Até final deste ano, decorre um ano jubilar assinalando o centenário da beatificação e o cinquentenário da canonização de Beatriz da Silva, fundadora da Ordem da Imaculada Conceição. O 7MARGENS tem acompanhado os jubileus que assinalam os 800 anos da morte de Francisco de Assis e o terceiro centenário da canonização e os 100 anos da proclamação de João da Cruz como Doutor da Igreja Católica com textos que ajudam a conhecer e entender melhor essas duas figuras maiores do catolicismo. Também neste caso, a efeméride permite conhecer a pessoa e o pensamento de Beatriz da Silva, uma das principais figuras do misticismo português.
Esta segunda-feira, 17 de agosto, a Ordem da Imaculada Conceição celebrou a Solenidade de Santa Beatriz da Silva, uma estrela que brilhou no século XV e que continua a ser uma estrela para novos rumos.
A fim de partilharmos algum aspeto da vida da nossa fundadora considerámos oportuno ir ao encontro da educação que recebeu na sua infância e do contacto que estabeleceu com mulheres sábias na corte de Castela.
No que diz respeito à sua educação, os biógrafos mais antigos de Santa Beatriz não aludem a factos específicos nesta fase do seu desenvolvimento. Porém, segundo os costumes da classe nobre da sua época, terá sido acompanhada por amas ou por aias, as quais se terão comprometido diretamente com a sua formação, em sintonia com a sua mãe.
De acordo com Fernando da Soledade, permaneceu uma certa tradição acerca da educação dos filhos de Rui Gomes da Silva e de D. Isabel de Meneses, descoberta no século XVIII, que afirmava o contributo dos frades franciscanos neste âmbito, já que a família tinha muita devoção à Ordem de São Francisco de Assis. Alguns membros da família dos Meneses, sobretudo as meias-irmãs de D. Isabel e também a cunhada D. Isabel de Castro, esposa do seu meio-irmão dom Duarte de Meneses, confirmam-nos esta afinidade espiritual com os franciscanos. Relativamente à família de Santa Beatriz, o Convento de São Francisco de Estremoz, vila perto de Campo Maior, sugere-nos uma possível relação com a comunidade dos frades. Consta-se também que os franciscanos exerciam grande influência na classe nobre portuguesa da época, através do seu acompanhamento espiritual, sendo habitual a sua presença na corte. Entre os frades, destacam-se frei Gil Lobo, confessor do rei dom Duarte, e frei Dinis, confessor do rei dom Afonso V, filho e sucessor daquele. O franciscano mais notório de sempre, Santo António de Lisboa, a seguir a São Francisco de Assis, era uma das grandes devoções da família real.
Na última década do século XV, os irmãos de Santa Beatriz, frei Jorge de Paiva e frei Amador da Silva, fundaram o Convento de Santo António de Campo Maior, para uma comunidade franciscana, em que a família dos Silva seria padroeira.
Portanto, Santa Beatriz familiarizou-se desde cedo com a Ordem dos Frades Menores, o que a motivou a vincular a espiritualidade franciscana à Ordem da Imaculada Conceição.

Pintura do século XX, da autoria da irmã Inmaculada López de Lamas, OIC. Imagem: Direitos reservados
Santa Beatriz foi fortemente marcada pela sua mãe, que se sobressaía como uma mulher corajosa. Por isso, Santa Beatriz também deixou o legado de uma personalidade determinada, na qual a virtude da coragem estava bem vincada. Como testemunho da “bravura” de D. Isabel de Meneses, Eanes de Zurara, na Crónica do Conde Dom Pedro de Meneses, dedica um nobre elogio às mulheres de Ceuta, que participaram no combate à invasão dos mouros, chegando a colaborarem na linha de ataque e a matá-los. Numa das violentas investidas à cidade, o cronista descreve que a mãe de Santa Beatriz lutara junto do marido na porta da fortaleza, dando mostras de grande habilidade. Empenhara-se tanto na batalha que chegara a ser ferida. A imagem de uma mãe valente como esta terá contribuído para a crença no valor das mulheres em Santa Beatriz. Neste sentido, D. Isabel de Meneses retratava a mulier fortis do livro do Eclesiástico. Aliás, as mulheres da família dos Meneses seguiriam este modelo, sobretudo a rainha D. Leonor Teles, que servira o reino na qualidade de regente, e a sua filha a rainha D. Beatriz, que fora soberana de Portugal por direito próprio, já que tinha defendido os Meneses na Crise de 1385-1386 e nos anos posteriores.
Da infância de Santa Beatriz, para além da devoção a São João Baptista, também se destaca a sua profunda afeição a Nossa Senhora na sua Conceição Imaculada. Esta veneração foi cultivada no seu seio familiar, começando pelo seu pai Rui Gomes da Silva, que fundara uma Capela dedicada à Conceição da Virgem Maria, situada na igreja do Mosteiro de São Domingos de Elvas, da Ordem dos Dominicanos. O seu pai nascera na diocese de Braga, na qual era celebrada com toda a solenidade, desde o dia 8 de dezembro de 1325, a festa da Imaculada Conceição. Ele também fora criado, escudeiro e por fim conselheiro do rei dom Duarte, o qual publicou a sua conhecida defesa imaculista no livro Leal Conselheiro.
Consta-se que Santa Beatriz terá vivido com os seus pais até aos sete anos de idade, que naquela altura correspondia ao final da etapa da infância. Tal como os seus irmãos e irmãs foi acolhida cedo na corte real. De acordo com as páginas que a Irmã Juana de San Miguel escrevera sobre Santa Beatriz, ela veio de Portugal para a corte de Castela com pouca idade e na qualidade de dama da rainha D. Isabel, segunda mulher do rei dom Juan II daquele reino. Rui Gomes da Silva terá motivado a que Santa Beatriz fizesse parte da corte, por causa das cordiais relações que mantinha com a infanta D. Isabel. Neste contexto, a Santa juntou-se às suas irmãs D. Branca, D. Guiomar e D. Maria, que já estavam como acompanhantes permanentes da rainha e das infantas, e, posteriormente, as suas irmãs mais novas, D. Mécia e D. Leonor, ingressaram como donzelas de diferentes princesas. Santa Beatriz também teve fácil acesso à corte por causa da sua linhagem: pertencia à mesma família da infanta, pois ambas eram descendentes do rei dom Sancho I de Portugal, mas a primeira era-o por via bastarda e a segunda por via legítima. Para além destes laços familiares comuns, a infanta também pertencia à estirpe dos Silvas e à estirpe dos Meneses.
A infanta D. Isabel era considerada uma mulher cheia de bons princípios e com grande capacidade de aconselhamento. Foi nomeada conselheira do rei de Castela, uma incumbência atribuída apenas aos homens naquela época. Da sua filha D. Isabel também ecoava uma grande fama, por causa da sua sabedoria. A segunda filha também chamada de Beatriz, foi a mãe do Rei D. Manuel de Portugal e uma poderosa senhora do Renascimento, liderando a sumptuosa casa deixada pelo marido. Também se destacou como governadora da Ordem militar de Cristo, sendo esta nomeação pioneira na história, já que a Ordem era exclusivamente masculina. Sobressaiu-se também como representante do Rei de Portugal na qualidade de negociadora do Tratado das Terçarias, em 1479, com o reino de Castela. No conjunto, D. Beatriz deixou a marca de uma mulher ilustre. E a filha mais nova da Infanta, D. Filipa, também se comprometeu com este tratado, tornando-se protagonista secundária. Sabe-se que foi uma das senhoras de Almada e que orientou a sua própria vida de forma independente, permanecendo solteira por escolha pessoal.
Aludimos a alguns aspetos destas quatro princesas, devido à sua influência na educação de Santa Beatriz. Na sua presença assimilou a educação materna, de acordo com os costumes vigentes na família real portuguesa no século XV. Por causa do fácil acesso da corte ao mundo da cultura, a Santa terá conhecido alguns livros importantes do seu tempo, como o famoso Livro das Três Virtudes, de Cristina de Pisano. Esta obra era dirigida às princesas e suas damas, ensinando-as no protocolo e na formação moral. Fora composta pela primeira escritora do Ocidente a sustentar a família com a seu trabalho intelectual, defendendo com inteligência e criatividade a dignidade das mulheres num meio masculinizante.

Santa Beatriz da Silva recebeu uma educação integral na corte e fortaleceu a sua devoção ao mistério da Imaculada Conceição. Imagem: Direitos reservados
A Santa, junto de D. Isabel, recebeu uma esmerada formação humanista, na qual as artes do canto e da música, da dança e da iluminura estavam integradas. E também aprendeu o latim, o castelhano e o francês – usado com frequência desde a vinda da Rainha D. Filipa, avó paterna de D. Isabel –, línguas necessárias no ambiente cortesão. Esta Rainha culta e religiosa marcara positivamente a corte portuguesa. Os seus filhos constituíram uma ilustre geração de príncipes, pelas áreas do saber nas quais enveredaram e se dedicaram.
Santa Beatriz da Silva recebeu uma educação integral na corte e fortaleceu a sua devoção ao mistério da Imaculada Conceição. Uma mulher forte que soube ser coerente com os seus valores num horizonte de eternidade, tendo a ousadia de fundar uma Ordem exclusivamente feminina para permitir às mulheres do seu tempo outros rumos de realização humana e espiritual.
Bibliografia
José Félix Duque. Dona Beatriz da Silva. Vida e Obra de Uma Mulher Forte. 1a edição. Maia: Labyrinthus, 2008.
A irmã Ana Isabel do Coração de Jesus integra a comunidade do Mosteiro de Santa Beatriz da Silva (Viseu), da Ordem da Imaculada Conceição (OIC).








