O Papa Leão XIV proclamou, desde 10 de janeiro e até final deste ano, um ano jubilar assinalando os 800 anos da morte de Francisco de Assis, ocorrida em 3 de outubro de 1226 – a festa litúrgica é assinalada dia 4. Com esse pretexto, o 7MARGENS publica, até final do ano, nos dias 3 ou 4 de cada mês, uma série de dez textos da autoria de frei Isidro Lamelas, da Ordem dos Frades Menores, professor de Teologia.
O Cântico das Criaturas, que merece as honras de primeiro poema lírico da literatura italiana, tem tanto de novidade como de peculiaridade no seu próprio género. Ernest Renan, considerou-o «le plus beau morceau de poésie religieuse depuis les Évangiles”.
As fontes franciscanas referem este Cântico de S. Francisco sob duas designações: “Cântico do Irmão Sol” (Canticum fratris Solis) e “Cântico das Criaturas“ (Canticum creaturarum).
O título Cântico do irmão Sol, parece, porém, levar a melhor, não só por ser o mais atestado pelas fontes, mas também por estar mais de acordo com a inspiração fundamental do poema. Este título é, além disso, justificado pelo próprio Santo de Assis, “que considerava o Sol a mais bela de todas as criaturas e a que maior semelhança tem com Deus, pois que na Escritura é camado Sol de justiça (Benedictus): Por isso, ao escolher um título para os Louvores que fez sobre as criaturas, deu-lhe o nome de Cântico do Irmão Sol”) (Espelho de perfeição, 119).
Percebemos assim que o Sol não é apenas a primeira das criaturas louvada, mas todo o Cântico está composto sob o signo do Sol “que do Altissimo, porta significatione” (4).
O autor da Compilatio assisiense qualifica este Cântico de Francisco de novo. Provavelmente como eco do Canticum novum do Apocalipse (5,9; 14, 3) e Salmos (95; 97;149 (Cantate Domino canticum novum), retomados no Officium passionis. Mas também podemos ver neste qualificativo de “cântico novo”, o reconhecimento de que o Cântico de Francisco é realmente “novo”, na forma, no conteúdo, mas também na sua intenção programática.
Dirigido ao Altíssimo omnipotente e bom senhor, Francisco não compõe um salmo, embora se inspire nos Salmos e canticos (laudes) litúrgicos (como sugere S. Boaventura); não é uma oração igual ao que até então se conhece; não é tampouco um mero poema modelado livremente ao ritmo da prosa ritmada das canções populares do tempo.
Ele é, por isso, muito mais que uma Oração, ou o cântico de um canta-autor (chansonniers, como então chamavam os trovadores): é, na intenção do seu autor, um guião (vademecum) de reconciliação com Deus, com as criaturas, com o Homem.
Efetivamente, Francisco compôs este Cântico não para se consolar nem para iludir a dor ou aliviar as agruras da vida que também a ele tocaram. Há, sim, uma intencionalidade programática no seu canto: Uma intenção profundamente positiva e uma finalidade pastoral, mas também social e, poderemos dizer, política. O Cântico que Francisco compôs para ser cantado nas praças, no contexto da pregação (cada vez mais urbana dos Franciscanos), é como que um manifesto em que a arte e a beleza da palavra e da música desempenham uma função transformadora. Ele e seus Frades cantam para divulgar a mensagem do Evangelho que, na intenção franciscana, é, em primeiro lugar uma mensagem de paz e reconciliação de todos os seres, humanos ou irracionais.










