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Antigos doentes de lepra no Vietnam. Foto Hoi Ban Nguoi Cui
Antigos doentes de lepra no Vietnam. Muitos ficaram com com incapacidades físicas permanentes. Foto © Hoi Ban Nguoi Cui

Vietname

“O que mais os comove é serem visitados”: religiosas acompanham antigos doentes de lepra

| 20/08/2026

Apesar do recuo da lepra no Vietname, antigos doentes e as suas famílias continuam a enfrentar discriminação, pobreza e isolamento. Religiosas de diferentes congregações visitam-nos regularmente, levam alimentos e apoio material, mas sobretudo presença, escuta e proximidade.

No final de uma rua sem saída, junto a um cemitério, a pequena Anna Le Thi Trung Hieu, de sete anos, tentava manter um papagaio no ar quando as religiosas chegaram, num dia de maio. O seu avô morreu de lepra, o pai de covid-19, e a mãe partiu à procura de melhores condições de vida. Anna vive agora com a avó, que percorre diariamente bairros distantes de bicicleta para vender cautelas da lotaria, regressando normalmente já depois de anoitecer.

Anna é uma das dezenas de filhos e netos de pessoas que tiveram lepra, também chamada de hanseníase ou doença de Hansen, que vivem em comunidades entre Hue e Da Nang, no centro do Vietname. Para estas famílias, as marcas da doença não são apenas físicas: permanece também uma ferida social, alimentada por décadas de rejeição e discriminação.

É neste espaço que se desenvolve, há anos, o trabalho discreto de várias congregações religiosas católicas, conta este mês o Global Sisters Report. As irmãs visitam regularmente antigos doentes e as suas famílias, levam alimentos, roupa e algum dinheiro, apoiam crianças e estudantes e, sobretudo, sentam-se com as pessoas, conversam com elas e fazem-nas sentir que não foram esquecidas.

“Estas visitas destinam-se a ajudá-los a reconhecer o amor de Deus”, explica a irmã Marie Anna Phan Thi Suong, das Irmãs Amantes da Santa Cruz. “O que mais os comove é serem visitados, cumprimentados, ouvidos e tocados.”

Uma doença em declínio, um estigma que permanece

A lepra é uma doença infecciosa crónica causada principalmente pela bactéria Mycobacterium leprae. Afeta a pele, os nervos periféricos, as mucosas das vias respiratórias superiores e os olhos. Mas é curável e, quando tratada precocemente, é possível prevenir muitas das incapacidades que lhe estão associadas.

O Vietname tem registado uma redução muito significativa de

novos casos. De acordo com dados citados pelo Global Sisters Report, depois de mais de mil novos casos identificados entre 2012 e 2016, o país registou apenas 38 novas infeções em 2025, o número mais baixo de sempre.

As autoridades vietnamitas estabeleceram como objetivo chegar a 2030 sem novas transmissões, sem incapacidades provocadas pela lepra e sem discriminação relacionada com a doença. Mas o estigma, esse, permanece.

Cerca de seis mil pessoas continuam sob acompanhamento médico no país, a maioria já curada da infeção, mas muitas delas vivem com incapacidades físicas permanentes. Le Trai, de 82 anos, é uma dessas pessoas. Protestante, vive com as mãos deformadas pela doença numa área de realojamento em Da Nang. Raramente sai do bairro, por receio de ser discriminado.

Recorda uma ocasião em que percorreu cerca de 500 metros para assistir a um espetáculo de dança. Parou para comprar um sumo de cana-de-açúcar, mas, quando outros clientes repararam nas suas mãos, afastaram-se e o vendedor recusou-se a servi-lo. “Senti-me profundamente magoado”, conta.

Trai vivia anteriormente na aldeia costeira de Hoa Van, criada em 1968 pelo pastor protestante norte-americano Gordon Smith e que chegou a acolher mais de 350 pessoas com lepra e respetivas famílias. Em 2012, os habitantes foram obrigados a abandonar o local para dar lugar a um empreendimento turístico. Os doentes que ainda necessitavam de cuidados foram encaminhados para estruturas de saúde e os restantes foram realojados nos arredores da cidade.

 

“Sem a ajuda das irmãs, não teríamos sobrevivido”

Teresa Nguyen Thi Duoc, de 45 anos, foi curada da lepra em 2007. Depois da doença, tentou ganhar a vida a vender peixe de porta em porta para sustentar o filho, mas os clientes recusavam comprar-lhe e os empregadores não a aceitavam. “Sem a ajuda das irmãs, não teríamos conseguido sobreviver até hoje”, afirma.

Encaminhada para as Irmãs de São Paulo de Chartres, Teresa começou a participar na distribuição diária de alimentos a doentes oncológicos num hospital local. As religiosas ajudaram-na também a alimentar o filho e a pagar a sua escolaridade. Em 2019, converteu-se ao catolicismo. Com a ajuda de benfeitores, conseguiu comprar um pequeno terreno noutra zona da cidade, onde construiu uma casa e abriu uma pequena mercearia.

A história de Teresa é, para as religiosas, um exemplo daquilo que a proximidade continuada pode conseguir: não apenas aliviar uma necessidade imediata, mas ajudar alguém a reconstruir a própria vida e a recuperar um lugar na comunidade.

Irmãs de S. paulo de Chartres com antigos doentes de lepra no Vietnam. Foto Hoi Ban Nguoi Cui

Irmãs de São Paulo de Chartres com um grupo de voluntários que acompanham antigos doentes de lepra. Foto © Hoi Ban Nguoi Cui

 

Visitas que atravessam os anos

No passado dia 30 de maio, quatro religiosas das Filhas de Maria da Imaculada Conceição, provenientes de Phu Loc, em Hue, e cinco voluntários entraram num autocarro carregados com óleo alimentar, açúcar, sal, doces e roupa, relata ainda a reportagem do Global Sisters Report. O destino eram 25 famílias afetadas pela lepra, entre Lang Co e Hai Van.

Ao chegarem, cantaram com os doentes, distribuíram presentes e passaram tempo com crianças, pais e avós. A irmã Marie Martha Tran Thi Tuyet conta que, ao longo de dez anos de visitas, aquela foi a primeira vez que as religiosas puderam brincar com as crianças. As deslocações anteriores tinham acontecido durante o período escolar. Mas nesse dia houve corridas de sacos, jogos de balões e cabo de guerra. Mais de 30 crianças participaram.

Para Tuyet, a diferença entre gerações era evidente. As crianças mostravam-se abertas, confiantes e livres, algo que atribui ao tratamento igualitário que recebem nas escolas. Já os avós continuam a carregar a ansiedade interior de quem passou grande parte da vida a ser estigmatizado.

Anna, a menina de sete anos que as irmãs tinham encontrado a brincar com o seu papagaio junto ao cemitério, também brincou com elas pela primeira vez. “Gosto de brincar com os meus amigos”, disse então, sorridente.

Hoje é uma das cem crianças do ensino básico em situação de dificuldade que recebem bolsas de estudo através do trabalho das religiosas.

 

“A empatia é o fio que nos liga”

A comunidade de Suong acompanha cerca de 30 pessoas com lepra desde 2000. As religiosas fazem cerca de oito visitas por ano, levando arroz, óleo alimentar, dinheiro, roupa e cobertores. Em alguns casos, asseguram também os caixões de pessoas que morrem na pobreza.

O apoio estende-se às novas gerações: as irmãs batizaram cinco recém-nascidos, acolheram sete crianças órfãs com deficiência e atribuíram bolsas de estudo a 26 estudantes necessitados.

Entre as pessoas acompanhadas está Nguyen Quoc Tuan, de 17 anos, que contraiu a doença dos avós. Foi curado em 2018, mas ainda sofre com problemas de pele durante a estação seca. Tem os pés contraídos e não consegue pôr-se de pé. O pai abandonou a família e a mãe sustenta-o sozinha, cultivando arroz e fazendo vassouras para vender entre as colheitas.

Também Agnes Do Thi Vinh, de 64 anos, contraiu lepra dos pais. Vive sozinha com uma pensão estatal de cerca de 30 euros mensais, à qual se juntam aproximadamente 19 euros e 20 quilos de arroz que recebe todos os meses das religiosas.

Quando as cheias de 2020 lhe destruíram a porta, a cama e os cobertores, as irmãs ajudaram-na a iniciar uma pequena criação de galinhas. Hoje, tem mais de 50 aves e consegue obter cerca de 19 euros por mês com a sua venda.

Para a irmã Tuyet, porém, a ajuda material é apenas uma parte daquilo que estas pessoas necessitam. A religiosa recorda uma visita, no Advento de 2025, a uma mulher de 82 anos, acamada devido à doença. Ajudou-a a sentar-se, segurando-a com as duas mãos, e deu-lhe um bolo doce. “É a empatia que nos liga a elas”, afirma. “Alivia a sua solidão.” A mulher volta repetidamente a falar daquele abraço, conta Tuyet. “Porque a fez voltar a sorrir.”

 

Estar presente quando os outros já partiram

Apesar de ser muito gratificante, o trabalho das religiosas não é fácil: algumas famílias vivem nos extremos das aldeias, acessíveis apenas por caminhos sinuosos percorridos a pé; quando os idosos não têm telefone, é preciso perguntar aos vizinhos até os encontrar; e as próprias congregações enfrentam dificuldades para reunir donativos.

“Mas, por causa da caridade, continuamos a tentar ultrapassar estes obstáculos”, diz Tuyet.

Mais do que uma intervenção pontual, a missão assenta na persistência: voltar todos os anos, em todas as estações, percorrer estradas difíceis e chegar com aquilo que é possível levar.

Para pessoas que durante décadas conheceram a rejeição, essa presença continuada tem um significado que ultrapassa o valor dos alimentos, da roupa ou do dinheiro entregue. É a certeza de que alguém regressa.

“Estas visitas destinam-se a ajudá-los a reconhecer o amor de Deus”, insiste Suong. E, para quem viveu grande parte da vida marcado pela doença e pelo estigma, haverá melhor forma de tornar esse amor visível do que alguém chegar, sentar-se ao seu lado, pegar-lhe na mão e permanecer?

 

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