Dos homens e das mulheres que fazem obra – e o Eugénio Fonseca deixa uma enorme obra – diz-se habitualmente que percebem antes dos outros o que faz falta e como lhe dar resposta, que sabem organizar estruturas, formar pessoas e convencer muitos da bondade e importância da sua ação. O Eugénio tinha todas essas qualidades. Mas o que nele era mais admirável era a sua capacidade de pedir. Pedir apoio, contributos, ajuda, convergência, críticas e ideias. Tal atitude só era nele igualada pela sua inteira disponibilidade para responder “sim” aos desafios que lhe eram feitos.
Pedir não é fácil. A maior parte das pessoas vive uma vida inteira sem o fazer. Pedir requer humildade e estofo para receber um “não” de volta. Pedir, quando se tem reconhecimento público, longa história de serviço à comunidade, poder e conhecimento, é ainda mais difícil. Mais difícil e mais raro. Os poderosos não pedem. Ordenam, mandam, compram.
Eugénio Fonseca pedia com a mesma humildade tranquila com que participava quase anonimamente nas iniciativas de terceiros que considerava importantes. Lembramo-lo em múltiplos debates via zoom dos tempos de pandemia, ouvindo, intervindo, partilhando a sua opinião e acolhendo o que era dito pelos que dele discordavam. Sem ele (e outros…) não teríamos sabido criar o projeto Memória e Esperança como resposta ao desafio que, em 2021, Manuel Pinto lançou com o objetivo de não deixar varrer para debaixo do tapete, como se faz às memórias proibidas, tudo quanto se tinha vivido durante a pandemia.

Entrevista ao blog Gente Gira da Região em 24 julho 2014. Foto: DR
Uma, entre muitas ocasiões em que o Eugénio respondeu “sim” ao que lhe era pedido e trabalhou nos bastidores e junto de quem conhecia para que um projeto que não era seu fosse avante. Sem o Eugénio ficamos sem um nó que cruzava e ligava muitas e diferentes redes, tornando mais fluída a comunicação, a convergência e a partilha entre vários círculos em que ele se movimentava e animava. Dentro da Igreja Católica, que apesar de nem sempre o tratar fraternalmente, ele continuava a considerar a sua casa, e também noutros âmbitos sociais e políticos. A sua memória impele-nos a não perder o que a sua presença permitia acontecer.
A Cáritas Diocesana de Setúbal, a Cáritas Portuguesa e, depois, a Confederação Portuguesa do Voluntariado, terão sido as obras maiores de um homem que não viveu para si, sempre centrado no serviço aos outros – sobretudo aos que mais precisavam. Dando tudo o que podia e sabia. Contudo, a sua grande paixão, o lugar onde ia buscar a profundidade dessa doação aos outros foi desde cedo a Doutrina Social da Igreja (DSI). Estudioso e conhecedor dos documentos fundamentais da DSI, rejubilava com cada nova encíclica papal, rejuvenescia ao contactar atualizações, progressos e aprofundamentos da DSI. Para ele, ser cristão, ser crente, era conformar a vida com o serviço aos outros proposto pelo pensamento social católico. Pode dizer-se que era uma das últimas pessoas a querer divulgar e pôr em prática esse pensamento, sucedendo a uma geração integrada por Acácio Catarino, Alfredo Bruto da Costa, José Dias da Silva, Manuela Silva, Maria de Lourdes Pintasilgo, ou o padre Agostinho Jardim Gonçalves. E de que também fazem parte António Lage Raposo, Emídio Martins, ou os padres Constantino Alves, Joaquim Batalha, Lino Maia e Luís Martins Ferreira, entre (poucos) outros.
Eugénio Fonseca era também um homem bom. No que a bondade significa de tudo o que já fica dito, e ainda da capacidade que tinha de resistir a contrariedades e mesmo a críticas tantas vezes injustas. Dizia muitas vezes, em conversas com amigos, que perdoava a quem lhe fazia mal, porque era isso que o Evangelho lhe pedia. E era um homem bom, também na capacidade e resiliência com que resistiu ao sofrimento que um problema oncológico, primeiro, e vários problemas de saúde, nos últimos tempos, lhe tinham imposto.

‘Entre todos, Eugénio Fonseca admirava Manuel Martins – “D. Manuel”, como ele dizia – o primeiro bispo de Setúbal, seu grande amigo e homem de grande coragem, que o chamou para presidir à Cáritas de Setúbal.’ Foto: D. Manuel Martins, primeiro bispo de Setúbal (1975-1998). © Luís Filipe Santos/cedida pelo autor
Entre todos, Eugénio Fonseca admirava Manuel Martins – “D. Manuel”, como ele dizia – o primeiro bispo de Setúbal, seu grande amigo e homem de grande coragem, que o chamou para presidir à Cáritas de Setúbal. Visto do dia de hoje, em que enfrentamos a ausência dos dois, há muito de comum entre eles. Acreditamos que estão juntos, felizes na presença d’Aquele por quem esperaram e que elegeram como guia das suas vidas. E por lhes ser agora dado a conhecer o mistério último das suas vidas.
Pode ver textos que Eugénio Fonseca escreveu para o 7MARGENS no seguinte link: https://setemargens.com/author/eugenio-fonseca/
A Redacção










