Deus é real, mas isso é diferente de verdadeiro. É antes uma experiência, não uma pessoa ou uma causa.
In: Jan Oegema. Een apart soort moed. Etty Hillesum nu (Um tipo de coragem especial. Etty Hillesum agora). Boom, 2027 (p.27).
Sobre a coragem
Quando em 1981 cheguei a Lisboa com o diário de Etty Hillesum, lembro-me de como estava “entusiasmada”, (no sentido de “ser inspirada por Deus”, de “ter Deus dentro de mim”?). Partilhei com várias amigas do Graal o conteúdo deste seu livro, intitulado Het verstoorde leven, mais tarde traduzido em português como Uma vida interrompida.

A obra da Etty teve um eco forte pelo mundo fora. Foi traduzida em muitas línguas e os livros sobre ela não param de aparecer. “Porque é que os seus diários continuam a ser uma fonte de inspiração tão grande?”, pergunta a jornalista Mirjam van Hengel https://nl.wikipedia.org/wiki/Mirjam_van_Hengel no jornal neerlandês de Volkskrant, no dia 9 de Julho de 2026. Referia-se ao livro de Jan Oegema, livro recém publicado em neerlandês, cujo título traduzo literalmente: Um tipo de coragem especial. Etty Hillesum agora.
Acabei de o ler. Vou transcrever algumas frases que me alimentam no sentido de pensar o que implica, para cada pessoa, ter coragem nas situações mais diversas: algumas extremamente “duras” e inimagináveis, como da Etty, outras mais “correntes”, mas muitas vezes também vividas como quase insuportáveis.
No início do livro de Oegema encontrei um comentário seu particularmente desafiante:
“Tu pensas que estás a ler Hillesum, entretanto ela está a ler-te a ti. Como é possível? Deixar-se ler por Hillesum significa reencontrar o contacto com o outro e com o diferente, dentro e fora de ti próprio (p.21)”. Como conseguimos encontrar o outro e o diferente dentro de nós próprias?
Segundo Oegema, Etty Hillesum usou muitas vezes a expressão “viver a partir do meu centro”. Implicando a “auto-coragem”, e comenta: “viver a partir do meu centro”, implicando aquilo a que ele chama “auto-coragem”. E comenta:
“A auto-coragem é uma coisa rara, tem exigências fortes e tem um foco duplo: transformar e reforçar o próprio eu, de modo que possa ir ao encontro do outro sem estar sujeito às limitações provocadas por incertezas, tabus ou convenções (p.87)”.
Numa carta a Julius Spier, no dia 10 de agosto de 1941, Etty escreve: “Voltei a ter contacto comigo própria, com o mais profundo e o melhor que está dentro de mim e que chamo Deus (…)” p.88. Segundo Oegema, Etty consegue aquilo que outros filósofos contemporâneos, como Heidegger, não conseguiram: unir a filosofia à vida. (p.145). Tentou ser uma pessoa “sem ego, em completo sossego e totalmente disponível” (p.162). Uma pessoa com uma “modéstia religiosa”, como insistia Dietrich Bonhoeffer, ao dizer que “o ser humano religioso não sabe mais do que o ser humano não-religioso” (p.166).
Jan Oegema compara o discurso de Etty Hillesum ao dos Cabalistas medievais: “E Deus? Qual é o papel dele? É claro que ela não espera nada d’Ele, não O acusa de nada. Para ela é evidente que Ele nada tem a ver com o Massenschicksal (destino coletivo). Na perceção da Etty, Ele não tem, nem ambiciona ter, poder. Neste sentido, o seu raciocínio é como o dos Cabalistas medievais, que argumentaram que Deus, depois do ato dramático da criação, cheio de surpresas, se retirou em si-próprio, e assim deixou a responsabilidade da sua obra inacabada aos seres humanos” (p.175). Este trabalho que Deus nos deixou, implica encontrar o outro e o diferente dentro de mim. E, não menos importante: ir ao encontro do “outro”, sempre. Dar o primeiro passo e, com coragem, sair da zona do conforto, sabendo que nunca sei mais do que o “outro” que está a minha frente.
Oegema considera Etty Hillesum “uma pedagoga da coragem, alguém que desafia a imagem do ser humano pós-moderno” (p.194). E pergunta: “Será que Etty Hillesum, esta santa semi-hedonista , nos pode trazer algum sentido neste novo tempo apocalíptico? A resposta[…] é sim” (p.204). Porque a força do eu que ela experimenta é como se viesse de outro. Porque é isso que nos acontece na coragem: “a força-do-eu liga-se à força-do-outro” (p.206).

Na parte final do seu livro sobre Etty Hillesum, Oegema cita a poeta neerlandesa Lieke Marsman https://share.google/4VXeG91hwAJhLSnpc , falecida no dia de 3 junho de 2026: “Viver é sofrer e, mais importante ainda, sofrer é viver”(p.214), lembrando-se de uma frase de Oscar Wilde: “Where there is sorrow, there is holy ground” (“Onde há sofrimento, há solo sagrado”.) Pisar o chão sagrado do sofrimento exige a contínua procura de possíveis respostas.
No passado mês de junho iniciou-se na televisão neerlandesa uma série de seis episódios sobre a vida da Etty, mais um sinal de como a sua história de vida continua atual, quarenta e cinco anos depois de o seu diário ter sido publicado.
Sobre o não-saber
Depois de ter lido o livro de Jan Oegema sobre Etty Hillesum, comecei a ler outro livro deste autor, intitulado na tradução que fiz para português: A voz silenciosa. O não-saber como atitude em relação à vida. Livro publicado já em 2011. Logo no início do livro, encontrei um excerto que me fez lembrar uma experiência que tivemos, há muitos anos, num grupo do Graal no Porto durante uma dinâmica intitulada “Dire”, “Dizer”.
Sentadas em roda, cada pessoa falava do que a inspirava num texto, lido por cada uma no início do encontro. Sem comentários, apenas partilha do que cada participante sentia e do que fazia sentido para si.
Uma experiência idêntica descreve Christien Brinkgreve em 2021 no prefácio deste livro de Oegema:
“Estivemos sentados numa roda, alguém leu em alta voz um poema de Rilke, e depois o encontro seguiu um rumo diferente daquilo a que eu estava habituada: não se explicou o que o poeta quis dizer, mas cada pessoa dizia, após algum silêncio, o que lhe tinha tocado, sem que uns reagissem aos outros (p.11)”.

Para Brinkgreve o livro “A voz silenciosa é um tesouro para recuperar atitudes que fazem muita falta nos dias de hoje: […] Abertura […] Silêncio[…] Consciência de ambiguidade […] Recusa de se deixar classificar e encerrar […] Não-saber […] Preservação do encantamento (p.12)”.
Sublinho a atitude do não-saber. Na introdução do seu livro Oegema explica como ele entende o não-saber. Tentarei traduzir o melhor possível alguns excertos, apesar de ser difícil. Palavras que me desafiam na procura, na “apreciação” da postura do não-saber:
“O não-saber […] manifesta-se sempre num contexto determinado, como também se manifesta como um dado difícil de contornar” (p.17).
“O não-saber começa lá, onde o espanto sobre existência se enraíza na perceção da própria existência. O não-saber se torna visível onde a consciência se dá conta da estranheza da consciência e, por este motivo, tem dificuldade em assumir posições firmes, também em relação ao próprio não-saber” (p.19).
Fica em aberto o desafio de tentarmos saber lidar com este “não-saber”. Com as palavras de Oegema já no final do seu livro:
“Eu sou uma pessoa religiosa, não porque pertenço a uma determinada tradição religiosa, mas porque sei que não sei. […] O não-saber é um talento que ninguém pode reclamar para si – porque, de outro modo, uma pessoa saberia mais ou melhor o não-saber do que a outra pessoa” (156-157).
Neste momento, tento render-me ao não-saber, vivendo a dinâmica de um novo recomeço na “minha terra”, a vila de Noordwijk, na Holanda. Tento viver este tempo de uma forma “leve”, sem pressa, aceitando as incertezas, tentando relacionar-me com pessoas em diversos novos contextos: livraria, biblioteca, projeto Bem-estar do município, a rede Palliam da Igreja local. O que vou conseguir realizar ainda se encontra neste registo do não-saber, que tento encarar com coragem, de uma forma leve, mais leve possível. Recorro de novo a Fernando Pessoa, como já fiz na parte final de um outro texto meu, publicado aqui nos 7Margens:
Leve, leve, muito leve,
Um vento muito leve passa,
E vai-se, sempre muito leve.
E eu não sei o que penso
Nem procuro sabê-lo.
(Fernando Pessoa. In Poemas de Alberto Caeiro. Arquivo Pessoa)
Com muita gratidão às minhas amigas Fátima Silva e Glória Miraldes por me terem corrigido o meu “Português de estrangeira”.
Marijke de Koning, neerlandesa, trabalhou como pedagoga social e educadora de adultos, predominantemente no contexto do Graal, movimento internacional de mulheres enraizado na fê Cristã.










