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Eugénio Fonseca. Cáritas
Foi na Cáritas Diocesana de Setúbal, a sua cidade, que Eugénio Fonseca começou a ganhar particular notoriedade. Foto: Direitos reservados

Eugénio Fonseca, 1957-2026

Calou-se uma voz maior na luta contra a pobreza em Portugal

Morreu Eugénio Fonseca, que presidiu à Cáritas Portuguesa durante mais de duas décadas e foi uma das vozes mais ativas na defesa da doutrina social da Igreja em Portugal. Depois de uma vida dedicada à ação social, ao voluntariado e à luta contra a pobreza, o ex-presidente da Cáritas e também colaborador do 7MARGENS faleceu esta quarta-feira, 12 de agosto, aos 69 anos. Ainda não são conhecidos os detalhes das cerimónias fúnebres.

Nascido em Setúbal em 1957 e licenciado em Ciências Religiosas pela Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa, foi na Cáritas Diocesana de Setúbal que Eugénio Fonseca começou a ganhar particular notoriedade. Convidado para o cargo pelo primeiro bispo daquela diocese, Manuel Martins – cuja personalidade tantas vezes evocava – aí exerceu a presidência durante vários anos, antes de, em 1999, suceder a Acácio Catarino na direção da Cáritas Portuguesa, onde permaneceria até 2020. À frente da instituição nacional durante sete mandatos, acompanhou algumas das principais transformações sociais vividas pelo país: a chegada de novos fluxos migratórios, a crise económica e financeira, o aumento do desemprego e da precariedade, a crise dos refugiados e, no final do seu mandato, a pandemia de covid-19.

A sua ideia de ação social estava longe de se limitar à assistência. “A ação social da Igreja deve ser profética”, defendia recentemente numa entrevista dada à redação do 7MARGENS e ainda não publicada, entendendo que era necessário “ajudar a eliminar as causas da pobreza”. Considerava a pobreza uma realidade estrutural que não podia ser aceite como inevitável: “Não tem de ser assim, não pode ser assim. Não tem de ser vista como uma fatalidade.”

Essa perspetiva marcou também a intervenção pública da Cáritas durante a sua presidência. A instituição ganhou então uma visibilidade significativa e a voz do seu presidente passou a ser regularmente ouvida no debate público. Um dos instrumentos criados nesse período foi o Núcleo de Observação Social, que reuniu especialistas de diferentes áreas e produziu documentos de intervenção sociopolítica e propostas dirigidas aos responsáveis políticos. No primeiro ano, foram estudadas 1.600 famílias, correspondentes a cerca de cinco mil pessoas.

Mas Eugénio Fonseca teve uma intervenção muito para lá da Cáritas, como deixam entrever as múltiplas reações à sua morte. Durante quatro mandatos presidiu também à Confederação Portuguesa do Voluntariado, três deles enquanto presidente da Cáritas e o último representando a própria instituição. Participou ainda na Plataforma das ONGD e no Fórum Não Governamental para a Inclusão Social, entre outras estruturas de trabalho em rede.

Eugénio Fonseca, pobreza, Dia Mundial dos Pobres,

Eugénio Fonseca em entrevista ao programa 7MARGENS na Antena 1, em 16 de Novembro 2023, a propósito do Dia Mundial dos Pobres. Foto © Carlos Jorge Antunes/Antena 1

A intervenção de Eugénio Fonseca estendeu-se ainda a áreas como as migrações, a pastoral prisional, a formação e a doutrina social da Igreja. Um dos projetos desenvolvidos pela Cáritas durante os seus mandatos, o MIND, procurou apresentar os migrantes e refugiados como “atores de desenvolvimento” e chegou, através das suas ações pedagógicas, a dezenas de milhares de jovens.

No plano da formação, e com Eugénio Fonseca ao leme, a Cáritas criou, em colaboração com a Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa, o curso “Cuidar do Mundo – Introdução à doutrina social da Igreja”, além de vários programas destinados a reforçar as competências das Cáritas diocesanas e das instituições sociais.

Em 2020, deixou a presidência da Cáritas Portuguesa. Continuou, porém, ligado à reflexão sobre a pobreza, a justiça social e a Igreja, nomeadamente enquanto colaborador do 7MARGENS, onde publicou, até ao mês passado, inúmeros textos de opinião e reflexão, mantendo a mesma preocupação que atravessara décadas de intervenção: defender que a fé cristã não pode ficar indiferente às condições concretas de vida das pessoas.

É essa voz que agora se cala, mas que não deixará de ressoar.

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