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Combate à Xenofobia
Combate à Xenofobia. Ilustração: site "Espaço Feminismos Plurais"

[Dicionário particular III]

‘x’ de xenofobia – entre o medo e o crime

| 29/07/2026

 

Confundir racismo e xenofobia numa conversa de café parece inofensivo. No entanto, é uma ingenuidade perigosa e num país como Portugal, que gosta de se afirmar como “de brandos costumes”, esta confusão serve, demasiadas vezes, para varrer para debaixo do tapete a gravidade de atitudes que não são apenas preconceituosas e que são ilegais e criminosas.

Para percebermos onde nos situamos, talvez seja útil olhar para exemplos concretos do quotidiano.

Xenofobia é a rejeição do “estrangeiro” (da origem ou nacionalidade). Pensemos em alguém que reclama constantemente com a chegada de imigrantes asiáticos, acusando-os de “vir destruir a nossa cultura”. A aversão, neste caso, não nasce do conceito de raça, mas do medo do estrangeiro e do que vem de fora, aliás, é deste medo que se alimenta a “teoria da substituição”, tão preconizada pela extrema-direita.

Racismo é a discriminação pela cor da pele ou etnia. Pensemos no jovem negro nascido e criado na Amadora, de nacionalidade portuguesa, que é sistematicamente preterido nos processos de seleção para emprego. Aqui, a nacionalidade não está em causa, ele é tão português como qualquer outro, o preconceito incide apenas na cor da pele e em estereótipos associados.

Esta distinção não é apenas semântica, tem peso jurídico. A xenofobia manifesta-se como uma atitude, é uma aversão ou um sentimento social de rejeição. Já o racismo, quando se traduz em atos de discriminação, incitamento ao ódio ou à violência, é crime punível pelo Artigo 240.º do Código Penal do nosso país.

Um dos maiores problemas é que a maioria das pessoas associa o racismo somente a agressões físicas ou a discursos de extrema-direita, esquecendo que o racismo e a xenofobia mais perigosos são os que surgem em modo “piloto automático”. Estão estruturalmente entranhados na nossa sociedade, quer seja numa piada condescendente, na desconfiança ao arrendar um apartamento, ou no espanto por se ver uma pessoa racializada a ocupar um cargo de topo.

Dizer “eu não sou racista” tornou-se uma reação automática de defesa. E enquanto recusarmos fazer um exame de consciência individual e continuarmos a tratar o preconceito como um problema que dizermos ser “dos outros”, continuaremos a ser cúmplices, seja pela ação ou pela omissão, de uma desigualdade que devia envergonhar qualquer democracia.

Reconhecer que vivemos num sistema estruturalmente desigual exige um exercício de honestidade individual. O primeiro passo para combater o preconceito não é negá-lo, mas, sim, questionar os nossos automatismos. Só quando olharmos criticamente para o que consideramos “normal” é que estaremos a transformar a igualdade de direitos numa realidade efetiva.

Africanas, mulheres de etnia cigana e imigrantes. Vivem no bairro da Quinta da Princesa, Seixal, e fazem parte de um projeto de cidadania ativa. Foto © Câmara Municipal do Seixal.

Africanas, mulheres de etnia cigana e imigrantes. Vivem no bairro da Quinta da Princesa, Seixal, e fazem parte de um projeto de cidadania ativa. Foto © Câmara Municipal do Seixal.

Neste sentido, e para que a nossa presença no Mundo seja transformadora, proponho para reflexão pessoal, em família, no grupo de amigos:

Quando vejo alguém na rua, ou nos transportes públicos, reparo na cor de pele e isso influencia a minha perceção imediata sobre a pessoa?

Já fiz ou ri de piadas ou expressões populares que associam certas etnias ou nacionalidades a comportamentos negativos, justificando que “era só uma brincadeira”?

Se estivesse no papel de senhorio ou de recrutador, escolheria alguém racializado, ou imigrante, com os mesmos critérios que usaria para um português nativo?

Quando assisto a comentários ou atitudes preconceituosas no meu círculo de amigos ou família, confronto a situação ou mantenho o silêncio para evitar conflitos?

Quando vejo uma pessoa negra ou cigana a ser abordada pela polícia, assumo de imediato que “alguma coisa fez”?

Alguma vez senti necessidade de dizer que é “um bom cidadão” ou que “cumpre as regras” para justificar a presença de alguém de outra origem ou etnia na minha companhia?

Exijo (mesmo que não o diga) que um imigrante perca os seus traços culturais, sotaque ou tradições para o considerar bem integrado na sociedade portuguesa?

Quando alguém de uma minoria partilha uma experiência de discriminação, a minha primeira reação é ouvir e acolher, ou desvalorizo e penso que essa pessoa está a vitimizar-se ou a ser demasiado sensível?

 

Júlia Costa é cristã na essência, católica por tradição. Ligada à paróquia da Amadora, na Pastoral Juvenil e na Promoção da Comunidade. Mãe de uma filha, avó de três netos. Profissionalmente na área da contabilidade, embrenhada em números, mas desde sempre fascinada pela palavra.

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