo inclusive a quem atua como nosso inimigo?

 

  • Queremos mesmo viver a perdoar para que o sempre prévio perdão de Deus (acolhido no arrependimento paciente), se torne fecundo em nós, com a implicação imediata de termos que abdicar da ilógica ideia de que temos o direito a não sermos ofendidos?

 

  • Queremos mesmo que Deus não leve a nossa vida a um tal ponto em que não O queiramos tentar ou pôr à prova, impedindo-nos, sem violar o nosso livre-arbítrio, de cairmos em alguma forma de idolatria (sendo a auto-idolatria a mais grave de todas) que impeça a Deus de ser o único Deus?

 

  • Queremos mesmo que sejamos livres do mal, quando, se pecamos, só o fazemos porque amamos mais a esse pecado do que a Deus, mostrando, imediatamente e por consequência, que estimamos mais ao mal do que a Ele?

James Tissot, Pai Nosso, Arte, Pintura

James Tissot, Pai Nosso, A Oração do Senhor. (1886-1894). Aguarela opaca sobre grafite em papel cinza. Brooklyn Museum

Não sei, na verdade, se haverá alguém, que se estima discípulo de Jesus, que queira uma destas realidades presentes nesta oração trinitária, e, por conseguinte, todas elas. Não sei se é duro dizer isto, mas é triste constatá-lo. É doloroso admiti-lo; admitir que de seguidores de Jesus pouco ou nada temos; admitir que o nosso desígnio  de vida (a nível eclesial e individual) se aparta tão flagrantemente do desígnio de Deus. Os tonitruantes problemas eclesiais não se comparam ao que acabo de afirmar deste silencioso problema que impede que os demais digam de nós, não só algo como “vede como se amam”, mas, sobretudo, “vede como nos amam”. Que nos impede de sermos quiçá o único evangelho com que a maior parte das pessoas irá contactar, bloqueando, dessa maneira, uma já rarefeita possibilidade de acolherem a maravilha de Deus ser Amor.

 

Alexandre Freire Duarte é formado em Teologia Espiritual e em Teologia Mística pela Universidad Pontificia Comillas, Madrid, centro de ensino onde realizou o doutoramento em Teologia sobre François Fénelon. É investigador e docente em Teologia.

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