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Deslocados em Cabo Delgado, Moçambique. Foto Fundação AIS
A perspetiva é de fome tanto nos assentamentos como nas aldeias atacadas, a que alguns tentam regressar. Foto © ACN

Cabo Delgado, Moçambique

Bispo de Pemba alerta: crise humanitária agrava-se e ajuda está a diminuir

| 27/07/2026

“Este ano, janeiro e fevereiro foram os meses mais trágicos, com uma série de ataques na parte leste do distrito de Chiure, onde 18 igrejas católicas foram destruídas em 18 aldeias. Houve mortes e muitas pessoas foram forçadas a deslocar-se, aumentando o número de deslocados internos, que já chegou a um milhão desde o início desta instabilidade militar em 2017”.

A descrição desta crise humanitária é feita pelo bispo de Pemba, António Juliasse Ferreira, diocese situada na província de Cabo Delgado, no norte de Moçambique, considerada a região mais pobre do país.  O prelado exerce ali a função de pastor desde março de 2022, tendo sucedido ao bispo Luiz Fernando Lisboa, e as suas declarações vieram a público numa entrevista dada à Rivista Africa, de Itália, e reproduzida pelo site Settimana News.

Os combatentes jihadistas ligados ao Estado Islâmico tinham aparentemente sido derrotados pela intervenção coordenada de tropas do Ruanda, da África do Sul e de Moçambique. Mas de súbito os ataques foram retomados, em levas sucessivas, rompendo a paz que se julgava conquistada, nas comunidades, aldeias e cidades. Um ataque importante ocorreu em 10 de maio, quando jihadistas invadiram a capital do distrito de Macomia, causando mortes, destruição e saques generalizados a empresas e organizações não governamentais.

Esta é uma situação que se repete desde há quase dez anos, massacrando e aterrorizando as populações e destruindo bens e culturas.

Para o bispo de Pemba, esta guerra tem motivações complexas. O prelado sublinha, entre elas, além do terrorismo do ISIS, a pobreza das pessoas, e a apropriação ilícita de recursos naturais e minerais por parte de multinacionais. A estes fatores, António Juliasse junta ainda “a corrupção de certas figuras no poder que buscam enriquecimento rápido através do tráfico de drogas, tráfico de seres humanos e de outras atividades ilícitas”.

Face à violência e ao terror de que é vítima, a população encontra-se em situação de grande vulnerabilidade e impossibilidade de defesa, vendo-se obrigada a cooperar com os invasores, quando não tem para onde fugir. “Os jihadistas por vezes pedem apoio às comunidades islâmicas, mas a sua cooperação baseia-se mais no medo do que num compromisso convicto com os ideais dos fundamentalistas”, observa o prelado.

Há muitos “campos de reassentamento” para deslocados internos que se confrontam com falta de condições, agravadas pelas vicissitudes das colheitas, como as deste ano, que não foram suficientes. A perspetiva, por conseguinte, é de fome tanto nos assentamentos como nas aldeias atacadas, a que alguns tentam regressar.

Segundo o responsável religioso, a esta crise humanitária soma-se a carência de medicamentos e de apoio educacional. “As organizações que prestavam apoio psicossocial e proteção a pessoas vulneráveis ​​ficaram sem verba e estão a abandonar as suas atividades”, havendo o receio de que “problemas relacionados com a violação dos direitos humanos, especialmente contra mulheres e crianças, se agravem novamente entre os deslocados internos”, explica o entrevistado.

A Cáritas diocesana de Pemba, bem como o setor de emergência da diocese, e por meio do envolvimento direto de missionários nas paróquias, têm procurado responder aos apelos de ajuda das populações, tendo estes serviços da Igreja Católica atendido mais de 250 mil pessoas necessitadas, segundo o cálculo do bispo António Juliasse. Contudo, faz notar, desde que os média voltaram os seus focos de atenção para a guerra na Ucrânia e no Médio Oriente, “o nosso problema ficou em segundo plano e a ajuda já não está a chegar como antes. E sem ajuda, a Igreja sofre por não poder auxiliar outras vítimas dos ataques jihadistas, que se encontram em situação de necessidade”.

 

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