Morreu Eugénio Fonseca, que presidiu à Cáritas Portuguesa durante mais de duas décadas e foi uma das vozes mais ativas na defesa da doutrina social da Igreja em Portugal. Depois de uma vida dedicada à ação social, ao voluntariado e à luta contra a pobreza, o ex-presidente da Cáritas e também colaborador do 7MARGENS faleceu esta quarta-feira, 12 de agosto, aos 69 anos. Ainda não são conhecidos os detalhes das cerimónias fúnebres.
Nascido em Setúbal em 1957 e licenciado em Ciências Religiosas pela Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa, foi na Cáritas Diocesana de Setúbal que Eugénio Fonseca começou a ganhar particular notoriedade. Convidado para o cargo pelo primeiro bispo daquela diocese, Manuel Martins – cuja personalidade tantas vezes evocava – aí exerceu a presidência durante vários anos, antes de, em 1999, suceder a Acácio Catarino na direção da Cáritas Portuguesa, onde permaneceria até 2020. À frente da instituição nacional durante sete mandatos, acompanhou algumas das principais transformações sociais vividas pelo país: a chegada de novos fluxos migratórios, a crise económica e financeira, o aumento do desemprego e da precariedade, a crise dos refugiados e, no final do seu mandato, a pandemia de covid-19.
A sua ideia de ação social estava longe de se limitar à assistência. “A ação social da Igreja deve ser profética”, defendia recentemente numa entrevista dada à redação do 7MARGENS e ainda não publicada, entendendo que era necessário “ajudar a eliminar as causas da pobreza”. Considerava a pobreza uma realidade estrutural que não podia ser aceite como inevitável: “Não tem de ser assim, não pode ser assim. Não tem de ser vista como uma fatalidade.”
Essa perspetiva marcou também a intervenção pública da Cáritas durante a sua presidência. A instituição ganhou então uma visibilidade significativa e a voz do seu presidente passou a ser regularmente ouvida no debate público. Um dos instrumentos criados nesse período foi o Núcleo de Observação Social, que reuniu especialistas de diferentes áreas e produziu documentos de intervenção sociopolítica e propostas dirigidas aos responsáveis políticos. No primeiro ano, foram estudadas 1.600 famílias, correspondentes a cerca de cinco mil pessoas.
Mas Eugénio Fonseca teve uma intervenção muito para lá da Cáritas, como deixam entrever as múltiplas reações à sua morte. Durante quatro mandatos presidiu também à Confederação Portuguesa do Voluntariado, três deles enquanto presidente da Cáritas e o último representando a própria instituição. Participou ainda na Plataforma das ONGD e no Fórum Não Governamental para a Inclusão Social, entre outras estruturas de trabalho em rede.

Eugénio Fonseca em entrevista ao programa 7MARGENS na Antena 1, em 16 de Novembro 2023, a propósito do Dia Mundial dos Pobres. Foto © Carlos Jorge Antunes/Antena 1
A intervenção de Eugénio Fonseca estendeu-se ainda a áreas como as migrações, a pastoral prisional, a formação e a doutrina social da Igreja. Um dos projetos desenvolvidos pela Cáritas durante os seus mandatos, o MIND, procurou apresentar os migrantes e refugiados como “atores de desenvolvimento” e chegou, através das suas ações pedagógicas, a dezenas de milhares de jovens.
No plano da formação, e com Eugénio Fonseca ao leme, a Cáritas criou, em colaboração com a Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa, o curso “Cuidar do Mundo – Introdução à doutrina social da Igreja”, além de vários programas destinados a reforçar as competências das Cáritas diocesanas e das instituições sociais.
Em 2020, deixou a presidência da Cáritas Portuguesa. Continuou, porém, ligado à reflexão sobre a pobreza, a justiça social e a Igreja, nomeadamente enquanto colaborador do 7MARGENS, onde publicou, até ao mês passado, inúmeros textos de opinião e reflexão, mantendo a mesma preocupação que atravessara décadas de intervenção: defender que a fé cristã não pode ficar indiferente às condições concretas de vida das pessoas.
É essa voz que agora se cala, mas que não deixará de ressoar.






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